Meu Coração só irá bater se você pedir

Fascínio pelo vampirismo em sua faceta humana mais vulnerável

por

03 de novembro de 2020

Outro exemplar digno de nota é “Meu coração só irá bater se você pedir”, de Jonathan Cuartas (2020). Um título extremamente poético, mas ironicamente utilizado para representar um filme de terror. Talvez a premissa lembre o Cult sueco “Deixe Ela Entrar”, de Tomas Alfredson (2008), sem querer dar nenhum spoiler. Basta dizer que um casal de irmãos cuida do terceiro acometido por uma doença rara, que lhe faz precisar de sangue humano para sobreviver (existem de fato diagnósticos reais para isso). Ou seja, não há um tom fantástico na história, pois há raízes clínicas utilizadas aqui afora do misticismo de se beber sangue como os vampiros. Porém, os limites éticos do que a família é obrigada a fazer na sua sobrevivência, de fato, são realçados aqui.

Esteticamente, o filme é um primor de oposições entre o sépia e tons mais sombrios, apenas iluminando as personagens passíveis de sair na rua (pois o irmão adoecido também é fotossensível, ferindo-se com a luz intensa). Neste sentido, por termos alguns conceitos do vampirismo aplicados à extrema fragilidade humana, retirando-o da potência que costumamos admirar, nos dá até novas empatias pela ligação existente entre nosso fascínio pelo mito e encarar nossa própria mortalidade.

Os artistas também seguram firme as rédeas do ritmo mais lento, interiorizado. Até o agora mais maduro e calejado ator Patrick Fugit (o eterno rapaz jornalista de “Quase Famosos”, 2000) equilibra a trama um pouco vitimizadora que o coloca como principal perspectiva a nos guiar, vilanizando em excesso a única mulher da família como irmã no lugar de matriarca, na pele de Ingrid Sophie Schram (de “Trama Fantasma”, 2017). Este lugar de que a mulher é sempre obrigada a tomar uma liderança incômoda ante uma condescendência com a imaturidade dos eternos Peter Pan pode soar decerto incômoda, especialmente se perdoa personagens masculinas por suas omissões, como se não possuíssem vontade própria… Porém, se encararmos o ponto de vista do irmão doente como referencial, mesmo que o filme o oculte um pouco para manter o suspense, ao menos as motivações dos outros dois se tornam um pouco mais palatável. Um bom filme, mas cujo maior problema é o protagonismo para uma já desgastada jornada do herói falho que toda a trama passa a mão na cabeça.