Meu Corpo Elétrico é Queer e Político

Queerfuturismo em pauta no cinema brasileiro e no mundo

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28 de agosto de 2019

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À luz das polêmicas envolvendo censura governamental a filmes LGBTQIA+, o Almanaque Virtual volta a trazer à tona e atualiza o presente texto que fala sobre a importância da linguagem LGBTQIA+ no cinema brasileiro atual inserido com prestígio no cenário global, com uma série de prêmios internacionais, inclusive abordando a vanguarda brasileira no Queerfuturismo e outros assuntos interligados. O texto originalmente foi publicado em 07 de novembro de 2017 e aborda inúmeras obras que serão citadas ao longo dos parágrafos abaixo:

Há mais ou menos um mês, uma produtora francesa se dirigiu a mim pedindo auxílio com a pesquisa por um cinema queer e trans, além de artistas em geral que representassem estas questões, para a possibilidade de fazer um documentário. Eu despertei a atenção dela após ter realizado em meu Cineclube Ação e Reflexão no Tempo Glauber uma edição especial de Visibilidade Trans, reunindo alguns nomes do meio artístico com inúmeros curtas com a temática ou realizados por pessoas trans, como Julia Katharine, Galba Gogoia, Miro Spinelli e Calí dos Anjos. Esta edição, por si, havia sido inspirada por uma experiência imediatamente anterior, quando fui jurado em um Festival universitário onde, por encontro de destinos, quase todos os filmes exibidos eram centralizados em personagens trans, uma premência cada vez mais necessária e desinvisibilizada na sociedade atual. Entretanto, ainda assim, perguntei por que a produtora francesa veio até o Brasil para fazer tal documentário e não em seu país de origem, e sua resposta foi que a Europa não está nem a meio caminho do avanço do reconhecimento que o Brasil está emanando para o mundo com figuras públicas trans, travestis, queer (na expressão bastante analisada pela pesquisadora Judith Butler) ou mesmo não-binárias bastante influentes, desde artistas como Pablo Vittar, Liniker, Linn da Quebrada e Jup do Bairro, As Bahias e a Cozinha Mineira, Gloria Groove, Aretuza Lovi, Mulher Pepita, Banda Uó, Mc Trans (Camilla Monforte Transanitta), Mc Xuxu, Lia Clark, Jaloo (se identifica como não binário), às modelos Lea T e Valentina Sampaio, e dançarinas Kimberlly Bey, Duda Mel, Danna Lisboa etc…

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É curioso de se pensar em dados de avanços positivos logo num país com um dos números mais assustadores de transfobia, incluindo recorde de homicídios de pessoas trans, mas contraditoriamente são nas nossas artes que reside muita chance de mudança. Sabemos que é através da cultura e da educação que se forma uma Nação para o futuro, mesmo que políticas atuais estejam retrocedendo estes direitos fundamentais, porém um quesito nas nossas artes que transgride todas as barreiras anda juntando o tropicalismo e a antropofagia juntamente com a Teoria Queer sobre não binariedade de gêneros e fluidez da sexualidade para desembocar em uma revolução cada vez mais pronunciada: o Queerfuturismo ou transfuturismo. A palavra futurismo como um movimento não é nova, usada pela primeira vez no início do século passado por meu quase xará, o poeta italiano Felippo Marinetti, e já tendo sido conjugada a algumas outras vertentes, como por exemplo o afrofuturismo. O conceito artístico em si exprime em geral uma fragmentação da expressão para gerar ideia de movimento e dinamismo, identidades em constante transformação, e costuma ressignificar os costumes e tradições em prol de avanços tecnológicos, emulados por cores vivas e contrastes muitas vezes por luzes de neon ou fosforescentes na escuridão.

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Por isso, não dá para se falar sobre alguns filmes de poucos anos para cá sem conjugar uma força que eles andam tendo em conjunto, de forma evolutiva, e dois deles (em longa-metragem) se comunicam como num ápice neste ano: a ficção “Corpo Elétrico” de Marcelo Caetano e o documentário “Meu Corpo É Político” de Alice Riff. Além de ambos abarcarem a teoria queer no sentido amplo e a visibilidade trans no sentido estrito, ambos brincam com a montagem e o uso do corpo na distribuição dos planos como forma de democratização das telas. Dão calor às luzes frias da noite dominada por prédios vorazes, mas não se deixam engolir materialmente. Vagueiam em meio aos grafites das periferias urbanas fazendo seu próprio sentido, em torno do qual toda a lógica do filme transborda catarticamente junto com a plateia. Uma mutação constante e camaleônica, descascando a pele para renová-la e reivindicar a identidade por sob a pele antiga.

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Primeiramente, “Corpo Elétrico” de Marcelo Caetano, em sua linguagem neon noir, pende para uma teoria mais marxista, reivindicando a mais-valia do corpo como mão-de-obra, e se usa das famílias trans como analogia sindical de união laboral em fábricas que robotizam os homens, provando que as minorias de direitos unidas na sociedade sempre serão mais fortes. O filme inova em inúmeros momentos cruciais para a filmografia brasileira recente, especialmente em 3 cenas inovadoras para os anais da história, tanto estética quanto eticamente. A primeira e mais lembrada pelos cinéfilos em geral é a celebração do matrimônio de um casal hétero e cis no filme celebrada por um coletivo LGBTQIA+, dentre pessoas trans, travestis e gays. O fato de ser realizado um ritual formalístico em nossa sociedade ainda demasiadamente presa à colonização por traços europeus cristãos, mas subvertendo e se reapropriando da tradição a partir da ocupação por corpos que em geral seriam excluídos dela, faz com que o filme se eleve a outro patamar não apenas estético como jurídico de paridade de direitos. E, o fato de aqueles que celebram serem sujeitos ativos ritualísticamente na cena e serem LGBTQIA+, e não objetos passivos (no caso, o casal hétero e cis, que aceita e celebra em conjunto a autoridade formal dos celebrantes), transforma a cena numa reivindicação de identidade sob qualquer tabula referencial, até mesmo a anteriormente excludente.

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Já em outra cena, o grupo de personagens que trabalha num fábrica se reúne no horário de saída através de um travelling em plano sequência que vai enquadrando uma a uma das amizades num ato contínuo na rua que abarca cada um dos sujeitos como um corpo único, mas ao mesmo tempo plural. Uma incrível jogada de câmera que atualiza a força da mais-valia para todos os entes sociais, sejam eles cis, trans, héteros ou homossexuais, homens e mulheres, brasileiros natos ou imigrantes, numa singela declaração queer-marxista — um ponto cego que outrora talvez nem Marx possa ter tido a oportunidade de contemplar em seu período ora anacrônico para nós.

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Por fim, a terceira cena inesquecível e vanguardista é o balé de motos iluminadas por lâmpadas LED de neon, de modo a brilhar na rua que majoritariamente mulheres guiam a direção dos veículos, sejam elas cis ou trans, enquanto que os homens vão nas garupas — retomando a constituição social matriarcal independente da ditadura cisgênera que por tanto tempo excluiu qualquer outra possibilidade. Uma das raríssimas cenas do filme em que toca uma trilha extradiegética, mergulhando a cena no lirismo do extracampo onde a performatividade deste balé automotivo não poderá ser retirada de seus agentes, pois lhes pertence num campo do eterno.

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Agora, mudando o filme referencial, “Meu Corpo É Político” coloca um microscópio nos indivíduos deste corpo coletivo, possibilitando perpassar uma gama diferenciada de microcosmos. Isto se faz necessário pelo fato de que infelizmente, mesmo diante de todos os avanços, ainda há poucos referenciais positivos na cultura de massas que abrace questões de não binariedade de gênero e liberdade sexual, então é um acerto de Alice Riff evitar as armadilhas do didatismo para aflorar o próprio lugar de fala das pessoas trans entrevistadas.

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Há de se alcançar uma sensibilidade muito grande para o nível de intimidade necessário com que a direção de fotografia de Vinícius Berger acompanhou a vida privada destes corpos, os quais já são discriminados por parcelas ignorantes da sociedade (lembrando que discriminação hoje em dia é crime por Lei!), e aqui são desmistificados por toda a sua beleza e também dissabores, ocasionados por transgredir em simplesmente querer existir onde não lhes compreendem.

A trama visita o cotidiano mais comum do homem trans Fernando Ribeiro, de Giu Nonato e Paula Beatriz (mulheres trans) e da artista queer Linn da Quebrada, todos à época já engajados em seus respectivos polos tanto profissionalmente quanto pessoalmente, fazendo de suas vidas exemplos. Há alguns casos de aplicação deste aprendizado para o bem de terceiros em transmitir autoaceitação e amor próprio, como Giu Nonato que tira fotos de nudes artísticos de pessoas fora do padrão imposto de beleza, ou mesmo como Paula Beatriz que é diretora de escola primária e ensina às crianças desde pequenas o respeito mútuo e compreensão e amor às diferenças. Sem falar em Linn da Quebrada que à época já despontava como precursora nas letras e performances musicais engajadas subvertendo a objetificação do funk em empoderamento afirmativo da diversidade sexual.

Alice com certeza teve a benção do trabalho coletivo, de construção progressiva de acordo com que estas vidas e artes invadiam sua câmera, tomando o cuidado de expandir o plano quando necessário para não perder nenhuma palavra ou significado, ou enquadrar os momentos mais afetuosos para empregar a identificação necessária com a emoção transposta, como nas cenas usando o reflexo das protagonistas em superfícies espelhadas para reduzir o quadro e alcançar a essência. Delicadeza esta também demonstrada nas cenas em que as personagens ‘montam’ suas personas, assim como qualquer pessoa faz antes de sair de casa, seja o homem que precisa fazer a barba e passar gel no cabelo, à mulher que escolhe se maquiar e escovar seu cabelo, ou uma pessoa trans que precisa fazer o esforço duplo para se sentir acolhida nos regramentos coletivos. E até mesmo a performance artística drag que usa do exagero e excessos como catarse que se converte em novas vidas no palco, numa das expressões mais ativamente queerfuturista que o cinema poderia abraçar.

Tudo isso regado a músicas, cores e afetos que tentam quebrar a monotonia da resistência social à luta de direitos, fragmentando a imagem que se alterna entre todos os entrevistados como numa poesia antropofágica. O desfecho do filme com uma performance poderosa de maquiagem e purpurina e a última conversa ao telefone contra a vista panorâmica das luzes das janelas se acendendo escuridão adentro para se dizer boa noite em família são de uma beleza ímpar.

O filme foi aclamado no Festival Olhar de Cinema de Curitiba, ganhando o prêmio de melhor longa-metragem brasileiro e prêmio de público, além de ter sido agora novamente aclamado no Festival de Brasília com uma longa salva de palmas. Ainda mais por se tratar de um longa-metragem, com maior potencial de ser exibido em circuito comercial de cinema, aumentando a visibilidade do público em receber e refletir sobre o queerfuturismo para além da arte, como proliferação de mais signos afirmativos e positivos da teoria queer para as massas. Isto porque como linguagem artística, antes de poder ser vista como movimento integrado, era mais despertada em curtas-metragens em circuitos fechados, como os igualmente novos cults “Vando Vulgo Vedita” de Andréia Pires e Leonardo Mouramateus e “X-Manas” de Clarissa Ribeiro, sendo que este até se especifica um pouco mais para o lesbofuturismo.  Acrescenta-se a eles filmes anteriores como os recifenses “A Seita” de André Antônio do coletivo Surto e Deslumbramento e “Doce Amianto” de Guto Parente e Uirá dos Reis do Coletivo Alumbramento, ou mesmo a série viral “Leona Assassina Vingativa” de Leandro Olin dos Santos; e mais atuais como “Afronte” de Bruno Victor e Marcus Azevedo, “Latifúndio” de Érica Sarmet, “Cidade Neon” de Tiago Coutinho, “Negrum3” de Diego Paulino, “Bixa Travesty” de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, “Sol Alegria” de Mariah e Tavinho Teixeira e “Tinta Bruta” de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher. Todos importantíssimos para novos paradigmas do cinema.

O filme estreou no circuito de cinemas brasileiros no dia 30 de novembro de 2017.

Vamos conferir logo abaixo alguns textos e vídeos à luz da LINDA lembrança do debate de estreia há exatos 2 anos atrás mediado pelo professor Denilson Lopes no Cine Arte UFF sobre o IMPERDÍVEL filme “Corpo Elétrico” de Marcelo Caetano com elenco incrível como Kelner Macêdo (chamado pela professora e crítica/pesquisadora de cinema Ramayana Lira de “arma de sedução em massa”), Lucas Andrade, Ana Flávia Alessandra, Linn Da Quebrada, Nash Laila e muitooooo mais!

Minha crítica para o filme “Corpo Elétrico” em análise cruzada com o filme “Meu Corpo é Político” e com curtas-metragens do naipe de “X-Manas” de Clarissa Ribeiro e “Vando Vulgo Vegita” de Andréia Pires e Leonardo Mouramateus e muito mais para falar sobre QueerFuturismo!

👉🏾 http://almanaquevirtual.com.br/meu-corpo-e-politico/ 👈🏾

Para todos que quiserem conferir ou dar mais uma olhada em drops filmados do debate, podem conferir em uma de nossas páginas, do Cineclube Ação e Reflexão no Tempo Glauber, conforme link abaixo:

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=708942105981951&id=535952276614269

Confira Debate mais recente sobre representatividade trans no cinema com realizadorxs e seus filmes na 22° Mostra de Cinema de Tiradentes:

http://almanaquevirtual.com.br/22-mostra-tiradentes-debate-corpos-politicos/

Crítica e debate de Bixa Travesty em sua Estreia mundial no Festival de Berlim 2018:

http://almanaquevirtual.com.br/bixa-travesty/

Crítica do filme “Tinta Bruta” em sua estreia mundial no Festival de Berlim 2018:

http://almanaquevirtual.com.br/tinta-bruta/