Meu Nome é Bagdá

Resistência Queer

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03 de novembro de 2020

O filme de encerramento do 14º CineBH foi talvez o nosso maior representante brasileiro laureado no Festival de Berlim no início do ano, como melhor filme da Mostra Geração: “Meu Nome é Bagdá” de Caru Alves de Souza, obra que eleva paradigmas para outro patamar, servindo-se de signos pop e musicados. E são dois feitos de fortes influências para o futuro em seus respectivos campos de atuação.

Falando um pouco mais deste laureado empreendimento criativo brasileiro, “Meu Nome é Bagdá”, antes mesmo da premiação principal do 70° Festival de Berlim em fevereiro deste ano, o cinema brasileiro já ganhava o maior troféu da Mostra Geração que é uma das paralelas à competição principal pelo Urso de Ouro. Uma seção dentro do Festival com perfil de temas infanto-juvenis, mas atentando que não se trata necessariamente de filmes infantis, e sim sobre temas da infância e adolescência, podendo até ser mais maduros ou intensos do que alguns das outras Mostras.

Nosso maior reconhecimento foi com “Meu Nome é Bagdá” de Caru Alves de Souza, numa coprodução da Manjericão e Tangerina Filmes. Uma narrativa moderna e fluida sobre jovens skatistas e questões de gênero entre meninos e meninas, os quais precisam aprender a enxergar uns aos outros como indivíduos complexos e livres para fazer suas escolhas sem amarras ou codificações impostas pela sociedade contra a vontade da pessoa. Pode parecer complexo ao espectador que estiver sobrecarregado pelas doutrinações contemporâneas do governo brasileiro sobre “meninas usarem rosa” e “meninos usarem azul”, porém é exatamente sobre desconstruir isso. E o faz com bastante elegância, como se filiando a linhas de pensamento sobre gênero e raça, bem como a teoria queer de nomes como Michel Foucault, Judith Butler e Paul Preciado.


Meu nome é Bagdá (Reprodução)

E esse estofo filosófico se encontra traduzido na estética do filme, como com câmeras tão fluidas quanto a questão da autodeterminação de gênero, onde a diretora de fotografia Camila Cornelsen colocava a perspectiva da câmera também sobre um skate acompanhando as atletas no ritmo do movimento. Sem falar na subjetividade da fonte de ângulos diferentes, pois a protagonista, repleta de agência e atitude na pele de Grace Orsato, também caminha com sua própria câmera na mão, filmando ao mesmo tempo que o filme registra seus movimentos. Uma câmera-personagem (confira debate com a equipe aqui).

Por último, porém não menos importante, vale triangular o encontro de olhares e a imagem produzida com a música composta no extracampo, pois a trilha sonora reescreve a realidade com suas letras e caminhos rítmicos. Não apenas o desenho de som e canções pintam a tela de muitas cores, como abrem espaço para cenas mais performáticas, há de exemplo as danças e coreografias que exorcizam os males reais. Duas das cenas mais lindas neste sentido são a capoeira da protagonista vestida com a juba de um leão lado a lado de suas amizades trans e queer, bem como a cena da boate onde sua irmã e amigas dançam em sua defesa. Uma sororidade. E esta linguagem LGBTQ é uma das maiores vanguardas do cinema brasileiro atual, arrebatando prêmios quase todo ano, e demonstrando que também estamos na dianteira da criação artística para o mundo.