Mick Jagger e Martin Scorsese recriam os excessos dos anos 70 em Vinyl

Dilemas existenciais com muitas drogas e rock

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08 de fevereiro de 2016

Vinyl 002A nova série da HBO, “Vinyl”, começa seu piloto, dirigido por Martin Scorsese, de uma forma desgastada, apelando para o uso da narrativa em flashback. O talento e a expertise do diretor é que garantem o brilhantismo da abertura ao retratar o protagonista Richie Finestra (Bobby Cannavale) numa crise existencial. Sem fé, buscando escape na cocaína e no meio de problemas sérios, ele vai parar numa apresentação de uma banda. Essa sequência tem cenas virtuosas e é carregada com uma pulsante trilha de rock que retrata com perfeição o que deseja Scorcese (também criador da série), que lida com os dilemas existenciais do protagonista na Nova Iorque, dos anos 70.

AV Vinyl 001A trama gira em torno da American Century Records, gravadora criada por Richie e que já teve dias melhores. Agora para sobreviver busca ser adquirida pela alemã Polygram. Richie é o típico anti-herói adorado pelas séries contemporâneas de TV, o personagem que perde a inocência em sua trajetória. No momento em que o conhecemos ele se encontra melancólico e com a dor de quem vê seu império ruir.

Vinyl 004É inegável o toque de Scorcese, que já trabalhou com a HBO em “Boardwalk Empire”. O cineasta, que estourou nos anos 70, traz essa Nova Iorque que marcou seus filmes mais instigantes para a série com a sua tradicional dose de violência e o consumo excessivo de drogas. Era a cena da época e a cidade era decadente, mas tinha uma efervescência cultural. O rock, punk, glam rock, disco e hip hop faziam parte dessa época. Onde Martin acerta junto com Terence Winter (“O Lobo de Wall Street” e “Família Soprano”) e Mick Jagger (Sim, o rolling stone) é na virilidade dessa busca pela redenção através da música numa era onde isso realmente importava. Com um esmero e perfeição dignos das grandes produções, figurinos, trilha, direção de arte e fotografia não deixam em nada a desejar no piloto de duas horas de duração que a HBO nos concedeu acesso.

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A temática que é forte encontra sua contrapartida na comicidade de alguns momentos e em parte nos coadjuvantes, como Ray Romano, que faz o sócio e amigo de Richie na gravadora. A sabedoria do trio de criadores estabelece um caminho além da música no final do primeiro episódio, o que provavelmente vai ajudar a série nessa sua primeira temporada. Referências a celebridades da época e a presença de personagens do mundo da música reforçam os charmes de “Vinyl”. Olivia Wilde, a esposa de Richie, que hoje leva uma tediosa vida de dona de casa nos subúrbios já que abandonou seus dias de glória e ainda luta contra o seu antigo consumo de drogas parece que vai render uma dinâmica produtiva com Richie, embora pouco tenha sido visto no piloto.

Vinyl 003A atuação de Bobby Cannavale, que é um grande ator embora costume se estigmatizado aos papéis ítalo-americanos, é primorosa. Sua interpretação de Richie, um executivo frenético e viciado em cocaína numa encruzilhada existencial parece, como a série, ser uma das grandes promessas de 2016.

Vinyl estreia simultaneamente nos EUA e Brasil. 23h59 de domingo, 14.