Mil Vezes Boa Noite

por

03 de outubro de 2014

Qual o preço a pagar quando uma pessoa se dedica inteiramente a sua profissão abrindo mão da família? Vale a pena? Realização profissional ou emocional? O que pesa mais na balança? E se quem abre mão da família em prol da profissão é a mulher e não o homem? Como lidar com a espetacularização da desgraça? As imagens têm poder simbólico ou somente publicitário? Esses e muitos outros questionamentos nos veem rapidamente à mente quando começamos a ver “Mil vezes boa noite”, novo filme de Erik Poppe (“Águas turvas”, 2008).

juliette-binoche-624x419

Na película, conhecemos a história de Rebecca (Juliette Binoche) considerada uma das melhores fotógrafas de guerra ainda em atividade. O “ainda” se deve justamente ao caráter extremamente perigoso da profissão. Logo na primeira tomada, vemos Rebecca em uma atitude quase suicida a fim de não perder qualquer clique de um atentado terrorista. Uma das primeiras cenas de filme mais impactantes já vista. Após esse incidente, ela se vê forçadamente a ficar em casa a fim de restabelecer sua saúde e aí sim começam seus verdadeiros dilemas. Marcus (Nikolaj Coster-Waldau), seu marido, lhe dá um ultimato: ou para de fotografar em ambientes perigosos ou o casamento acaba. Ele e a filha mais velha não suportam mais as angústias a cada missão de Rebecca.

binoche

Rodado na Noruega, na Irlanda e na Suécia, o filme conta com poderosa direção de arte que mostra um pouco de uma realidade caótica das pessoas que vivem nas regiões de guerra iminente. O confronto com o poder imagético das fotografias é um ponto alto a ser destacado nessa trama de roteiro bem amarrado pelo cineasta em parceria com Harald Rosenløw-Eeg. A contraditória denúncia entre tradição e modernidade que Rebecca pretende denunciar ao clicar os momentos de horror vividos por comunidades em guerra acaba por perpassar sua vida no momento em que ela tem que decidir se pretende continuar com sua carreira ou se dedicar tão somente à família. O papel da mulher moderna é questionado a todo momento ao longo do filme.

Juliette Binoche nos entrega uma protagonista segura, seca, impassível, corajosa, determinada e engajada. Com atuação soberba, sua dor é latente e o dilema da personagem nunca fica maior que os dilemas existentes no mundo. Rebecca acaba se tornando uma anti-heroína pelas escolhas feitas e mesmo assim consegue, pelo carisma que a atriz lhe emprega, conquistar o espectador que pode não acatar todas as decisões tomadas pela personagem, mas acaba lhe dando um salvo-conduto. Filme extremamente atual tendo em vista os últimos acontecimentos entre Israel e Palestina e o poder a influência das mídias e redes sociais na formação da opinião da população.

Mostra Panorama do Cinema Mundial

Mil Vezes Boa Noite (Tusen Ganger god Natt)

Noruega, Irlanda, Suécia, 2013. 117 min.

Direção: Erik Pope

Com: Juliett Binoche, Nikolaj Coster-Waldau, Lauryn Canny