‘Minha Amiga do Parque’: crônica sutil sobre a dificuldade em aceitar o aprisionamento da vida maternal

Exibido na Mostra Première Latina do Festival do Rio 2016, longa entrou em cartaz na última quinta-feira, dia 22.

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24 de fevereiro de 2018

Ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance 2016, “Minha amiga do parque” (Mi amiga del parque no original), dirigido, escrito e interpretado por Ana Katz é uma crônica sobre a dificuldade de aceitação da maternidade em tempos de empoderamento feminino. Liz (Julieta Zylberberg) é uma jovem mãe que cria seu bebê Nicanor, praticamente sozinha. Seu marido Gustavo (Daniel Hendler, marido na diretora) está realizando um documentário sobre um vulcão nos confins do Chile e não dá o suporte necessário para que Liz tenha uma vida autônoma, fazendo contatos esporádicos via Skype. Ouvindo o conselho do pediatra, Liz leva Nicanor para passear no parquinho e lá ela conhece a estranha Rosa (Ana Katz), uma operária que cuida do filho pequeno de sua irmã Renata (Maricel Alvarez). A partir daí, as duas desenvolvem uma amizade constantemente abalada pela instabilidade de Rosa.

"Minha Amiga do Parque" foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival do Rio 2016 (Foto: Divulgação).

“Minha Amiga do Parque” foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival do Rio 2016 (Foto: Divulgação).

Alguns podem ver este filme como um libelo entre a diferença de classes, mas Ana Katz vai além do óbvio e explora um retrato do aprisionamento da vida doméstica onde muitas mulheres são submetidas sem se darem conta. De um lado, temos a burguesiarepresentada por Liz, que abandona seus ideais para cuidar do filho. Do outro a emancipada Rosa, operária livre, trambiqueirae independente. Ambas são prisioneiras do cotidiano maternal que invariavelmente entra em choque com a realização de suas vidas profissionais e pessoais. A excitação pela aventura, pelo novo e por uma carreira, são frequentemente boicotadas pela trivial troca de fraldas sujas, choro de neném e encontros desestimulantes com outras mães.

O roteiro (assinado por Ana Katz e Inês Bortagaray) humaniza os personagens sem estereótipos. Rosa, que representa o lado livre e autêntico de Liz, é mentirosa, trapaceira e desorganizada, mas não se conforma com o trivial estabelecido e luta sozinha para que sua irmã Renata tenha uma vida feliz ao lado do noivo que conheceu pela Internet. A diretora traça este painel sem pressa, e opta por uma narrativa intensa, mas calcada no anticlímax fisgando o interesse do espectador que aos poucos vai se envolvendo na relaçãodaquelas mulheres tão diferentes. Neste sentido “Minha amiga do parque” consegue falar das obrigações impostas às mulheres por uma sociedade invisível onde há dois caminhos para a felicidade: ou se chafurda em um paraíso maternal ou se vive em paz consigo mesma.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4