Minha Amiga do Parque

Crônica sutil sobre a dificuldade em aceitar o aprisionamento da vida maternal

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18 de outubro de 2016

Ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, “Minha amiga do parque” (Mi amiga del parque no original), dirigido, escrito e interpretado por Ana Katz é uma crônica sobre a dificuldade de aceitação da maternidade em tempos de empoderamento feminino. Liz (Julieta Zylberberg) é uma jovem mãe que cria seu bebê Nicanor, praticamente sozinha. Seu marido Gustavo (Daniel Hendler, marido na diretora) está realizando um documentário sobre um vulcão nos confins do Chile e não dá o suporte necessário para que Liz tenha uma vida autônoma, fazendo contatos esporádicos via Skype. Ouvindo o conselho do pediatra, Liz leva Nicanor para passear no parquinho e lá ela conhece a estranha Rosa (Ana Katz), uma operária que cuida do filho pequeno de sua irmã Renata (Maricel Alvarez). A partir daí, as duas desenvolvem uma amizade constantemente abalada pela instabilidade de Rosa.

Alguns podem ver este filme como um libelo entre a diferença de classes, mas Ana Katz vai além do óbvio e explora um retrato do aprisionamento da vida doméstica onde muitas mulheres são submetidas sem se darem conta. De um lado, temos a burguesia representada por Liz, que abandona seus ideais para cuidar do filho. Do outro a emancipada Rosa, operária livre, trambiqueira e independente. Ambas são prisioneiras do cotidiano maternal que invariavelmente entra em choque com a realização de suas vidas profissionais e pessoais. A excitação pela aventura, pelo novo e por uma carreira, são frequentemente boicotadas pela trivial troca de fraldas sujas, choro de neném e encontros desestimulantes com outras mães.

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O roteiro (assinado por Ana Katz e Inês Bortagaray) humaniza os personagens sem estereótipos. Rosa, que representa o lado livre e autêntico de Liz, é mentirosa, trapaceira e desorganizada, mas não se conforma com o trivial estabelecido e luta sozinha para que sua irmã Renata tenha uma vida feliz ao lado do noivo que conheceu pela Internet. A diretora traça este painel sem pressa, e opta por uma narrativa intensa, mas calcada no anticlímax fisgando o interesse do espectador que aos poucos vai se envolvendo na relação daquelas mulheres tão diferentes. Neste sentido “Minha amiga do parque” consegue falar das obrigações impostas às mulheres por uma sociedade invisível onde há dois caminhos para a felicidade: ou se chafurda em um paraíso maternal ou se vive em paz consigo mesma.

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Festival do Rio 2016 – Première Latina

 

Minha Amiga do parque (Mi amiga del parque)

Argentina, Uruguai, 2015. 85 min.

Direção: Ana Katz

Com: Julieta Zylberberg, Ana Katz, Maricel Alvarez, Andrés Milicich, Mirella Pascual

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4
  • Fernando Monteiro

    O próprio comentarista já traz a carga preconceituosa contra a maternidade. Se é válido este procedimento então vou lançar o meu que é um ultimato:
    Se não tem vocação para ser mãe não ponha um ser no mundo para que venha com o estigma de abandonado, sem afetividade e até quem sabe, odiado…
    Acho que não verei esse filme, não.

    • Zeca Seabra

      Fico na dúvida se soube interpretar a leitura da minha análise mas sugiro que veja o filme antes de julgar meu comentário. Se você faz parte da geração “Não vi e não gostei” ; só tenho a lamentar.