‘Minha filha’: um conto lúdico sobre impasses e conciliações

Um dos achados do Festival de Berlim de 2018, longa-metragem da italiana Laura Bispuri celebra a maternidade numa trama sobre disputa parental, que redefine a representação da Sardenha nas telas

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27 de setembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Mais comovente de todos os concorrentes ao Urso de Ouro de 2018, o drama italiano “Minha filha”, de Laura Bispuri vai ser o presente de Dia das Crianças do circuito brasileiro: chega aqui no dia 11 de outubro. Foi anunciado hoje que a produção vai integrar o painel do 62º BFI London Film Festival (10 a 21 de outubro), demarcando entre as telas do Reino Unido a força de uma das mais potentes realizadoras do Velho Mundo na atualidade.

Caudaloso retrato sobre o amor de mãe, esta reinvenção do mito salomônico sobre uma criança com duas possíveis genitoras contagiou a Berlinale ao mergulhar no pântano do melodrama. Neste longa se deu a sequência mais catártica de todo o Festival de Berlim deste ano: a brilhante atriz Alba Rohrwacher e a pequena Sara Casu, de 11 anos, depositam toda a energia que têm a cantar “Questo Amore Non Si Tocca”, hit da canzione italiana gravado por Gioanni Bella. As duas cantam como se brincasse de karaokê, diluindo as fronteiras de idade e hierarquia familiar que as separam. Alba é a alcoólatra Angélica, uma mulher afeita ao prazer. Sara é Vittoria, uma menina de 9 anos que tem duas mães: Angélica de um lado; e a recatada Tina (vivida por Valeria Golini) do outro. Ambas as adultas disputam, à sua maneira, o coração da menina.

Há tampos a Itália não conquistava espaço na disputa pelo Urso dourado e, tampouco, conseguia uma visibilidade internacional, a partir do evento alemão, tão grande quanto a que Figlia Mia alcançou em fevereiro, por aliar uma dramaturgia capaz de evitar obviedades a um refinamento visual, na fotografia de Vladan Radovic. As lentes dele revelam espaços da Sardenha que antes não pareciam perceptíveis. A Sardenha deste segundo longa-metragem de La Bispuri é baseada nas informações que ela saca das memórias de A.M. Homes, fonte do argumento. Seu ambiente de ação é um lugar de pesca e de criação de cavalos, lar de um povo alheio às transformações culturais das metrópoles ao seu redor.

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Seu filme fala de um povo que poderia ser chamado de rústico, mas que é, apenas, aferrado a suas raízes, um pouco como a aldeia de pescadores de “La Terra Trema” (1948), de Luchino Visconti, uma espécie de ancestral indireto (e neorrealista) da estética que Laura tenta criar. Seu filme não é preso a amarras documentais ou a não-atores. Pelo contrário, é um filme que serve de apoteose para grandes atrizes de apelo midiático (Valeria Golino, Alba Rohrwacher). O longa-metragem afirma o traço autoral da cineasta de apresentar mulheres fortes em ambientes tradicionalmente dominados por machos, como se viu antes em seu longa anterior, “Vergine Giurata”, lançado em 2015, também com Alba.

 Alba é a alcoólatra Angélica, uma mulher afeita ao prazer. Sara é Vittoria, uma menina de 9 anos que tem duas mães: Angélica de um lado; e a bem comportada Tina (vivida por Valeria Golini) do outro. Ambas as adultas disputam, à sua maneira, o coração da menina numa história que evoca, conscientemente, o mito bíblico de Salomão: o rei foi consultado por duas senhoras que reclamavam o direito de ser mãe de uma criança e ele sugeriu que o bebê fosse cortado ao meio, a fim de ficar um pedaço para cada uma. No mito, a mulher que se recusasse a ferir o bebê seria a mãe. Renunciar é saber amar. E esta sabedoria que Laura busca entender a partir do pathos de suas protagonistas: qual delas terá de abrir mão de Vittoria? Ou haverá outro caminho, o da conciliação? Até agora, essa dúvida já percorreu dez festivais internacionais de peso, ajudando a forjar o prestígio de Bispuri.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5