Minha Irmã

Receita de bolo de como desperdiçar uma atriz do porte de Nina Hoss

por

26 de outubro de 2020

Schwesterlein (My Little Sister) na Berlinale*

O último suspiro de um artista…e o primeiro de uma dramaturga

por Filippo Pitanga, originalmente publicado em 25 de fevereiro de 2020, ora revisto e expandido à luz da 44ª Mostra de SP:

Com mais um filme apenas correto na corrida pelo Urso de Ouro, “Schwesterlein” (“My Little Sister”) de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond aporta na Berlinale contemplando um cinema alemão com pegada mais comercial e de fácil acessibilidade para o mercado mundial. Estamos diante de grandes artistas europeus, com um argumento original repleto de potencial, mas, infelizmente, sem brilho ou diferencial. A trama é simples: uma tocante história de despedida entre dois irmãos, porém onde o potencial dramatúrgico se perde no meio da tentativa de fundir a narrativa com pequenos alívios cômicos fora de hora e desenvolvimento desproporcional entre os protagonistas.

Muitas vezes parece que o filme foi feito apenas para dar mais brilho à já brilhante atriz Nina Hoss (de filmes como “Phoenix” e “Barbara” de Christian Petzold)… Não que ela precisasse, pois se o título evoca o desenvolvimento relacional e familiar entre irmãos, tal premissa é esvaziada com pequenos dramas individuais de cada um deles em seu próprio campo de incidência de modo a desfocar do potencial catártico que eles poderiam ter juntos. Até porque seu irmão, interpretado pelo não menos excelente Lars Eidinger (como de “Acima das Nuvens” e “Personal Shopper” de Olivier Assayas) parecia uma bomba preparada para explodir sua melhor performance, com uma premissa que todo ator iria amar receber e atuar, que é a de dar seu último respiro no palco, e o filme nem sequer foca nisto ou desenvolve para um grande clímax. Isso de mãos dadas com a superação que a irmã também teria de passar através da arte como aspirante a dramaturga que interrompeu suas aspirações pelos problemas da vida.

Compreende-se, claro, que as diretoras Stéphanie e Véronique, na intimidade que ambas possuem com a mise-en-scène, e por ambas serem diretoras mulheres, fossem priorizar o desenvolvimento feminino ao masculino, o que é um ponto positivo, na verdade. Porém, a linguagem de gênero que invade a seriedade da cena costuma sempre advir do personagem do irmão, justo aquele que está moribundo desde a primeira cena do filme, e ancorando a personagem de Nina Hoss o tempo inteiro, impedindo-a de voar. Um perfeito exemplo pode ser dado na cena inicial, em que, mesmo com a câmera centralizando o personagem dela, é a música que o irmão está ouvindo que invade a cena dela… Poderia ser para desenvolver a questão relacional, mas acaba por não funcionar desta forma, e sim por aliviar a dor do ponto de vista dela com algum artifício do ponto de vista dele que sempre tende a atenuar o dela.

Outro perfeito exemplo disso na montagem é a cena de colapso nervoso de Nina, com a câmera na mão lhe seguindo até despencar no chão… Porém, nem 5 segundos depois, já há um corte para uma cena com ela já de pé chutando a lixeira ou jogando longe os brinquedos das crianças que faz todos rirem aliviados, como se fosse um desarranjo corporal explosivo, e logo depois ela colapsa de novo com a mesma intensidade da cena do chão… A mesma reação duas vezes, entrecortadas por um respiro, sem necessidade. E isto resume o filme muito bem: os múltiplos respiros provavelmente devem obter um forte apelo popular com a linguagem de gênero – pois até sequência com adrenalina caindo de páraquedas acontece no meio do filme – e o potencial dramático de verdade da história de dois irmãos ligados à arte, e renovando suas forcas na arte e na vida, através um do outro, simplesmente ficou do lado de fora da sessão para dar espaço a um entretenimento mais escapista.

*originalmente publicado no Almanaque Virtual na Berlinale 2020
almanaquevirtual.com.br/schwesterlein-my-little-sister-na-berlinale/