Miss Julie

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25 de maio de 2015

Mais impressionante em “Miss Julie”, filme dirigido pela musa maior de Ingmar Bergman, Liv Ullmann, e baseado na peça “Fröken Julie” de August Strindberg, é o caráter estratificado do discurso. São camadas e mais camadas de intensidades humanas. No início do filme, Miss Julie é ainda uma criança, ela própria a tal boneca, perfeita demais, não preparada para enfrentar as amarguras do mundo. Já adulta (entra em cena Jessica Chastain, soberba), Julie exala sensualidade pelos poros, mas apresenta certo conflito em relação ao sexo. Como se buscasse por travessuras perigosas na segurança aristocrata, ela provoca John (Colin Farrell), criado de seu pai, em um jogo de sedução de proporções altamente destrutivas.

O ano é 1890 e o espaço é a propriedade irlandesa do barão, pai de Julie, durante o período do solstício de verão. São apenas três os personagens que sustentam o drama, com tensão aumentada por muitos volts: além de Julie e John, a cozinheira Kathleen (Samantha Morton) assume a ponta de um triângulo amoroso desproporcional, sobra no duelo irracional com cheiro de hormônios e bebida alcoólica. A mágica que ocorre diante dos olhos, o submisso e o dominador em constante troca de papéis, é expandida pelos longos diálogos e sequências igualmente dilatadas. Todos os elementos explorados em uma estrutura teatralizada, desde as performances dos atores ao espaço confinado, com raras mudanças de pano de fundo. Jessica Chastain e Colin Farrell, reinantes no crescente desejo de manipulação que estimula seus personagens, transitam deslumbrantes pelas complexidades de um filme que lida de forma tão íntima com distúrbios da essência humana. Não é de se espantar ― Liv na direção prova, mais uma vez, que soube aprender com Bergman, grande especialista.

A fluidez do erotismo eloquente, nunca verborrágico, realizado por adversários tão astuciosamente mascarados, acontece com tanta sutileza que não é possível resgatar a mais pura verdade dos comportamentos. Principalmente depois do sexo proibido. Aqui, a análise unidimensional não tem chance. Sem explicações cartesianas que separam o opressor do oprimido, “Miss Julie” tem aversão aos padrões simplistas de mocinha e vilão. Até a distância entre as classes, a aristocracia e a plebe, confundem-se na medição de forças. Bem discernível é a idealização dissolvida, fruto do conhecimento da verdadeira estrutura da “bonequinha imaculada” ― de carne e osso. Ou mesmo a angústia proveniente de uma liberdade cerceada pela linhagem nobre. Desta forma, o apego de Julie pelo pássaro que ela aprisiona na gaiola ganha ressonante significado ― quase uma identificação da parte dela. Aliás, é por causa de uma injustiça com o bicho de estimação que Chastain chega ao ápice de seu desempenho: um ataque de fúria poderoso, de doer o coração, digníssimo do talento da atriz. Da jorrada virulenta de traumas só resta uma única ruptura possível, dolorosa e libertária, e é isso que a diretora oferece, sem engano. Todo o conjunto faz de “Miss Julie” um daqueles filmes capazes de permanecer, ultrapassando os créditos finais.


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