Miss Marx

“Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.” Simone de Beauvoir

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06 de novembro de 2020

Este texto pode conter spoilers sobre o filme

              Dirigido e roteirizado pela italiana Susanna Nicchiarelli o longa-metragem Miss Marxestreou no Festival de Veneza deste ano e narra a pouco conhecida história de Eleanor Marx, filha caçula do famoso filósofo Karl Marx. O filme faz parte do catálogo da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que acontece online em virtude da pandemia de covid-19, até o dia 08 de novembro.

Eleanor – interpretada pela atriz britânica/chinesaRomolaGarai– é uma mulher que passou a maior parte de sua vida dedicando-se a outras pessoas, principalmente seus pais. Mesmo possuindo acesso a uma excelente educação, algo diferencial para as mulheres no século XIX, a ativista cresceu à sombra de seu famoso pai e se manteve nesta situação mesmo após a morte dele, em 1883. Nicchiarellilevou este fato em consideração ao trazer um recorte bastante pessoal a respeito da vida de Eleanor em sua produção. Os feitos políticos da filha de Marx são apenas “pincelados” dentro de uma trama focada na intimidade, e nos relacionamentos de sua “personagem” homônima.

Em sua vida profissional, Eleanor trabalhou diversos anos como professora, tradutora,ativista sindical e foi uma das primeiras pensadoras a vincular o movimento feminista ao socialismo. Casou-se com o biólogo Edward Aveling (interpretado por Patrick Kennedy), um homem de caráter duvidoso e infiel. O relacionamento tóxico que manteve com o marido évisto como a principal causa que levou ao suicídio de Eleanor, em 1898 – algo que a obra faz questão de enfatizar ao longo de seus 107 minutos de exibição.

Apesar de seus pensamentos e iniciativas feministas, Eleanor tinha uma postura bastante submissa em sua vida pessoal; pouco confrontava seu marido e fazia o possível para remediar os erros, principalmente financeiros, cometidos por ele. Para alguns pode ser difícil entender o conflito entre sua vida política e pessoal, o que a torna um exemplo de que até mesmo a mais erudita das mulherespode viver um relacionamento tóxico. A diretora faz questão de enfatizar como Eleanor deposita em Edward todoo seu desejo de viver, ser feliz e também protagonista de sua história – algo que durante muito tempo fica em segundo plano em sua vida.

Muitos veículos apontaram seu desagrado com a escolha de Nicchiarelli em “vitimar” Eleanor perante Aveling, acusando-a inclusive de apresentar uma produção extremamente patriarcal.Porém, acredito que o caminho seja justamente o inverso, pois há muita força em mostrar a vulnerabilidade de uma mulher como ela – principalmente em um momento com altas e crescentes taxas de feminicídio além de frequentes casos de relacionamentos abusivos. Mas sem dúvidas há falhas no longa-metragem esua linguagem talvez pudesse ter sido mais bemdesenvolvida, a exemplo de recentes sucessos como a versão de Mulherzinhas, dirigida por Greta Gerwig.

Hánuances que não são claras na obra egrande parte da ação acontece no extracampo, fornecendo ao espectador somente as reações de Eleanor perante os acontecimentos, tornando a narrativa unilateral em diversos momentos. Os grandes saltos temporais da história,além de exageros nas atuações dos atores centrais (destaque para a cena onde Eleanor descobre a existência de um irmão) contribuem para certa confusão e até mesmo “canastrice” no desenrolar da trama. Nestes momentos, a intenção da diretora não fica clara.

Porém, mesmo com suas falhas, Miss Marx é uma produção de grande valor. Sua catártica sequência final tira o filme do “lugar comum” e mostra autoralidade por parte da diretora. O “recorte” pode não agradar a todos, mas o fato de salientar que qualquer mulher pode vir a tornar-se refém de um relacionamento abusivo não importa o quão esclarecida ela seja, possui grande valor narrativo, levantando uma discussão essencial e em evidência atualmente. E neste ponto, a obra de Susanna Nicchiarelli cumpre bem o seu papel.