Miss Violence

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15 de outubro de 2014

No dia em que completa 11 anos, Angeliki (Chloe Bolota) dá adeus para o mundo. Literalmente. Logo após cantar parabéns com sua família, a menina dá meia volta, vai para a varanda, dá um sorriso amargo para o espectador e se joga. A câmera, em uma estonteante panorâmica, desce perpassando os três andares do prédio, até chegar ao corpo estatelado e ensanguentado no chão. Essa cena é inclusive o cartaz original do filme. No pôster brasileiro vemos a mesma cena, porém sem o corpo. E o que leva uma menina de 11 anos ao suicídio no dia de seu aniversário? É sobre esse drama familiar, que beira ao horror, que trata Miss Violence (2013, idem no original).

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Essa sequência inicial extremamente impactante é orquestrada pelo neófito diretor e roteirista grego Alexandros Avranas que chegou gerando reboliço nos festivais por onde passou. Para isso, ele conta com o design de produção e da bela fotografia de Olympia Mytilinaiou, que fazendo uso de tons opacos tiram muito da vida que existe na tela. Por essa excelente película, Avranas ganhou o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza de 2013. O filme se passa quase que exclusivamente no claustrofóbico apartamento da família. Ao entrarmos por aquela porta (e porta nesse contexto refere-se a interessantes metáforas dicotômicas de dentro/fora, fechado/aberto, liberdade/prisão), pelas lentes de Avranas, com uma câmera quase estática e um cenário estéril, encontramos uma mãe submissa e um patriarca altamente autoritário e castrador (ambos propositalmente sem nome), além de uma filha mais velha que esconde diversos segredos. Não vale mencionar mais nenhum detalhe da trama, para não estragar a percepção que, lentamente, mas na medida certa, o diretor nos vai revelando acerca das agruras que acometem esta atormentada família. O final ambíguo é capaz de embrulhar o estômago, mas não poderia ser diferente. Novamente aqui temos a metáfora da porta, que ao se fechar, acaba por dar nova perspectiva a uma família já bastante dilacerada e talvez sem muita ou quase nenhuma perspectiva animadora de futuro.

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Merece destaque Temis Panou que, ao interpretar o pai/avô, recebe a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza do mesmo ano. Com atuação firme, seca, hostil e não menos vibrante, o ator dá vida a um homem, pai de família, que apesar de fazer coisas escabrosas, em sua mente perturbada, acredita estar fazendo o melhor para os seus convivas.

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Miss Violence é mais um filme desse novo e provocativo cinema grego que lida com temas chocantes de forma não menos impactante, sempre perpassando pela atual situação de crise econômica e social que assola o país. Certamente, entrará para a lista de filmes mais obtusos do ano, tendo em vista a acidez de seu tema. Assim como em Dente Canino (2009, de Giorgos Lanthimos) e Attemberg (2010, de Athina Rachel Tsangari), Miss Violence fala sobre famílias disfuncionais que a partir das elipses no roteiro, cenas extremamente violentas vão sendo jorradas na tela de forma bruta, mas necessária. Nada é gratuito no filme. Tudo tem um propósito extremamente bem delineado para que não sobrem pontas soltas.

Miss Violence (Idem)

Direção: Alexandre Avanas, Grécia, 2013.

Elenco: Themis Panou, Reni Pitakki, Chloe Bolota, Eleni Roussinou, Constantinos Athanasiades, Maria Skoula e Maria Kallimani.


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