Mistério na Costa Chanel

Mistura inusitada de naïf caricatural e fino suspense andrógino

por

01 de julho de 2017

Para quem desconhece os filmes de Bruno Dumont pode não estar muito familiarizado ou até estranhar o tom de seus filmes que passeia entre o surrealismo, o naïf e o realismo fantástico. Seu sucesso mais recente havia sido “O Pequeno Quinquin”, a corajosa epopeia de 3h30 de duração que dividia a trama entre as desventuras do personagem-título e seus amigos e uma investigação policial de crimes que ocorria paralelamente e que de repente tomava a história de supetão. Em seu mais novo exemplar, “Mistério na Costa Chanel” (“Ma Loute” no original), o cineasta brinca de novo com a investigação policial, porém compõe seus personagens e cenário de forma quase cartunesca, homenageando traços tradicionais franceses do gênero como Tintim do belga Hergé e Asterix de Uderzo.

Ma Loute

Eis que se faz necessário explicar como reverenciar desenhos em um filme live action (de carne e osso), e Bruno o faz de forma extremamente criativa. Ele usa figurinos exagerados, realçando detalhes extravagantes diferentes para cada um de seus personagens, caricaturais, como Fellini o fazia (lembrando que o mestre italiano desenhava tirinhas de jornal antes de se tornar diretor, e concebeu vários dos pôsteres de seus filmes, levando-o a idealizar as personas que construía de forma exacerbada, como traços de pincéis). Além disso, Bruno utiliza de truques de som que podem parecer simplórios, mas engrandecem a individualidade da trama para o elenco coral, pois há mais de um protagonista, e mais de um ritmo narrativo. Ou seja, alguns efeitos sonoros específicos anunciam algumas marcações de cena, principalmente com dois dos melhores personagens, que, por incrível que pareça, conseguem ascender o carisma para além de suas caricaturas, o patriarca da família protagonista na pele do ator Fabricio Lucchini e o inspetor de polícia interpretado por Cyril Rigaux. Tanto que a cena em que os dois enfim se encontram é hilária pelo confronto de sons característicos que ambos emitem.

ma-loute

Alguns personagens são assumidamente histriônicos e farsescos, no que a grande revelação, claro, tinha de ser a musa Juliette Binoche, que consegue dar carga dramática ao ridículo de seu papel. Enquanto que outros possuem densidades bem mais sutis, como o casal principal: o rapaz que dá o nome original ao filme, “Ma Loute”, interpretado de forma eficientemente taciturna pelo exótico Brandon Lavieville, e o maior trunfo do filme, na pessoa da artista Raph. Como assim pessoa?! Sim, descobrir o gênero desta personagem é uma das coisas mais intrigantes e inovadoras do filme, diegeticamente, seja dentro do filme ou mesmo fora dele, uma vez que os créditos finais reconhecem a intérprete unicamente como ‘Raph’, um apelido ou marca registrada andrógina. Serviria igualmente para um ator como para uma atriz, como Beyoncé, o que só torna sua personagem ainda mais fascinante.

Ma-Loute-1

O melhor de tudo é que, assim como em “O Pequeno Quinquin”, o claro amadurecimento constante do cineasta demonstra conseguir transformar todo este pastiche intencional de uma comédia em um súbito suspense, com tensão e maquiavelismo pouco convencional para uma trama naïf, encerrando a trama com um respiro que sequer precisa resolver as ações em si, preferindo abraçar a abstração final com uma homenagem que os brasileiros vão imediatamente associar à Dona Redonda da eterna novela “Saramandaia”. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2016 e foi exibido pela primeira vez no Brasil exclusivamente no Festival do Rio 2016. Hoje pode ser encontrado na programação da NET ou em canais via streaming como o excelente “Filmmelier”.

img01-1024