Modo de Produção

Denúncia social

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29 de janeiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Olhos Livres

“Modo de Produção” de Dea Ferraz é um documentário denúncia sobre as péssimas condições de trabalho numa zona rural de Recife voltada para o plantio de cana-de-açúcar, onde os trabalhadores têm poucas opções para se sustentar ou para defender seus direitos. Acompanhamos na tela o atendimento de vários cidadãos através de dois advogados sindicais e uma assistente social, descortinando a falta de preparo e anteparo para as camadas da população que formam a base piramidal de uma das regiões que mais cresceu no Brasil nos últimos anos, inclusive em disparidade social. O próprio título “Modo de Produção” e as duas cartelas iniciais descrevendo o significado de cana-de-açúcar e do Complexo Industrial Portuário de Suape, que representa o boom econômico de Recife neste milênio, já dizem bem algo sobre o capital humano ser a real mais valia do monopólio de distribuição desigual destas riquezas.

O filme começa com uma série de planos-fixos distanciados com câmera no tripé, mostrando o atendimento de maneira objetiva, sem se envolver com a câmera. Poderia ser o equivalente a uma câmera escondida por trás do espelho-falso, tipo sala de interrogatório em uma delegacia. O primeiro advogado em tela difere bastante da segunda advogada que aparecerá a partir de segunda metade, entrecortado apenas pelas inserções da ótima assistente social. Aliás, é desta que vem as melhores cenas, pois não apenas o filme começa a se libertar do plano-fixo para quebras mais livres, como com a câmera na mão e planos-detalhes mais aproximados, com muito humor da personagem em instruir as mulheres que vão até ela de forma completamente leiga e saem divertidamente mais autoconscientes de seus direitos. São direitos básicos desde convivência com maridos machistas em casa para lutarem por igualdade de gênero a até mesmo o direito de serem bem tratadas e receberem carinho e sexo não apenas quando o homem quer. Lembrando que tanto mulheres quanto homens que recebem atendimento sindicalizado trabalham até 15/16h por dia em condições extremas, quando o autorizado por lei é no máximo 8h.

Testemunhar o quanto estas pessoas estão longe de um tratamento decente e digno é duro, mesmo amenizado pelo esforço dos advogados que, apesar de solícitos e gentis, são igualmente quase impotentes perante as grandes empresas industriais que exploram esses assalariados humildes às vezes em condições análogas à escravidão. Muitos ignoram seus direitos e são facilmente oprimidos sem nem terem carteira assinada. E por isso talvez seja tão importante a pessoa por trás desta produção ser uma mulher, com equipe predominantemente formada por mulheres, que conseguem construir um olhar opositivo, nas palavras da escritora Bel Hooks, para tecer uma narrativa contra hegemônica. Vide o fato de as partes que a cineasta filma a assistente social, que é mulher negra da terceira idade e principal olhar opositivo interno ao filme, ser justamente a parte em que a câmera se liberta do tripé e filma planos mais livres e até travellings, demonstrando que a sociedade patriarcal que ainda permite essas usurpações têm de se reinventar, inclusive, nos seus modos de ver.

Talvez o assunto seja já tão grave que nem precisaria de grandes arroubos de câmera ou uma maior declaração em linguagem narrativa por parte da diretora, ou talvez um pouco mais de trabalho de câmera ou nuances sensoriais pudessem atrair públicos mais resistentes a mergulhar num documentário seco porém necessário de ser exibido em todo Tribunal Trabalhista e Câmara Legislativa. Mas um bom resultado que poderia investir mais no cinema para potencializar a denúncia.