Mommy

Abrindo a janela do cinema

por

12 de dezembro de 2014

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Alguns diretores autorais (também roteiristas de suas histórias) são polêmicos. Geram reações acaloradas de amor ou ódio. Suas características podem ser guiadas para chocar ou mesmo marcadas por maneirismos próprios. Um destes é o jovem já prolífico Xavier Dolan. Por sua declarada homossexualidade, pela qual ergue sua voz democraticamente, além de ser também ator, é adepto de certas bandeiras que podem ser interpretadas como excessos. Porém, bem dosadas, não o impedem de criar uma obra-prima (sina de todos os grandes que podem ou não ser mal interpretados por suas marcas registradas e/ou afetações, como Woody Allen, Almodóvar ou Tarantino). Quem diria que com uma história aparentemente simples sobre mãe imatura, seu filho bipolar e a amizade com vizinha introvertida, ele conseguiria criar um libelo anárquico sobre a educação, o amadurecimento e as formas de expressão do próprio cinema.

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Assim como uma criança que aprende a engatinhar antes de andar, a balbuciar antes de falar, ou a chorar e gritar antes de saber pedir, as duas composições fascinantes de mãe (Anne Dorval) e filho (Antoine-Olivier Pilon) conseguem dialogar com o crescimento mútuo de ambos, com a responsabilidade parental perante a sociedade, e a responsabilidade da sociedade perante as famílias às quais se destina proteger. Não há como retirar os olhos da química das personagens em cena. Ela, uma figura boêmia que nunca cresceu e, para ir viver a vida, colocava o filho em internatos de onde era expulso. E, ele, um Peter Pan hiperativo sem rédeas, pois nunca lhe foram ensinados limites. Enfim, no meio dos dois, a mediadora perfeita, uma tímida vizinha gaga, professora, que, apagada pela própria família, aprende a se libertar através dos novos amigos; ao mesmo tempo que lhes passa por osmose um  pouco de contenção, na catártica atuação de Suzanne Clément.

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E ao invés de se contentar apenas com o discurso interno ao filme, o cineasta inova também no formato de contar sua história. Sem querer estragar a surpresa de nenhum espectador, Dolan brinca com o formato de projeção na telona, quadrada (1:33), aproveitando cada imagem e cada centímetro para exprimir algo. Ou seja, caso as personagens se sintam confusas, ou em negação e etc, a imagem pode ficar turva, ou o ângulo de visão pode estreitar ou expandir…fazendo o espectador sentir junto com os protagonistas. Isto é uma sensação única e inenarrável, inesquecível nos cinemas, numa tela grande, pois faz toda a diferença. Quem dera houvesse exibições em Imax. E não só por causa da imagem, com a fotografia tocando o essencial e não desperdiçando nem um fotograma. Mas também pela trilha pop como o chiclete que a mãe vive mascando, de Celine Dion a Oasis (nas duas cenas mais catárticas) e até Lana Del Rey…mas tudo isso de modo nem um pouco oportunista, e sim a demarcar a persona de cada um. Onde até os diálogos e berros que poderia se acusar de serem exagerados, aqui, formam uma sinfonia junto com a música, tal qual cada grito é um instrumento de cordas ou percussão, num nível de maestria de mixagem e edição de som de “Apocalipse Now”, verdadeira lição de fusão de sons de guerra com trilha sonora clássica. E Dolan conta a história justamente através de certo histrionismo intencional, como se fosse um filme de guerra, aqui de embate familiar, porém sempre dosado e intercalado com cenas de profunda interiorização amoral desconcertante na criação descontrolada de um filho, como há de exemplos na agressividade explosiva dele ou o ciúme que a mãe provoca…

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Bem verdade, a narrativa já começa com uma premissa fantástica, mas é melhor não debatê-la aqui de forma direta para não estragar o show de sensações que transcorre na tela à vezes fluido e noutras como um disparo de supetão, assim como a juventude de hoje. Antológico e fundamental, independente dos detratores do cineasta que alegam exageros nas obras anteriores.

Vencedor do grande prêmio do Júri no Festival de Cannes 2014.

Confira também crítica do filme “É Apenas o Fim do Mundo” também de Dolan:

http://almanaquevirtual.com.br/e-apenas-o-fim-do-mundo-2/

Festival do Rio 2014 – Panorama do Cinema Mundial

Mommy – Idem

Canadá, 2014. 134min.

De Xavier Dolan

Com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément , Patrick Huard, Alexandre Goyette, Michèle Lituac

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5