Meu Rei

Estrutura que privilegia a rememoração das diversas fases de um relacionamento conturbado

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15 de setembro de 2016

Na edição mais recente do Festival de Cannes, Emmanuelle Bercot foi uma personalidade em posição de destaque. Realizadora do filme “De Cabeça Erguida” (2015), com roteiro denso que discutia as polêmicas implicações da delinquência juvenil, Bercot foi a primeira mulher na direção a inaugurar o Festival. Sua colaboração em Cannes não parou por aí, ela também foi protagonista do longa “Meu Rei” ou “Mon Roi” no original, da atriz/diretora Maïwenn, exibido no circuito de competição. Uma atuação que rendeu à Emmanuelle Bercot a Palma de Ouro de melhor interpretação feminina, láurea compartilhada com Rooney Mara pelo desempenho no filme “Carol” (2015), de Todd Haynes. O diferencial de “Mon Roi” está em sua estrutura que privilegia a rememoração das diversas fases de um relacionamento conturbado, uma história contada da perspectiva de Tony (Emmanuelle Bercot), internada em uma clínica de reabilitação ortopédica após um acidente de esqui.

Imersa nos dolorosos tratamentos para recuperar a flexibilidade do joelho ferido, exercícios contínuos que vão lhe devolver a capacidade de voltar a andar, Tony refaz mentalmente os passos que a levaram a um intenso e destrutivo envolvimento com Georgio (Vincent Cassel ― em sintonia impecável com Bercot). O paralelo da dor física com a mágoa sentimental escancara a criatividade da narrativa ― sentindo as dores provenientes de sua incapacidade de dobrar a perna, Tony recorda de outro tipo de flexibilidade, de ordem emocional, praticada por pura paixão. Aos desejos de bon vivant de Georgio, Tony cedeu, até que a união se tornasse insustentável.

A remontagem do romance entre Tony e Georgio, do maravilhoso princípio à crise caótica com lugar para alegrias e decepções que atingem o ápice, é tão humana e honesta que consegue obter uma das melhores recompensas ― o natural envolvimento do espectador. Ao reviver as próprias experiências, e colocá-las sob o crivo de um juízo adormecido pelas tensões do amor e ódio, Tony tenta reabilitar o coração ferido no interior daquele ambiente quase hospitalar, que lhe proporciona a recuperação unicamente física. O diálogo entre corpo e mente proposto por “Mon Roi” é uma qualidade que eleva o longa ao lugar da singularidade. Filmar relacionamentos no cinema é hábito corriqueiro, não muito comum é sair da mesmice e ainda assim manter uma metodologia inovadora que consiga preservar a proximidade com o público.

Festival do Rio 2015

Panorama do Cinema Mundial

Mon Roi, França, 2015, 128’

Maïwenn

Elenco: Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel


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