Moonlight: Sob a Luz do Luar

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22 de fevereiro de 2017

Baseado na peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”, escrita por Tarell McCraney, o filme “Moonlight: Sob a Luz do Luar” poderia muito bem ser plenamente abastecido por memórias e vivências de Barry Jenkins, cineasta criado em um bairro hostil de Miami, nos Estados Unidos. Filme composto por atores negros, cujos personagens estão imersos em mazelas sociais recorrentes na faixa desprivilegiada, “Moonlight” esbanja uma veracidade, proveniente da obscuridade do gueto norte-americano, de arrepiar a pele até do espectador mais distante daquela realidade. Independentemente das reivindicações iniciadas com a polêmica do “Oscars So White”, que apontava a ausência de artistas negros indicados ao Oscar 2016, um ápice após anos de negligência por parte da Academia, “Moonlight” merece faturar estatuetas não por efeito de uma reparação; isso seria apenas um favor concedido por jurados que, em muitas vezes, pecam por seus preconceitos. O longa de Barry Jenkins é merecedor por ter vida própria, por ser cinema em sua plenitude — técnico, mas sem perder a sensibilidade.

Na película em questão, o personagem principal é apresentado e desenvolvido em três fases distintas da sua vida, uma espécie de tríade dividida por capítulos — na infância (Alex Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e na idade adulta (Trevante Rhodes). O amadurecimento acompanhado pela compreensão de si mesmo e do seu lugar no mundo, como observado no filme divisor de águas “Boyhood” (2014), de Richard Linklater, é ameno se comparado com as provações pelas quais Chiron terá de passar. Além de ter de lidar com seus fantasmas pessoais, o que inclui uma dúvida sobre a sexualidade, o personagem tem obstáculos terríveis pela frente: uma mãe (Naomie Harris) viciada em crack, o bullying constante e a ausência da figura paterna no caos, um local indigno de receber o nome de lar. O destino de Chiron muda quando, fugindo de meninos brigões, ele encontra Juan (Mahershala Ali – grande promessa para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Oscar desse ano). Traficante de drogas que preserva um mínino de ética para orientar seus passos, Juan nota o desamparo do menino e o leva para a própria casa, onde vive com a namorada, igualmente prestativa, Teresa (Janelle Monáe). No endereço de Juan, ainda que seja um ambiente provido pela ilegalidade, Chiron experimenta os benefícios de um refúgio que, enfim, pode chamar de lar.

Juan, pujante e intimidador, em completo contraste com a silhueta franzina e amedrontada de Chiron, preenche a lacuna de um pai que nunca existiu. Sua presença na vida do menino é um escape; ou melhor, uma catarse, como bem ilustra a cena do banho no mar, uma das mais emocionantes de todo o conjunto. “Moonlight” é ainda mais potente quando as dores, e ferimentos literais de uma adolescência sofrida, preparam Chiron para o mundo — o exterior do personagem quando adulto, robusto e confiante como o pai postiço, esconde uma sensibilidade que é somente dele, compartilhada apenas com Kevin (André Holland), um amigo de infância. A breve atuação de Mahershala Ali, digna da atenção do júri de qualquer premiação, ganha força na terceira e última parte do filme — nesse ponto, ela é uma memória materializada no presente do homem Chiron. Mérito inclusive do ator Trevante Rhodes que consegue exteriorizar a energia de Mahershala Ali na composição da fase adulta do personagem principal. Com certa aparência de filme de arte, mas sem trejeitos limitadores, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” levanta a bandeira das causas da população negra sem precisar recorrer ao tom panfletário; o longa só fez uso, em excesso, de uma perspectiva — o elemento humano.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5