Moonlight – Sob a Luz do Luar

Quebrando paradigmas: um estudo

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28 de fevereiro de 2017

À Luz da 89ª Cerimônia do Oscar e a paradigmática disputa da premiação entre La la land e Moonlight, vamos refletir sobre a disputa politizada entre diferenças de produção de grande ou pequeno porte; de cartilha da Hollywood clássica ou de experimentação; ou mesmo de arquétipos consagrados ou representatividade criativa.

“Moonlight” foi o candidato de menor orçamento na história do Oscar a ganhar melhor filme, o 1º com protagonista LGBTQ, além de um elenco predominantemente negro (diferente de “12 Anos de Escravidão” que possuía alguns protagonistas brancos). Quais disputas desta última década paradigmática, cheia de lutas entre “Davi e Golias”, foram as mais politizadas para você? “Guerra ao Terror” Vs “Avatar”; “O Artista” Vs “A Invenção de Hugo Cabret”; “Argo” Vs “As Aventuras de Pi”; “O Discurso do Rei” Vs “A Rede Social”; “12 Anos de Escravidão” Vs “Gravidade”; “Boyhood” Vs “Birdman”; “Spotlight” Vs “Mad Max” Vs “O Regresso”…?

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Uma coisa é fato: “Moonlight – Sob a Luz do Luar” quebrou paradigmas. Com 8 indicações ao Oscar e 3 vitórias, apesar de ter perdido injustamente o favoritismo na curva final para melhor filme antes de ganhar de “La La Land – Cantando Estações”, na maior reviravolta já vista na história, o filme dirigido por Barry Jenkins já acumula impressionantes 181 prêmios e 251 indicações segundo a Enciclopédia do Cinema, o International Movie Database (IMDB). E ainda foi laureado nas categorias de ator coadjuvante para Mahershala Ali e roteiro adaptado para o próprio Barry Jenkins, que curiosamente verteu uma peça de teatro inédita, jamais encenada, sob a concordância de seu autor Tarell Alvin McCraney de que o texto merecia a linguagem do cinema para lhe ser justo. Parece que o significado anômalo de “Moonlight” na competição e sua corrida por fora, pela tangente das produções com que concorre, de maior porte orçamentário ou de bilheteria, alude ironicamente à letra da canção “Hello Stranger”, na voz de Barbara Lewis, trilha da melhor cena musicada dentre os 9 indicados ao prêmio principal, e cujos versos dizem:

“Hello, stranger (Olá, estranho)
Ooh it seems so good to see you back again (É tão bom lhe ver de volta)
How long has it been? (Quanto tempo faz?)
Ooh, seems like a mighty long time (Parece que faz tanto tempo)
Shoo-bop, shoo-bop, my baby, ooh
It seems like a mighty long time (Parece que faz tanto tempo)”

Para além de ser o indicado independente do ano e de menor orçamento a já ter recebido o prêmio máximo (1.5 milhões), já que todo ano há ao menos um representante que se encaixa nesta descrição, em geral vem desta situação algumas das propostas mais ousadas e pouco ortodoxas para fomentar um novo cinema, por estar mais livre das exigências do sistema. E quando um filme é tão sensorial como “Moonlight – Sob a Luz do Luar”, não basta explicá-lo, quando se tem de senti-lo. Uma cena situada na praia, por exemplo, não apenas deve nos dar a sensação de calor ou de refrescância se os personagens entrarem na água. Deve, sim, nos dar o sentimento daquele instante, quando a câmera beira o limite entre a submersão e a superfície, onde a luz estoura no reflexo da água e as ondas batidas espumam com pequenas gotas intencionais na lente da câmera, a demonstrar que aquela fronteira de felicidade inédita é tanta que, para a jornada interna do personagem, este pode ser o batismo de uma nova vida. Ou esta mesma praia antes acolhedora, pode ser o único refúgio silencioso de seus segredos, especialmente na solidão da noite, sob o luar que dá nome ao filme, e, como é dito em um dos diálogos, tonaliza sobre a pele negra como se ela fosse azul, diferente… especial.

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Isto porque a história transcende a aparente simplicidade sobre o crescimento de uma criança negra em busca de identidade e aceitação, afora do ambiente hostil de criminalidade. Eis a importância da divisão capitular em 3 partes que, inclusive, dá uma evolução de personalidades complementares pra cada etapa do quebra-cabeça do protagonista. Dez anos se passam entre cada capítulo, e um ator diferente interpreta as respectivas fases com uma alcunha específica: Little (Alex Hibbert), Black (Ashton Sanders) e Chiron (Trevante Rhodes). Para se chegar ao nome próprio após apelidos pejorativos como ‘Pequeno’ e ‘Negro’, dados pelo melhor amigo, mesmo que usados com bullying pelos outros, cada ator terá um arco dramático próprio para transcender seu rótulo, desde o pequeno ator mirim Hibbert ao adulto sósia de 50 Cent e revelação maior Trevante Rhodes, cujo trabalho de voz e introspecção continuado é minuciosamente perfeccionista. As luzes e cores com que cada episódio é introduzido ditam a cromática da direção de arte e fotografia que aquela parte terá, bem como as emoções predominantes: branco de inocência e descoberta, azul de melancolia e repressão, vermelho de paixões adormecidas e perdão. O diretor Barry Jenkins jamais permite vitimização nem condescendência com o que seu protagonista sente por ainda estar descobrindo sua sexualidade, sendo negro e pobre na adversidade do gueto, apenas quer retratar um caleidoscópio de sentimentos contraditórios e reveladores como a vida é.

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Após dois anos em que a mais popular premiação do mundo retrocitada foi acusada de racismo com a hashtag #OscarSoWhite (Oscar tão branco), onde nenhuma das categorias principais teve representantes negros (ou não-brancos: asiáticos, latinos e todos que eles segregam), a única consequência admissível era a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dar a devida importância para tal. Bem como a importância de o próprio público revalorizar o cinema de identidade autoral periférico, independente de raça, sexualidade ou classe, munido de expectativas e problematizações com que qualquer um pudesse se identificar, não só uma elite de privilégios sociais que não reflete a diversidade existente. E, deste reconhecimento, vieram fortes candidatos como “Moonlight” e “Um Limite Entre Nós” e outrora “O Nascimento de Uma Nação”, mas cuja popularidade deste caiu por razões externas ao filme, envolvendo histórias pessoais do diretor. Assim como candidatos medianos também, mais puxados para a cartilha do novelão emotivo que igualmente sempre tem seu lugar no Oscar, como “Estrelas Além do Tempo” e “Lion”. Sem falar nos filmes mais independentes que sequer foram considerados, há de exemplo “The Fits” e “Loving” (este com a única indicação de melhor atriz para Ruth Negga), quase deixando claro que a Academia só aceita um exemplar de baixíssimo orçamento por vez, mesmo que alguns destes tenham sido melhores do que vários de grande porte neste ano.

Esta reflexão nos faz pensar o quanto o poder de monopólio do mercado vem a homogeneizar a representatividade que um cinema mais autoral tenta libertar, levando a se pensar por que ela não é encontrada em todos os candidatos sem a necessidade de haver lutas e campanhas para se fazer lembrada. Ao invés de haver tanto burburinho sobre quais filmes indicados trariam diversidade à tela, e se eles mereceriam ou não estar ali se não fosse a representatividade que eles trazem, a verdade é que todos os candidatos deveriam ter a pluralidade naturalmente imbuída em sua origem, quando muitos dos projetos de Hollywood não saem do papel se não trouxerem a reafirmação de arquétipos já solidificados. E mesmo nas hipóteses dos filmes que conseguem ser finalizados na antítese deste padrão hegemônico, muitos nem chegam a ser distribuídos ou exibidos pra ver a luz do dia. Raros são os casos como “Moonlight”.

Curioso notar, contudo, que os dois filmes tidos como favoritos à principal categoria do Oscar 2017, ou seja, “La La Land” e “Moonlight”, inversamente proporcionais em proposta e projeção de mercado, talvez tenham mais a ver do que aparentam, seja num campo afirmativo ou negativo de comparação. Num campo de coincidências afirmativas, ambos têm a atenção especial para iluminação, cores e música como reivindicadores de identidade. Independente de seu porte, “La La Land” também contém seu grau de ousadias, não obstante levar vantagem brincando com um cálculo mais seguro ao referenciar musicais famosos da era clássica de Hollywood, pois os arquétipos referenciados já foram muito bem testados na história do cinema. Em outras palavras, é bem mais fácil para o filme estar entre os favoritos sem muito esforço, o que não tira o mérito da direção apurada e milimetricamente técnica de Damien Chazelle, que desfila virtuosismo multicolorido para compor verdadeiros quadros de um romance agridoce.

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Enquanto isso, Barry Jenkins faz justamente o oposto com sua câmera em “Moonlight – Sob a Luz do Luar”: ele se arrisca e experimenta a cada dez minutos, seja brincando com o foco e contrastes de zoom no distanciamento do personagem, para que possamos fazer um estudo social, como transformando a câmera em subjetiva, a trazer de volta a perspectiva de nos vermos no lugar do protagonista. Isto regado a músicas e cores que tornam grandiloquentes as ligações entre as linhas temporais e a evolução na relação de personagens, como a ótima química com o melhor amigo Kevin, com ao menos uma grande cena em cada um dos três capítulos: seja a no campo de futebol ensinando a combater o bullying dos amigos, a da praia na juventude compartilhando segredos, e a da lanchonete na fase adulta onde as dores da vida deixam cicatrizes profundas. Além de que, assim como “La La Land” é mais do que um musical e vai virando um sólido drama, “Moonlight” também ganha muito em camuflar qual será o real gênero cinematográfico abraçado, fundindo mais de um estilo narrativo. Primeiro começa com um “coming of age” familiar. Depois passa para uma ação mais marginal, quase no limite de filme policial e briga de gangues. Mas é surpreendente mesmo como consegue em meio à violência registrada na memória, física e moral, passar de tudo isso fluidamente para um grande romance de vida, com que qualquer pessoa que já teve de reprimir o que sentia por alguém pode se identificar, a despeito da orientação sexual do espectador.

Qual seria, portanto, o ponto de negação que afasta as obras “La La Land” e “Moonlight”? É que perante toda a cultura negra de costumes e músicas, do jazz aos clubes noturnos encontrados no universo de “La La Land”, o filme perdeu uma grande chance de representatividade ímpar na história ao não escalar o primeiro casal interracial ou negro para um romance musical de grande porte. Ao escolher um casal branco, em contradição à cultura onde estavam imersos, reiterou o establishment de produções deste nível que predominam no mercado e impedem a diversidade. Ocupam o lugar de realização e de distribuição que eclipsará tentativas alternativas. E isto não ocorre apenas nos EUA, pois serve igualmente de exemplo o relato notório no Brasil do cineasta Jeferson De que teve edital de produção negado para seu filme “O Amuleto”, quando se inscreveu com um elenco negro, mas conseguiu passar ao reinscrever o mesmo projeto com elenco integralmente branco.

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E Barry Jenkins é um diretor de filmografia representativa, desde seu primeiro longa-metragem, “Medicine for Melancholy”, com produção ainda mais independente. Talvez, por isso mesmo, admita referências artísticas para além dos EUA, como das Novas Ondas dos cinemas Francês e Asiático, vide a iluminação e arte inspirados assumidamente no diretor chinês Wong Kar-Wai, como dos filmes “Amores Expressos” e “Felizes Juntos”, bastante homenageado em “Moonlight”. E vale ressaltar que a qualidade destes filmes não precisa se ancorar na representatividade, pois ela está lá para servir à história, e não o contrário, com técnica e qualidades artísticas genuínas. Assim como Kar-Wai, Jenkins pinta cada capítulo com um ânimus de personagens, tirando a obviedade do foco. Desde a ambientação do primeiro capítulo, que ressoa sirenes por todos os lados sem mostrar as viaturas, a falar de conflitos entre traficantes e policiais sem exibir um único tiroteio. Ou mesmo consegue mostrar a falta de perspectiva dos jovens sem nunca botar um pacote de drogas em suas mãos, de modo a fazer um recorte de uma bolha que apenas funciona ali, naquelas circunstâncias ideais, cuja questão social serve à pessoal e não o contrário.

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É neste cenário que se torna crível um chefe de tráfico elegante e diplomático (na pele do premiado ator coadjuvante Mahershala Ali, antes mais conhecido por séries como “House of Cards”, “Luke Cage” e “The 4400”), vivendo sob regras da antiga honra entre ladrões, que conhece por acaso e perfilha a criança protagonista, ao adentrar na vida dele com todas as angústias e indecisões da infância que sofre bullying. Ele vem dar a segurança ao garoto que não recebia da própria mãe (a também indicada Naomie Harris, do cult “Extermínio” e blockbusters “Piratas do Caribe” e “007”, na categoria de atriz coadjuvante), uma viciada nas mesmas drogas compradas com os traficantes que trabalham para o novo padrinho de seu filho. Esta analogia crítica se torna ainda mais profunda nos atuais EUA de Trump, após as guerras do Afeganistão e Iraque, ocasionadas por políticas que armaram os respectivos países durante o governo Bush (pai e filho), que se voltaram contra os americanos. A droga vendida nas ruas que deteriora a personagem de Naomie, igualmente (des)construída à excelência pela atriz que só teve três dias vinda de Londres para filmar na América, desagrega saúde física, psicológica e familiar, como reflexo de uma sociedade doente que deixa absurdos serem aceitos como a caça ao próprio filho, só por ele ser diferente. O único valor que lhe interessa é o dinheiro para comprar mais drogas, sendo este o conceito que deverá ser superado, na dicotomia paternal passada para o garoto entre a mãe drogada e o padrinho traficante com sua honra moribunda. Como aprender a amar se a única herança é dor e criminalidade? Do resultado desta equação que virá a antológica cena musicada “Hello Stranger” de Barbara Lewis para transcender todos os obstáculos em aceitação.

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Pois a força desta narrativa pode até superar a dicotomia da representatividade, mas seria ingênuo afirmar que a mesma obra seria possível independente de quem estivesse atrás das câmeras. Assim como o edital com elenco negro recusado do cineasta brasileiro Jeferson De, filmes assim não existiriam sem representatividade. Dentro de “Moonlight” há muita história. Há a performance corpórea do transgressor brasileiro Zózimo Bulbul com seu “Alma no Olho”, cuja tradição está sendo continuada por nomes como Yasmin Thayná e seu “KBela”, assim como Barry Jenkins capta os closes do protagonista Chiron e a história da expressão nos três artistas que o interpretam. Há também ali um pouco do pai do cinema africano Ousmane Sembéne e sua denúncia social “Negra de…”, sobre o lugar onde foi segregado e estigmatizado os personagens que retrata, lugares estes que “Moonlight” igualmente subverte. E até mesmo há um toque da jovem cineasta americana Dee Rees, contemporânea a Jenkins, que experimenta com a iluminação e fotografia da pele negra em seu premiado longa de estreia “Pariah”, e aborda de forma sensível a homoafetividade feminina em lugares de fala pouco retratados antes na telona. Afinal, mesmo que Barry Jenkins jamais tenha assistido quaisquer destes filmes, esta linguagem intuitivamente agregada ao legado histórico não só pode como deve ser avaliada coletivamente, como uma tradição por direito, para inspirar novas gerações que não podem ser apagadas por uma linguagem hegemônica de cinema.

“Moonlight” é determinante para se pensar um cinema de afirmação da pluralidade do pensar a sétima arte, de linguagem alternativa, numa direção oposta ao cinema vendido para as massas… Independente de entender e concordar com as críticas à expressão “cinema negro”, inclusive, vinda de alguns importantes estudiosos e acadêmicos do assunto, pois na política de paridade não se deve fazer separação/categorização, o fato é que enquanto o cinema pensado como distribuição comercial para alcançar seu público não existir com paridade na possibilidade de propostas, há sim de se falar em reinvenção de linguagem afirmativa. Não por se autoafirmar através de oposição a uma suposta linguagem branca, mas a se pensar como ponto de vista originário e ímpar de um lugar de fala próprio, com suas próprias questões que prescindem de introdução ou explicações e tocam novos públicos para os quais o cinema antes não (necessariamente) se destinava. “Moonlight – Sob a Luz do Luar” toca profundamente nesta questão, com arte. E o espectador não precisa ser como o protagonista, com as temáticas que tangenciam o filme, para alcançar um novo lugar universal através desta nova origem, que se comunica com questões maiores, como a solidão, o deslocamento e a falta de perspectivas no espaço-tempo.