Mostra Competitiva de Curtas no 6º Olhar de Cinema começa em nirvana

"Ocorrido Em Um Recinto Escuro" é êxito norteador de curadoria consciente

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10 de junho de 2017

Muitas vezes associamos a expressão ‘castelo de cartas’ ou ‘fileira de dominós’ a uma imagem frágil, pela facilidade em derrubar tal construção. Poucas vezes paramos para pensar o inverso, que deveria não só ser verbalizado como mais defendido, em relação à beleza na fugacidade passageira e a força que uma carta ou uma peça de dominó possam ter na base da pirâmide para sustentar aquela efemeridade tão lírica quanto impávida. Há uma potência tanto matemática e geométrica na sustentação que aquela carta/dominó possam ter em se erigir contra as forças que querem derrubá-lo.

E em parte é assim que me senti diante de um filme, mais especificamente um curta-metragem, o indiano “Ocorridos Em Um Recinto Obscuro” de Ashim Ahluwalia, uma cápsula do tempo de 47 anos trazida à vida por este documentário que ressuscita não só o que foi filmado pra ser cinema e à época não conseguiu ser, como volta a ser cinema turbinado pelas areias coloridas do tempo nas telas do pintor biografado, fazendo este presente crítico se debulhar em lágrimas. (Lembrando um pouco a proposta do fenomenal longa “Então Morri” de Bia Lessa e Danny Roland, que também condensa quase três décadas também em sua narrativa).

Um curta-metragem que, por si só, é tão frágil em sua forma e apresentação, que não possui o circuito comercial para distribuí-lo e defendê-lo, restando-lhe unicamente Festivais e Mostras de exibição, ou a sobrevida de Cineclubes. Ainda mais se dá pra se ver que toda uma curadoria representativa foi moldada ao redor dele, como num belíssimo castelo de cartas, pelo primeiro time formado apenas por mulheres na curadoria de curta-metragem do 6º Olhar de Cinema em Curitiba. #RepresentatividadeImporta? Sim, ao menos ao olhar deste que vos escreve sim, importa.

Ainda mais depois que os dois primeiros longas da Mostra Competitiva principal estouraram pela culatra, especialmente em tentar trazer representatividade na frente da tela sem ser atrás dela também necessariamente, como no caso do falacioso e manipulador “Vangelo”, e o inocente e pueril “Newton”, filme indiano que ao menos teve a vantagem de ser fofo com consciência politizada.

Enquanto isso, a pungente e intensamente frágil máquina do tempo do curta em competição, “Ocorridos em Um Recinto Escuro”, consegue não apenas ser uma obra ímpar como ditar o tom e ritmo de todas as outras escolhas da curadoria em torno dele, como na força fugidia de um raio de sol que aquece e dá vida, mas não dura para sempre, ficando na memória para criar algo novo. O curta gira em torno do artista indiano Akbar Padamsee que há 47 anos atrás era um grande pintor a quem talvez não tenha sido dado o devido reconhecimento, e que tentou filmar em película as técnicas e motivações de suas pinturas geométricas que apesar de seguirem por lógicas e planos cartesianos pré-determinados, demonstravam uma liberdade aleatória subjetiva inimaginável que podia vir da ordem matemática. Impressionante é a sequência de seus quadros quando pontinhos dispersos e equidistantes conseguem ser alinhados em formas e desenhos tão díspares e únicos, formando outros novos formatos e sensações, e comprovando que podia tornar os vazios preenchidos na tela em cinema.

Formas artísticas talvez tão aleatórias que seus filmes também foram subestimados e esquecidos, envelhecidos, de tal modo que o diretor Ashim Ahluwalia teve de restaurar e retrabalhar os originais, quase de forma onírica entre os defeitos da película, bem como acrescentar todo um estudo ao redor de seu personagem principal e sua obra na voz do mesmo, numa sequência de entrevistas na narração em off que revelam a idade e a maturidade do pintor. Maturidade não embevecida em estar sendo lembrado ou recebendo reconhecimento, mas muito pelo contrário, em ter aprendido a abrir mão e se desapegar para apenas possuir dentro de si a consciência da lembrança que já lhe dá identidade que ninguém pode retirar. Algo tão impensável para a cultura ocidental de materialidade e louros de glória, em oposição à teoria de Siddhartha Galtama, o Buda: “O sofrimento cessa quando o apego pelo desejo cessa“.

As cenas seguem desde a infância do pintor, em vídeos caseiros, à visita do mesmo à França quando foi objeto de uma exposição simultânea com obras de André Breton, no que um jornalista ao falar de sua obra definiu muito bem não apenas o filme, meu texto, bem como toda a escolha da curadoria dos curtas agrupados com este: “Não, este jovem pintor não possui apenas 20 anos (quando comparado ao fato de o já famoso Breton ter recebido todas as atenções na época). Este artista possui 20 mil anos de experiência cultural da civilização da Índia que transcorre por sua arte”. E de fato o que é o padrão artístico que seguimos como certo? Como hegemônico? É o padrão eurocêntrico, branco e cristão de arte até os dias presentes de hoje. Enquanto que raramente defendemos outros lugares de origem artística como novos, ou como referencial de tendências.

Mas ao invés de colocar o indiano num pedestal, o filme apenas lhe dá a única coisa que poderia apreciar: o devido apreço da coerência por sua obra, enquanto somos apresentados numa reviravolta emocional a imagens subsequentes com ele já idoso, numa cadeira de rodas, contra a débil luz solar de uma varanda encoberta pelas cortinas do esquecimento. Aquela silhueta sombreada de um idoso sendo tratado por fisioterapeuta e entrevistado em off sobre seus filmes é a força e beleza que a efemeridade pode ter. Que algo tão fugidio possa nos causar uma revolução interna. E que ele tenha não apenas tentado desinvibilizar o próprio trabalho, como de outras pessoas, no exemplo dado de uma jovem mulher música que tocava de tal forma vanguardista que parece ter inspirado artistas famosos do passado, todos homens, quando o lugar dela ainda não era reconhecido para virar referência, no que agora ela está morta e esquecida; e o filme que a registrava infelizmente se deteriorou. Uma afinidade entre ela e o pintor que apenas quem já sofreu discriminação de direitos na pele pode se identificar. Assim como agora a primeira curadoria competitiva de curtas apenas formada por mulheres (Carol Almeida​, Marisa Merlo​ e Carla Italiano​) pôde resgatar e reivindicar o lugar destes indivíduos artísticos de volta em destaque no mapa, como merecem.