Mostra Tiradentes / SP: Debate com cineasta Tião sobre o premiado Animal Político

Tião fala um pouco das dificuldades de logística e roteiro em se filmar com uma vaca como protagonista em meio a elenco humano e locações urbanas

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25 de abril de 2016

Debate com o cineasta Tião na Mostra de Cinema de Tiradentes / SP 2016, no sábado do dia 19 de março, para falar de seu premiado filme “Animal Político”, que versa sobre uma personagem sofrendo de vazio existencial e que vem a se recolher no deserto por uma busca espiritual. O diferencial do filme é que esta personagem é retratada ironicamente e metaforicamente como uma ‘vaca’ no lugar de um ser humano, e daí advém inúmeras e curiosas questões de logística em se filmar com o animal em meio ao elenco humano e locações urbanas, como abordado no debate a seguir.

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Mediado por um dos curadores da Mostra, Francis Vogner, ele levanta de pronto a interessante correlação do título do filme, “Animal Político”, com o conceito homônimo de Aristóteles que se refere ao cidadão frente a Polis. Nesta leitura filosófica, pretender-se-ia alcançar um ser superior. Porém, para agitar o debate, Vogner indaga sobre a escolha no sentido inverso do cineasta Tião, onde ao invés de se aprofundar na Polis, a personagem central do filme faz um retiro na natureza, em um aparente movimento contrário ao conceito filosófico: Tião: “Sim, a personagem se realiza plenamente na Polis no agrupamento da sociedade, mas quando se encontra no vazio faz um movimento de volta. Vontade de destacamento pra se entender no vazio e só pode ser compreendido na volta, como se vê na Polis, como se sente dizendo um ser superior iluminado. Diz a personagem: “Estou ansiosa pra voltar”.

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Tião enfatiza que narrativamente o vazio está no princípio do filme. A protagonista reclama na vida familiar, social etc, mas o que é tido como jornada para o deserto também é em busca do vazio. Jornada esta interessante, tanto na sensação-“filme” quanto como evolução da própria jornada. Começa tipo sessão da tarde, mais leve e com humor, versando sobre um vazio existencial estático, e toma o movimento de sair. Vai acumulando até freneticamente as coisas, e percebe que o incômodo não é o problema e pode ser a solução. Noutro momento, Tião pontua que a vaca leva objetos para o deserto que usa na vida, inclusive a TV. A protagonista fala que precisa ser forte frente a força que a TV exerce, mas a volta do deserto para a vida que tinha antes também é uma decisão forte, e a TV na volta é uma nostalgia, pequenos prazeres que nos rendemos.

Tião já escutou que é jovem demais para estar fazendo um filme com uma mensagem tão filosófica, mas ele parte desta geração que necessita desta reflexão, e chega até a outras que se emocionam também, de uma jovialidade pensante. O diretor também chega a ser perguntado se quando seu protagonista no filme está no corpo de gado, as questões seriam humanas, e quando no corpo humanóide, não virariam bovinas? É por isso que ele explica que uma história em formato de Odisseia vai e volta, por isso que ele queria uma estrutura simples. Começa mais para uma sessão da tarde e termina Dostoiévski.

Perguntado sobre como foi filmar com a vaca em termos de logística, Tião explica que ela cansava rápido, e tinha que descansar por 2 dias, o que demorava até fazer a cena. Era imprevisível com ela, às vezes fazia tudo em 2 min. E foram muitas locações, o que o fez ter de dividir em fases. A primeira verba foi de curta-metragem, e não tinha dinheiro para toda a infraestrutura. Às vezes faziam a montagem a cada segmento filmado, e não tudo no final. Algumas partes precisavam de estações do ano específicas. Na metade do filme, descobriu que era impossível de ser filmado, mas tinha que levar até o final. Só de filmagem, levou 3 anos, entre 2010 e 2013. Cada um tinha outros projetos. O próprio Tião fez o roteiro, e a história era simples, mas ia acrescentando de acordo com o desenvolvimento.

O livro da ABNT, inserido em segmentos do filme, faz com que Tião lembre de contar uma história própria, onde entregou uma prova, e o professor corrigiu que as regras da ABNT haviam mudado. Que a forma às vezes passa por mais importante que o conteúdo, que pode ser considerado errado se a forma não for a certa. Tião gosta muito do prólogo. A vaca está isolada mas esbarra em várias entidades. Mas tanto a vaca quanto a garota caucasiana, como personagens em diferentes segmentos do filme, estão predominantemente sozinhas em suas buscas espirituais internas. É uma estrutura natural do filme, uma estrutura lógica, onde um personagem interrompe o outro, mas ambos estão sozinhos. E, apesar de a narração em off ser masculina, a personagem da vaca se direciona mais como feminina. Tião quis que fosse o mais ambígua possível. Representasse o ser humano. Houve também egoísmo de não abrir mão de certas cenas só porque fosse mais para o masculino ou feminino.
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