Mulher Oceano

Excelente estreia na direção em longa-metragem de ficção por parte da atriz Djin Sganzerla

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13 de novembro de 2020

Na reta final da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vale outras indicações preciosas no campo das micropolíticas cinematográficas, como longas-metragens versando sobre a condição feminina e dirigidos por mulheres, como o belíssimo “Mulher Oceano”, de Djin Sganzerla. Fotografado de modo poético por André Guerreiro Lopes (cada vez mais maturado, como também por filmes dirigidos por Helena Ignez), o filme nos faz viajar de modo metalinguístico, junto com a própria Djin, na pele de mais de uma personagem, a se desdobrar em várias funções à frente e atrás das câmeras, pelos encantos e correlações do Japão com o Brasil, e tendo o mar como fio condutor em comum.

A partir de imagens poderosas, evocando a força da famosa gravura “A Grande Onda de Kanagawa”, de Hokusai, perpassamos os vários significados das águas, desde a sua religiosidade, até ao uso prático, como na pesca, no transporte em embarcações, e nos esportes, como o nado. Sem falar em outras representações mais metafóricas deste oceano interno a todos nós, reflexo da fluidez da alma humana em contato com as experiências imateriais, como na onda de sensações que nos acometem todo dia ao mergulharmos no abismo da rotina. Seja no meio do trânsito da zona urbana nas cidades grandes, de Tóquio ou Rio de Janeiro, com um coral de prédios e luzes de neon iluminando nossas janelas e vidros do carro; ou mesmo diante das andanças por ruas, vielas e becos de flores ou de bares e cafés, por onde desaguamos nossos relatos e encontros com o próximo nesta biodiversidade que veio da água — mesmo que engane a si mesma caminhando sobre a terra hoje em dia…

A protagonista escreve um livro durante a trama, enquanto investiga várias fontes de vivências, sendo, certamente, a mais inspiradora delas, a das senhorinhas chamadas de “Amas”, que mantêm a tradição milenar de mergulho só no fôlego. É delas o assobio da respiração que será a mais bela catarse a se juntar ao ruído das ondas e da trilha sonora no final, uma das fortes candidatas a melhores cenas do ano. Mas não é só disso que é composto o todo do filme, podendo às vezes dispersar um pouco os focos mais interessantes, quase documentais, de entrevistas com o acaso (mesmo que pré-planejadas, já que a pessoa a entrevistar é uma personagem fictícia da diretora). Um exemplo um pouco dispersivo é a parte narrativa que expicita o livro escrito pela protagonista, de modo a que sigamos outra personagem não real dentro da primeira ficção apresentada de uma escritora com bloqueio criativo. Estas duas personagens, uma dentro da outra, lutam para conseguir o equilíbrio com a água e consigo mesmas, assim como também com o filme.

Não que o fato de elas nem sempre deixarem de ter um equilíbrio seja demérito para o roteiro, pois não é, apesar de que se pode afirmar, aí sim, que justamente o percurso e os tropeços destas tentativas sejam o que formam o jogo de maneira tão interessante a que queiramos acompanhar até o final. É dos riscos e das incertezas que o filme oferece das quais mais se beneficia a criar momentos únicos de interseção entre a realidade e a fabulação, como o mergulho no mar tanto virtual, das imagens projetadas no corpo da personagem escritora no Japão, quanto real, da competição de natação da personagem do livro que vive sua vida no Rio de Janeiro como se não soubesse ser inventada por outrem, talvez até pelo próprio mar, onde irá nadar até se tornar um só.

Belas imagens cocriadas pela direção e pela fotografia para exprimir um roteiro corajoso e existencialista, sem precisar ser didático ou diletante em nenhum momento, e sim mais para uma busca sensorial. Se o filme encontra ou não o que estava buscando, talvez não caiba achar ali dentro, e sim no interior de cada espectador, para assim complementar ou não a experiência. Para este que vos escreve, decerto foi um mergulho completo, e cujo assobio das “Amas” mergulhadoras septuagenárias japonesas jamais será esquecido quando ouvir o bater das ondas novamente no mar.