Muros

Documentário retrata o segregacionismo dos muros que separam fronteiras

por

16 de outubro de 2016

A queda do muro de Berlim, em 1989, representou o fim do socialismo na Europa, além de ser apontada como marco definitivo do fim da Guerra Fria, conflito ideológico que opunha as duas principais potências da época, os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Repleta de simbolismo, a destruição da barreira que separava a Alemanha Ocidental da Alemanha Oriental traduzia, naquele momento, a ideia de um mundo mais unido, livre de conflitos e mais voltado ao entendimento entre as nações.

Muros

Muros

Não é por acaso, portanto, que justamente as cenas daquele 9/11/1989 abram o documentário “Muros” (2015), dos espanhóis Pablo Iraburu e Migueltxo Molina. A ideia é simples: opor o mundo idealizado naquele momento de otimismo universal e a realidade que vivemos atualmente, passadas mais de duas décadas do evento. De antemão, o filme deixa claro que nunca houve tantos muros isolando países como há hoje, e coloca por terra já em seus minutos iniciais qualquer ideal igualitário que aquele fato histórico ainda sustentasse. Retratando especificamente os obstáculos que separam os Estados Unidos do México, a Espanha do Marrocos, e a África do Sul de Zimbábue, Iraburu e Molina apontam uma série de contrastes entre esses países e como essas diferenças se refletem no comportamento segregacionista que americanos, espanhóis e africanos adotam em relação aos seus vizinhos mais próximos.

Muros

Muros

Contrapondo realidades diametralmente opostas, “Walls” (no original) acompanha um casal mexicano, um grupo do Zimbábue e uma mulher marroquina que veem na transposição das fronteiras a possibilidade de uma vida melhor, resumida contundentemente por uma pichação que marca o muro pelo lado do México: “Tambien de este lado hay sueños” (“Também há sonhos deste lado”, em tradução livre). Embora separados por centenas de quilômetros de distância, há em todos eles uma unidade de sentimento: abandonar a pobreza que marca a sua existência.

Muros

Muros

O filme também dá voz aos agentes responsáveis por reprimir as tentativas de imigração ilegal, e o que se vê é o conflito entre o lado humano e a necessidade de cumprir o dever. Em sua maioria, esses homens compreendem os motivos que levam alguém a transpor ilegalmente a fronteira e chegam a admirar a força de vontade dos “clandestinos”, mas não podem permitir que essa travessia se complete. Com um passado recente de segregação racial, a África do Sul surge como exceção a esse cenário, apresentando um oficial cujo trabalho é encarado como diversão.

Muros

Muros

A belíssima fotografia de Iraburu dá enfoque a cercas, grades, enormes armações de arame farpado e objetos perdidos pelo caminho, em planos-detalhe que evidenciam a manifesta intenção de manter essas pessoas longe do próprio território e as dificuldades que a empreitada ocasiona. Os planos abertos, por sua vez, com suas paisagens amplas e isoladas do ambiente urbano deixam claro que conseguir ingressar no país vizinho é apenas o primeiro de uma série de problemas que aguardam os aventureiros, sem qualquer perspectiva de uma vida melhor em qualquer dos lados em que se encontrem.

Muros

Muros

O maior pecado dos diretores, porém, é reduzirem sua proposta à afirmação batida de que “precisamos de menos muros e mais pontes para que as pessoas se entendam”, omitindo-se quanto ao debate sobre possíveis soluções ou mesmo quanto à construção de uma análise crítica dos fatores envolvidos. Com tantos pormenores em perspectiva, esperava-se que o filme contribuísse mais para o esclarecimento do público. Perdoe-se o trocadilho, mas essa foi uma barreira que “Muros” não foi capaz de superar.

Festival do Rio 2016 – Fronteiras

Muros (Walls)

Espanha, 2015, 80 minutos

Direção: Pablo Iraburu, Miguelxto Molina


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52