Na Granja

10o FENATIFS dá um salto qualitativo, em programar para o segmento infantil e juvenil, o delicado espetáculo que aborda o suicídio

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08 de outubro de 2017

A cada ano o FENATIFS vêm surpreendendo por fazer escolhas essenciais em sua programação. O diferenciando, realmente, da grande maioria dos festivais do país, que fazem um dirigismo nas escolhas de suas atrações para a infância e juventude. Geralmente encaminhando, ou adaptando estas escolhas, em conteúdos que passam por questões como a busca e a permanência da inocência, a beleza pelos contos de fadas, o universo repleto de lindas e vivas cores, a pureza total, o brilho, o positivismo, a alegria, a doçura, entre tantos; e cercando assim, as nossas crianças em um mundo ideal, pleno, e acima de qualquer suspeita. Buscando varrer para debaixo do tapete os temas tabus que envolvem os seres humanos e a sociedade. Como se fosse possível blindar de nossas vidas todas as monstruosidades, as condutas, e os desvios de comportamento do humano. Tais atitudes costumam ser, ao contrário, bem mais traumáticas e assustadoras, simplesmente porque as crianças, e os jovens, ao se depararem com os seus verdadeiros monstros, nunca terem sido sequer apresentados a eles. Não sabendo assim como se portar ou reagir ao totalmente desconhecido, ao estranho, ao intruso real, aos verdadeiros monstros que habitam as zonas mais escuras e sombrias de nosso vasto mundo. E com isso, acabam também por serem vítimas de um excesso de zelo em assuntos mais duros que dão conta da nossa finitude, e que trata do rito de passagem de cada um. Não sabendo separar o que é delito, do que é natural, como a morte sem si.

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O espetáculo trabalha com os planos baixo (chão) e alto (aéreo), onde Cadu Garcia executa números de trapézio na personagem Ganso, e Edson Thiago executa número musical na personagem Galo. Foto Yuri Pinheiro.

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A funcional cenografia é composta de tatames emborrachados e uma ribalta de luzinhas, que delimita o lugar da granja. Foto Yuri Pinheiro.

Por conta disso, foi com grande satisfação que eu assisti ao espetáculo Na Granja da Amarelo Cia de Teatro de São Paulo, com orientação de Luiz Fernando Marquez, que conta a história da amizade improvável, entre um ganso e um galo, em uma granja. Livremente inspirado no conto “Suicídio na Granja” de Lygia Fagundes Teles, e que conta também com trechos de poemas e fragmentos de livros de Mario de Andrade, Rubem Alves, Manoel de Barros e Ana Carolina Fiuza. O espetáculo é um verdadeiro poema singelo. Dotado de uma simplicidade, doçura e delicadeza muito particulares. Onde todos os elementos que compõem o espetáculo são realizados pelos dois atores em cena, desde a composição de diversas frases, gestos e partituras corporais até na operação de som e luz. Um trabalho que vai nascendo aos poucos diante de nossos olhos, através de diversos elementos que vão criando uma intimidade entre palco e plateia, e gerando grande cumplicidade durante toda a encenação. Misturando tempos e espaços ficcionais diferenciados, como o real, o narrativo e da atuação. Um dos méritos do trabalho é o texto da peça, seja pela escolha do conto como espinha dorsal, e pela dramaturgia adotada para conta-lo. A grande dose de poesia e lirismo faz um ótimo contraponto ao tema suicídio, onde as resoluções de criação contribuem definitivamente para que toda a carpintaria corporal e cênica venham carregadas de interesse. A riqueza do processo da encenação conseguiu abrir muitas importantes vertentes para o teatro contemporâneo brasileiro, como o lugar do ator e da personagem, da possibilidade de levar até ao público de todas as idades um tema tabu, a riqueza e naturalidade como Lygia Fagundes Teles trata o suicídio, suas vocações e causas, a construção do corpo e da alma dos animais – que passa longe de qualquer imitação ou composição visual que force uma associação direta ou óbvia aos animais retratados. A encenação acerta em cheio em mergulhar profundamente na relação de amor e amizade entre dois seres tão especiais da fauna brasileira. Esta é a grande força do trabalho, o jogo, as escolhas, as composições estéticas, que dão ao projeto leveza e um ar de processo em construção constante.

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Edson Thiago apresenta um trabalho muito seguro como portô. Com muito destreza e força. Foto Yuri Pinheiro.

A cenografia funcional, e essencial, é simples e muito objetiva. Composta de elementos circenses como o tatame e o trapézio simples, um balde e instrumentos musicais como o ukulele e o bongo, consegue nos levar a todos os mundos propostos. Os figurinos, um híbrido de roupa de ensaio de bom gosto, misturada com coletes que mudam o campo e ótica da atuação, no seu uso, se complementam muito bem. A música de Maurício Germano é muito delicada e poética. A química, a simbiose e o sincronismo encontrados entre os dois atores é o que move todo o espetáculo. Cadu Garcia cria uma ótima composição da sua personagem do ganso mesclando delicadeza, leveza, e um certo mistério; com vigor e competência nos números de trapézio. Saindo-se muito bem, com muito carisma e elegância, nos números em que atua como “volante” (o indivíduo que é alçado ao ar, ou é carregado). Edson Thiago faz um ótimo contraponto como o galo, onde propõe um corpo mais pesado, com mais dificuldades; e mostrando grande qualidade como portô/base (o indivíduo que serve de base, e que alça e suspende os ” volantes” como Cadu).

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Cadu Garcia tem um desempenho muito delicado, e elegante, como o ganso. Foto Yuri Pinheiro.

O espetáculo “Na Granja” foi certamente, uma das maiores surpresas do 10o FENATIFS, e dificilmente perderá essa posição, por ter apresentado com tanta competência um tema tabu com extrema poesia e naturalidade. Muito dos conteúdos apresentados irão reverberar por muito tempo nos assuntos da cidade de Feira de Santana. Sendo uma contribuição que extrapola o campo da arte e chega ao humano, pela arte. Não deixem de assistir a este bonito e tocante poema singelo – em futuras temporadas ou turnês -; principalmente àqueles que amam os animais- o respeitam verdadeiramente -, e aos apreciados do bom teatro contemporâneo brasileiro.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4