Nadando até o mar ficar azul

Mestre Jia Zhangke sempre vale a pena

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05 de novembro de 2020

Vale ressaltar que alguns novos trabalhos de cineastas consagrados na 44° Mostra Internacional de Cinema de  São Paulo também dividem opiniões, como o lúdico “Nadando até o mar ficar azul” de Jia Zhangke (diretor que assina o cartaz da Mostra este ano), documentário sobre sua própria família que pode ser visto como hermético para quem não for um fã cinéfilo (ampliando nosso conhecimento sobre o ídolo começado em “Jia Zhangke – Um Homem de Fenyang” de Walter Salles).

Ampliando o que o filme de Salles já trazia, não apenas a linguagem de criação de Zhangke é destrinchada, como sua história é desvelada de forma indissociável à sua forma de pensar. Mais do que isso, a história de sua família é refabulada em relatos fluidos, num fluxo líquido da memória como o título do filme, mergulhando ondas umas sobre as outras nos encontros de afluentes. E que não apenas expandem suas relações interpessoais na herança cultural recebida por Jia, como traçam inúmeras correlações com a própria história de sua cidade natal, Fenyang, como de seu país, desde a China comunista ao presente de ascenção econômica mundial. Esta crônica ao mesmo tempo crítica e reverencial é uma das assinaturas do diretor e, aqui, ele se sai muito bem mais uma vez neste quesito.

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Talvez o único porém mais categórico é que, para abordar tais histórias, algum nível de intimidade com a vida ou obra do diretor seria aconselhável. Não apenas porque o filme dispensa qualquer introdução mais didática, como também pelo fato de não termos um vínculos emocional necessariamente com as personagens, além de sequer abordar de forma direta seus filmes (apenas cinéfilos mais atentos irão tecer redes de analogia mais intrigantes com a forma como tudo se interliga e é referenciados na sua filmografia). Porém, é possível sim apreciar o filme como a história de uma família como qualquer outra, e cuja história é igualmente estimulante e representativa dos contextos sociopolíticos através dos tempos.

Ao mesmo tempo, Zhangke é um grande artesão de cenas pungentes que tiram extremo lirismo afora de imagens do cotidiano, mas geralmente em seus trabalhos mais ficcionais. Não que ele deixe de conseguir este feito em documentários, mais através de dispositivos e performances poéticas: Como numa cena incrível de aglomeração ao som de ondas a encerrar o curta “A Visita”, o qual o diretor também trouxe para a Mostra, como um capítulo que compõe o longa episódico “Masters of Short”. Não só isso reitera a força do cinema chinês autoral no interesse do cinéfilo brasileiro, quanto valoriza ainda mais o intercâmbio de ideias de Jia estar ao lado de outros episódios dirigidos por nomes como o iraniano Jafar Panahi, o ucraniano Sergei Loznitsa e outros grandes nomes, inclusive no elenco, como Isabella Rossellini.

Portanto, a principal chave para desvelar porque este documentário pode não empolgar a todos da mesma forma, assim como no próprio título do longa, talvez seja justamente a literalidade com que este documentário não utiliza da mesma forma criativa que o mestre costuma elaborar a poética mesmo na representação mais fidedigna da dura realidade ao nosso redor. A apesar de o título até possuir várias metáforas através do fluxo de lembranças fluidas de seus parentes, como já colocado acima, também o é explicado de forma mais literal numa das falas ao longo da projeção, e isto não é um demérito, tão somente uma escolha executiva na forma de desenrolar seu novelo dramatúrgico, que pode acabar alienando um pouco aqueles que procuram a boa e velha catarse potencial das obras de Jia.