Nahid – Amor e Liberdade

Filme traz à luz pela primeira vez questões das mulheres divorciadas e do direito à guarda dos filhos no Irã

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26 de julho de 2016

O que os filmes “A Separação” (2011), “A Fonte das Mulheres” (2011) e “A Pedra da Paciência” (2012) têm em comum? Os três denunciam situações absurdas e humilhantes pelas quais as mulheres islâmicas passam ainda hoje e são dirigidos por homens – Asghar Farhadi, Radu Mihaileanu e Atiq Rahimi, respectivamente. O número de cineastas mulheres é muito menor que o de homens em todo o mundo, por isso ainda são poucas as diretoras à frente de longas que contam as histórias de luta de gênero em seus respectivos países. Sara Ishaq, Samira Makhmalbaf e Khadija Al-Salami fazem parte de uma minoria que utiliza a câmera como forma expressão. Com seu primeiro longa-metragem “Nahid – Amor e Liberdade”, Ida Panahandeh entra para o time de mulheres que contam histórias de outras mulheres que sofrem com a cultura islâmica opressora e ganha o Prêmio do Futuro na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2015 por dirigir o primeiro filme iraniano que debate a questão das mulheres divorciadas e o direito à guarda dos filhos, que ainda é do pai segundo as leis iranianas.

A trama se centra em Nahid (Sareh Bayat, conhecida por “A Separação”), uma jovem mulher divorciada que foi obrigada a abrir mão do direito de se casar novamente para ter a guarda de seu filho Amir Reza (Milad HosseinPour). O que não estava previsto era ela se apaixonar por Masoud (Pejman Bazeghi), que a pede em casamento repetidas vezes sem entender o motivo da recusa, até que ela explica e surge uma solução: o sighe, casamento temporário mal visto pela sociedade iraniana. Começa aí uma sucessão de problemas na vida de Nahid.

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Diante de tantos problemas com o ex-marido Ahmad (Navid Mohammadzadeh) e família, o filho, o “atual” marido e a sua própria família, Nahid toma certas as decisões com as quais é muito provável que grande parte do público não concorde, especialmente se houver falta de empatia para com a personagem-título. Apesar disso, é difícil não torcer para que tudo dê certo no final na vida daquela mulher tão sofrida e batalhadora. O maior problema do roteiro de Panahandeh e Arsalan Amiri é a constante indecisão e confusão de Nahid para resolver as situações que a confrontam, fazendo com que o espectador se sinta tão perdido durante o filme quanto a personagem, que parece sempre andar em círculos.

Nahid

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É inquestionável o mérito do premiado “Nahid” (no original) ao tratar de temas polêmicos do universo islâmico, que tocam na ferida do machismo de uma sociedade que culpa e julga duramente a mulher a todo tempo. A guarda dos filhos, as dificuldades de começar uma nova vida sendo uma mulher divorciada, a vergonha do casamento temporário, que traz junto a preocupação com o futuro – é muito importante que todos estes assuntos sejam discutidos à exaustão. Panahandeh errou em parte na construção da protagonista e no ritmo cíclico do enredo, porém abriu uma porta de suma relevância para outras cineastas, não só islâmicas, levantarem questões acerca da repressão feminina no cinema realista.

Nahid – Amor e Liberdade (Nahid)

Irã – 2016. 104 minutos.

Direção: Ida Panahandeh

Com: Sareh Bayat, Pejman Bazeghi, Milad HosseinPour e Navid Mohammadzadeh.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4