Não é um filme Caseiro

Fórmula da observação tensa e constritiva na tentativa de resgatar a memória de sua família

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05 de outubro de 2015

Existem realizadores que jamais abandonam um conceito nem se desviam de seus propósitos. Vejamos o caso da diretora belga Chantal Akerman: em 1976, ela realizou um dos mais ousados e visionários documentários com “Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles” , um estudo hipnótico com uma abordagem profundamente pessoal que acompanhava em tempo real  o dia a dia de uma dona de casa.

Passados 39 anos, Chantal ainda sem espaço e divulgação de sua merecida obra, continua apresentando um cinema de autor experimentando novas formas estruturais. Durante todo este tempo, Chantal continua insistindo em uma ironia imagética optando por escolhas estilísticas desafiadoras.

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Em Não é um filme caseiro (No Home Movie) – vaiado no Festival de Locarno – Chantal registra com câmeras digitais, imagens de sua mãe idosa em seu apartamento em Bruxelas. Aqui, Chantal repete a fórmula da observação tensa e constritiva na tentativa de resgatar a memória de sua família, cuja mãe sobreviveu o terrível campo de concentração de Auschwitz. Mas o resultado é um trabalho extremamente desconfortável que não esconde o vanguardismo experimental da diretora que simplesmente deixa a câmera ligada como uma observadora imparcial. O hermetismo da proposta não permite que a platéia se identifique ou se emocione e os momentos mais agradáveis ficam por conta das conversas casuais entre Chantal e a mãe Natália que aparentemente não possui nenhum sentimento vitimado sobre os efeitos devastadores do nazismo em sua vida.

 

Chantal oprime o espectador com longas e intermináveis sequências, algumas aparentemente sem conexão com o tema (como o jardim da casa da mãe que insiste em filmar da varanda) intercalando com longas tomadas externas, cujo significado necessita da ajuda de uma leitura minuciosa e um compêndio interativo sobre a realizadora – como, por exemplo, as imagens tremidas captadas durante um trajeto de carro por um deserto que seriam uma metáfora sobre a travessia dos judeus até a Terra Prometida. Fica claro que a proposta de Chantal é de enfrentar o público com um formalismo rígido e exigir um entendimento subjetivo profundo e não de agradá-lo com imagens de um tradicional filme caseiro (como o título indica), mas certamente ficaria mais interessante se seu ego intelectual não fosse tão demasiadamente inflado e inalcançável.

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Festival do Rio 2015 – Panorama: Grandes Mestres

Não é um filme caseiro (No Home Movie)

França, Bélgica. 2015. 115 min.

Direção: Chantal Akerman

Com: Chantal Akerman, Natalia Akerman


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