Nardjes A.

Revolução do sorriso

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14 de outubro de 2020

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Continuando nossa cobertura do 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba, dentre produções que descentralizam os polos cinematográficos para regiões menos contempladas por editais e financiamento público como do Pará ao Ceará, de Alagoas ao Goiás, daremos algumas dicas para que nossos leitores possam fazer suas próprias programações. Com destaque igualmente para algumas coproduções internacionais, como “Nardjes A.” de Karim Aïnouz, nosso consagrado cineasta que representou o país no último Oscar com “A Vida Invisível”, e que realizou este novo documentário sobre a terra natal de sua família na Argélia, com auxílio da França e Alemanha.

Abordando a desobediência civil ante o fascismo, “Nardjes A.” de Karim Aïnouz, que segue a protagonista argelina homônima do título, é um filme apenas composto por manifestações populares. – O que talvez não nos pareça tão inédito por termos visto obras recentes mais inovadoras tecnicamente neste sentido, como “Escolas em Luta” e “Espero Tua (Re)volta”… No entanto, é até delicado nos debruçarmos sobre a estética das manifestações (algo cada vez mais raro no Brasil), ainda por cima se compararmos a situação da Argélia com nossa ataraxia. Lá, eles conseguiram resultados com certo pacifismo e um “sorriso da resistência” (o filme exemplifica que a população se manifesta com uma revolução do sorriso).

Não que tenham inexistido algumas repressões policiais na Argélia, mas o próprio Karim Aïnouz fala que chegou para filmar apenas depois deste impacto inicial (aqui), e a personagem Nardjes relata que a população conseguiu começar a desviar das zonas de conflito de maneira estratégica… Assim, conseguiram chamar a atenção mundial para que o governo não pudesse ter a alternativa de violência. O filme escolhe não mostrar nenhum traço de repressão, que é algo que qualquer manifestação perpassa. E, não abordar esse tipo de estética (porque a repressão também é uma estética em prol do esclarecimento e identificação), talvez seja um desconforto que não irá atravessar os brasileiros da mesma forma, porque esse caso não existe isolado no mundo.

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