Negação

Novo filme de Mick Jackson peca pelo didatismo excessivo, mas ganha pela força da história real

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10 de março de 2017

“Negação” começa situando o espectador sobre o que está por vir. Vê-se o historiador David Irving (Timothy Spall) rejeitando a existência do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial em rápidos discursos, seguido da pesquisadora Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) questionando seus alunos em sala de aula sobre como é possível provar a existência de fatos históricos. Baseado em fatos reais, o filme dirigido por Mick Jackson após 16 anos sabáticos narra o embate legal entre Lipstadt e Irving, que a acusa de difamação por proferir palavras contra ele em seu último livro sobre a sua descrença de realmente ter havido o Holocausto.

Típico filme de tribunal, “Denial” (no original) tem uma dicotomia muito bem marcada: de um lado, está Lipstadt, uma pesquisadora, escritora e professora que se dedica a estudar o Holocausto e a denunciar mentiras sobre este terrível evento histórico; de outro, está Irving, um historiador em ostracismo com um discurso populista (que parece uma mistura de político com pastor evangélico), que tem a fama como objetivo. Embora tenha sido Irving a processar Lipstadt, é ela quem deve apresentar provas segundo a lei britânica.  Por isso, cabe a ela montar um time de advogados composto por Tom Wilkinson e Andrew Scott, em atuações bastante competentes, enquanto ele, no alto de sua soberba, escolhe por defender a si próprio, sem contratar nenhum advogado.

O didatismo excessivo do roteiro de David Hare (“As Horas” e “O Leitor”) em relação ao sistema judiciário britânico durante toda a trama acaba soando monótono ao público e carece de emoção – todo o julgamento ocorre num tom muito frio, ainda que sua questão central seja bastante delicada e emotiva, por colocar em cheque a morte de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Rachel Weisz e Timothy Spall representam muito bem seus papeis, apesar dela perder um pouco em atuação devido à sua personagem ter que se anular e calar suas opiniões durante o julgamento para que os advogados vençam o caso.

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Com tom de telefilme britânico (o que não é de se estranhar já que é uma coprodução com a BBC Films), “Negação” tem como ponto mais importante levantar a discussão acerca da liberdade de expressão, que se faz muito atual e pertinente em tempos em que muitas pessoas expõem suas opiniões e frustrações nas redes sociais sem medir as consequências, e a mídia está cada vez mais sensacionalista. O poder do filme reside em sua história real, ainda desconhecida por muita gente, mesmo tendo acontecido há poucos anos atrás. O desenrolar da trama é correto, embora muito didático e bem pouco emocionante. Um longa que vale a pena ser assistido pelo conteúdo histórico e pelas ótimas atuações, porém merecia uma apresentação menos engessada.

 

Negação (Denial)

EUA / Reino Unido – 2016. 110 minutos.

Direção: Mick Jackson

Com: Rachel Weisz, Tom Wilkinson, Timothy Spall e Andrew Scott.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3