Nem Ricardo Darín leva ‘A Codilheira’ ao circuito nacional

Estrelado pelo muso argentino, com um inspiradíssimo Leonardo Franco no papel do presidente do Brasil, thriller político de 2017 perde a 'janela' do cinema no Brasil e vai diretamente para a TV, estreando dia 28 no canal MAX

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20 de outubro de 2018

Darín The Summit La Cordillera A Cordilheira 7 el_presidente La Cordillera A Cordilheira 7 Santiago Mitre

Rodrigo Fonseca
Visto por 640 mil pagantes no circuito argentino, indicado a 25 prêmios internacionais, entre eles a láurea Un Certain Regard de Cannes, “La cordillera”, thriller político de 2017 estrelado pelo muso latino-americano Ricardo Darín, bateu na trava na hora de disputar uma vaga no circuito exibidor nacional e acabou, após um ano de espera, sendo lançado diretamente na TV. No próximo dia 28, às 21h, o longa-metragem de Santiago Mitre estreia no canal a cabo MAX. Tem reprise no dia 29, às 20h, e no dia 31, às 16h e às 23h50. Agraciada com o troféu Platino (o Oscar da latinidade) de Melhor Trilha Sonora (coroando a excelência melódica de Alberto Iglesias), esta produção de US$ 6 milhões – lançada lá fora pela Warner Bros. em seus dias na Croisette – aborda um conclave de presidentes das Américas, tendo intrigas de corrupção e pecados afetivos pessoais em seus bastidores. Na televisão, Darín costuma ser dublado por Márcio Simões.

“Muito tempo se passou desde a feitura do filme e temos uma outra América Latina, com muitas crises. Os presidentes presentes na trama do filme debatem a criação de uma empresa multinacional de hidrocarburetos. Pactos, alianças e discussões são apresentados no filme, num debate sobre a conformação desse projeto”, explica Mitre em entrevista por email ao Almanaque Virtual.

Em nenhum momento dos 114 febris minutos de “A Cordilheira” (tradução literal no Brasil) se fala o nome da Petrobras, mas é o petróleo brasileiro que serve de combustível às negociatas políticas retratadas neste thriller moral e cívico com Darín. O Brasil está representado na figura do presidente Oliveira Prete, vivido com uma ironia saborosa pelo ator Leonardo Franco, da série “Preamar”. Ele é o alvo e o inimigo de todos, menos do líder argentino, o atormentado Hernán Blanco. E este papel ficou nas mãos de Darín, primoroso em cena.

“Faço cinema desde os 10 anos, mas nem todos os meus amigos são desse meio. Tenho um amigão de infância que sempre que me encontra me pergunta: ‘Quando é que você vai ficar famoso?’. Na cabeça dele, o que faz um ator latino ser famoso é ele ser convidado para ser vilão num filme de 007. Bem… até gosto de James Bond, mas não é essa a fama que me interessa. Eu faço filmes para poder representar o meu povo, meu continente, disse Darín ao Almanaque Virtual em entrevista na França, no lançamento de “A cordilheira”.

Leonardo Franco brilha na pele do presidente do Brasil

Leonardo Franco brilha na pele do presidente do Brasil

Premiado em Cannes em 2015 por “Paulina”, Mitre chamou a nata das atrizes e atores das Américas hispânicas para o elenco, como os chilenos Paulina García (de “Glória”) e Alfredo Castro (de “O Clube”), a argentina Dolores Fonzi (de “Truman”) e o espanhol radicado em solo mexicano Daniel Giménez Cacho (de “Má Educação”), além do americano Christian Slater (“Mr. Robot”). Com mais de 50 peças em seu currículo nas artes cênicas, Leonardo Franco tem uma luminosa atuação ao lado dessa trupe. À época de Cannes, ele definiu seu personagem como “o ponta de lança no comando da assembleia que movimenta a trama”.

Centrada nas crises morais na América do Sul, o enredo do longa põe Hernán Blanco, papel de Darín, entre as disputas com o líder brasileiro e uma crise familiar ligada à saúde mental de sua filha (Dolores Fonzi). “Eu não sei se, no contexto político, uma só pessoa possa fazer diferença e mudar a realidade social que temos à nossa volta, mas tenho certeza de que os esforços individuais são fundamentais para a decantação do processo democrático das Américas. Houve um tempo em que a democracia era uma questão de bem-estar, mas hoje ela virou um negócio. Política era uma filosofia de mundo, agora ela é um mercado”, diz Darín, revelado aos brasileiros em 2001, à frente de “Nove rainhas”, e popularizado mundialmente à frente de “O Segredo dos seus olhos”, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. “Há décadas, a América Latina busca o sonho de integração entre seus países como uma saída para todos os problemas do continente. A fraternidade costumava ser vista como um convite à esperança. Mas esse sonho esbarrou no fato de que nossos governos democráticos não chegaram à puberdade: foram anos e anos de ditadura em países como a Argentina e as feridas não cicatrizaram”.