Neruda

O ano de Pablo Larraín

por

03 de fevereiro de 2017

Definitivamente o cineasta chileno Pablo Larraín está vivendo o momento de maior visibilidade na carreira, um dos nomes mais importantes do século 21 para o cinema mundial, com não um, mas dois filmes premiados, “Neruda” e a produção internacional “Jackie”, cotado para o Oscar de melhor atriz para Natalie Portman no papel de Jacqueline Kennedy. Isso porque ano passado lançou um de seus melhores e mais polêmicos exemplares com o laureado “O Clube”, sobre pedofilia na Igreja, e já foi selecionado para o Festival de Berlim 2017 com o novo filme que produziu de um de seus parceiros, Sebastián Lelio de “Gloria”.

neruda16-800x533

Pablo começou com uma filmografia indie, alternativa, começando a receber prêmios em inúmeros Festivais com segundo longa: o transgressor “Tony Manero”, que abordava a Ditadura de Pinochet por um viés psicologicamente obscuro, através da psicose de um homem que se projetava no eterno personagem de “Os Embalos de Sábado à Noite” para vencer um concurso de imitadores. Já se prenunciava neste personagem (interpretado por seu ator-fetiche Alfredo Castro) uma forma de compensação pelo vazio ideológico em meio a um período repressor, enquanto atropelava tudo e todos que estivessem em seu caminho. Atenção para as palavras ‘Ditadura’, ‘psicologicamente’ e ‘obscuro’, pois em parte definem bem alguns desafios que o diretor gosta de abraçar, em formatos e cores sempre personalizadas. Então nada mais natural do que Larraín se debruçar enfim sobre um dos maiores ícones na história de seu país: o poeta Pablo Neruda.

Neruda-o-filme-por-Márcio-Menezes

Ainda que tenha sido feito outro filme homônimo, dirigido por Manuel Basoalto apenas dois anos antes, quase sobre o mesmo período histórico abordado também aqui, se Larraín dedicou seu tempo para um projeto como este no mínimo é porque teria uma visão completamente ímpar. E neste quesito se supera tecnicamente por duas razões: mais uma vez brinca com filtros, iluminação e direção de arte a colorir o filme de forma única, como numa fotografia envelhecida do período, com tom de azul e cinza esmaecido contraposto ao sépia mais cálido, além de gerar uma das melhores catarses narrativas do ano, com a metalinguagem de Neruda ser ao mesmo tempo personagem-objeto da história e sujeito a escrevê-la. Méritos, respectivamente, compartilhados com o diretor de fotografia Sergio Armstrong, parceiro em quase todos os seus filmes e também de outros dos maiores cineastas chilenos, bem como do roteirista Guillermo Calderón, que se juntou ao time desde o incrível “O Clube”.

Tudo começa quando o próprio poeta começa a ser perseguido politicamente enquanto ocupava o cargo de senador, em um cenário que se preparava para o Golpe de Pinochet de 1973. Como já gozava de prestígio na carreira artística, isto se volta contra ele como uma faca de dois gumes, tanto em colocar um holofote sobre sua cabeça difícil de se esconder das autoridades, quanto em ampliar a voz de sua causa democrática de esquerda para o resto do mundo. E já seria um intento considerável se parasse por aí. Mas o filme possui um Calcanhar de Aquiles que, eis o pulo do gato, será usado em benefício da história.

neruda (1)

Existe um coprotagonista. Com quase o mesmo tempo em cena, especialmente se contarmos no cômputo que é ele quem narra em off a história, como se conduzisse o ritmo e o destino. E não estamos falando da maravilhosa Mercedes Morán, musa de outra das maiores cineastas do século 21, Lucrecia Martel, que aqui interpreta a esposa do poeta e serve de âncora para o personagem e para a consciência narrativa. O outro personagem central é um policial obstinado na pele do astro-galã Gael García Bernal, que não segura o rojão de seu personagem com tanta precisão cênica quanto sua contraparte Luis Gnecco, o qual encarna Neruda com extremo vigor criativo e brejeiro. A criança que Gnecco desperta sob as camadas desacreditadas do envelhecer faz acreditarmos no amor maior do que a vida que o poeta tinha pelas coisas e pessoas, o bastante para ser crível a luta dele contra o sistema. Qual sistema? O que impedia a equiparação de direitos para que todos pudessem ter acesso às mesmas escolhas que ele teve, como numa das melhores cenas: quando ele é interpelado durante o jantar por uma cidadã que questiona o quanto o poeta vivia de fato o comunismo que ele mesmo pregava.

E o pulo do gato mencionado acima? É a reviravolta final que muda todo o significado do filme, de forma metalinguística, a fazer o espectador também (re)escrever a história, como se os personagens estivessem cientes de serem parte de uma ficção. Um diálogo enriquecedor sobre a simbiose entre obra e criador, especialmente quando a obra recria seu autor. E qual homenagem maior a um grande escritor do que lhe dar liberdade subjetiva no tempo e espaço da sétima arte? É desta forma que a perseguição policial ao poeta que apenas começara embebida nos filmes noir da década de 40 em Hollywood começa a virar assumidamente um filme de gênero, com ar boêmio de um quarto de hotel à luz do letreiro de neon ou com gosto devasso de cabaré popular. O que faz, enfim, o filme alcançar as alturas para o espectador que sairá agraciado da sessão. E, de quebra, só pra não romper com a tradição, o filme ainda conta com ponta especial do ator-assinatura de Larraín que está em praticamente todos os seus filmes, Alfredo Castro, quando parece que todos os enquadramentos em que aparece foram bolados com esmero máximo para merecer sua participação e homenagear colaborações anteriores.

Mas não encare o filme como biografia tradicional. Larraín subverte tudo. Para quem já aprecia o trabalho do diretor, vai gostar bastante e sentir melhor a proposta irônica do filme que privilegia a linguagem (filtro, cores, iluminação…., tudo pantomímico subvertendo o tom farsesco da história) e a metalinguagem (o Neruda de objeto da biografia vira sujeito e reescreve a história).