Never Rarely Sometimes Always na Berlinale 2020

De Laura Mulvey a Bell Hooks

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02 de março de 2020

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Vamos entender alguns motivos do porquê este filme já é desde o início do ano um dos mais aclamados, e sua diretora uma das mais promissoras: Crítica (sem spoiler) para “Never Rarely Sometimes Always” de Eliza Hittman foi laureado com o Grande Prêmio do Júri no 70° Festival de Berlim e já havia ganhado prêmio especial do Júri em Sundance 2020.

Eliza Hittman realmente chegou para ficar. A cineasta vem arrebatando público e crítica com seus filmes ultra independentes, e propondo novas perspectivas dramatúrgicas e feministas (palavra que a própria usa para definir seu cinema) dentro do cenário desgastado de Hollywood. Ela já havia feito bastante barulho com o aclamado projeto anterior, “Beach Rats”, que desconstruía a masculinidade tóxica, seguindo os desafiadores passos de outra cineasta icônica, a francesa Claire Denis (“Bom Trabalho”). Agora, Eliza aborda de forma ímpar e vanguardista um dos temas mais espinhosos não apenas do cinema, como da própria sociedade em geral, mesmo em países que se considerem mais esclarecidos, que é o aborto, como parte do longa-metragem “Never Rarely Sometimes Always” a competir pelo Urso de Ouro no 70° Festival de Berlim.

O grande diferencial de abordagem, que ninguém havia retratado antes necessariamente desta forma, foi que Eliza não focou o seu roteiro unicamente na questão do aborto. De quebra, ela entendeu as conexões estruturais das relações abusivas e do assédio na sociedade patriarcal que podem levar as mulheres ao tamanho desamparo da falta de direitos sociais para o aborto — numa excelente sacada desta expoente diretora autoral.

Para tal, Eliza busca como fonte de referência de linguagem uma teoria referencial da diretora e pesquisadora de cinema Laura Mulvey, sobre o sustentáculo do “male gaze” (“olhar masculino”) para o cinema clássico, e como desconstruí-lo. Existiria um “olhar feminino”? Ou, nas palavras mais acertadas de outra pensadora, Bell Hooks, existiria um “olhar opositivo”?

Eliza exerce este olhar opositivo sem precisar conceder em nenhum momento protagonismo ao homem em cena. Até porque não é do seu interesse ser condescendente com o instrumento de opressão, mesmo que fosse sem querer, dando excessivo lugar de fala a ele. Tampouco deseja deixar de focar na relação das mulheres e entre elas mesmas. Ao invés disso, o “male gaze” de personagens que renegam o quanto podem estar oprimindo as mulheres está sempre lá nas sutilezas, mas sem nunca tirar a exclusividade do quadro de suas protagonistas femininas.

A crueza de câmera segue suas duas protagonistas de forma despojada, como uma câmera digital filmaria personagens documentais, para dar um tom de veracidade. A própria diretora falou em coletiva de imprensa que gosta bastante de estudar a forma como as pessoas se enquadram em suas fotos nas redes sociais, tipo facebook e instagram, porque traz contemporaneidade ao olhar do plano. Decerto, se você acompanhar o conteúdo naturalmente tenso do tema principal através de uma cognição mais familar, através de uma “roupagem” de ângulos de câmera que pertençam às vivências retratadas na tela, você pode sentir um clima mais convidativo e empático para se colocar no lugar destas mulheres.

Trilhando a difícil jornada pelo aborto de uma gestação de mais de 10 semanas, institucionalizado nos EUA apenas em determinadas cidades grandes, as personagens de duas primas irão verter a sororidade e cumplicidade em linguagem e estética de cinema, palatável para todos os públicos — Arrisco dizer que até de forma mais especial para os que não apoiem a legalização do aborto no Brasil, por exemplo, para eles entenderem pelo que as mulheres passam.

Interpretadas por Sidney Flanigan e Talia Ryder, as protagonistas despontam como fortes promessas no cinema norte-americano, tanto que já estão em outros projetos de grande porte (Talia, por exemplo, estará no remake de “West Side Story” dirigido por Steven Spielberg). Mas, definitivamente, elas poderão olhar para trás e lembrar do marco que este filme foi para a sua carreira. Não que o elenco deixe de contar com um ou outro bom intérprete masculino, mas eles não precisam ser o foco. Muito pelo contrário, como dito acima, a textura que o filme dá para a influência negativa que eles exercem vem toda através de sutilezas… É um pai que está bebendo em toda cena que aparece e não se importa com o cotidiano da filha… É o bullying na escola… É o cliente do trabalho que confunde educação e gentileza profissionais com liberdade não concedida. É o chefe que se aproveita da hierarquia para assediar…

Sim, o mundo é cruel e desproporcional, e é por isso também que Eliza cria circunstâncias para suas personagens femininas poderem existir e respirar afora deste mundo, com suas próprias complexidades, seja através da comida, da música e dança… Até os mínimos detalhes também, como colocar um piercing no nariz, ou simplesmente saber que há outra mulher ao seu lado, mesmo sem precisar pronunciar uma palavra. E nem todas as mulheres deste filme precisam pensar igual ou estarem igualmente esclarecidas sobre seus direitos, pois assim como existe a assistente social solidária e apoiadora, existe a médica de cidade pequena que reitera os padrões opressores.

E este é outro diferencial que a diretora construiu: um filme feito de nuances e minúcias, onde não permite que as opressões e humilhações diárias se perpetuam ou retirem o protagonismo das personagens. Está tudo lá, igual à vida real, só não irá permitir que estas pessoas sejam definidas pela opressão que as atinge. Elas são livres, autônomas e emancipadas — algo que a câmera lida muito bem com a distâncias e proximidades das personagens com o mundo que as cerca, como os locais e transportes públicos.

E nisto que o título “Never Rarely Sometimes Always” vai ganhar outros contornos. A princípio, uma metáfora sobre essa toxicidade social, que permite numa via de mão dupla desde a existência do assédio e abuso à privação do direito da mulher ao aborto. Tanto que o título poderia ser traduzido de forma literal: “Nunca raramente, às vezes sempre”, indicando que essas problemáticas jamais acontecem raramente, mas noutras vezes acontecem sempre…

Num segundo olhar, o que vai gerar outro significado completamente catártico ao nome do filme é o grande trabalho de pesquisa de Eliza, incluindo profissionais da área que embasaram o extracampo do filme, e até interpretaram a si mesmas como algumas personagens da área médica. Esse título longo e pungente ainda vai render uma das melhores cenas do filme, e contribuirá com que a plateia saia do cinema refletindo ainda por muito tempo…

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