Ninguém Entra Ninguém Sai

Referências promissoras

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26 de abril de 2017

Engraçado, parece haver duas obras paradoxalmente opostas dentro do filme “Ninguém Entra, Ninguém Sai” de Hsu Chien. Em uma, afilia-se ao movimento denominado atualmente com a corruptela de ‘globochanchada’, que resgata uma espécie de comédia subversiva entre a ingenuidade e a malandragem da cinematografia brasileira, no melhor estilo “Histórias que Nossas Babás Não Contavam”, numa boa crítica a diferenças de classes. Numa segunda instância, há um fino humor inteligente e politizado, com alguns diálogos pontuais e cortantes, de reflexão na direção oposta à da graça mais imediatista e corporal ou escatológica da primeira obra ali contida, como se houvessem sido escritos para a nova onda latente do cinema pernambucano. Não é um equilíbrio fácil nem constante, até porque parece não ser a intenção mantê-lo por muito tempo para segurar as massas mais pelo riso, porém, quando o atinge, o cineasta estreante como diretor de longas-metragens, Hsu Chien, alcança algo mais.

received_10207102523641290A história é tão inusitada que apenas conseguiria coerência de fato pela crise recente que o país está sofrendo, a liberar os desejos e paixões adormecidas em manifestações acaloradas que enchem as ruas divididas por barricadas entre povo e poder público. A brincadeira com o título “Ninguém Entra, Ninguém Sai” adveio daquele filme de terror “Pague para Entrar, Reze para Sair” e conta a história de inúmeros casais, a princípio de origens e classes diferentes uns dos outros, que se descobrem presos num Motel de luxo em quarentena policial sob suspeita de epidemia mortal com qual todos podem estar contagiados. Porém, o leitor pode se acalmar. Não se assuste com a parte da ‘epidemia’ e ‘contágio’, pois não se trata de um suspense nem terror. É apenas uma comédia baseada num conto de Luis Fernando Veríssimo, brincando com um dos imaginários mais marcantes e ‘Rodrigueanos’ do senso comum sexual brasileiro: a fugidinha, a escapada, o ganso afogado, a cerca pulada… E se as pessoas que lidam com isto apenas por debaixo dos panos fossem obrigadas a encarar seus desejos mais secretos inibidos socialmente pelas hipocrisias diárias?

FB_IMG_1493233265793Há algo, entretanto, bastante relevante de ser ora mencionado: o diretor Hsu Chien não é estranho a influências mis de inúmeros gêneros e movimentos cinematográficos. Em primeiro lugar por ser um dos maiores assistentes de direção do Brasil, presente em dezenas de filmes desde a Retomada, por exemplo, com o cult “O Que É Isso, Companheiro?”, e até com alguns dos maiores sucessos recentes como “Minha Mãe É Uma Peça”. Em segundo lugar porque Hsu Chien, brasileiro de descendência chinesa, possui já uma boa carreira com inúmeros curtas-metragens premiados, como sua obra-prima inesquecível “Pietro” ou o transgressor “Flerte”, todos embebidos por grande liberdade artístico-autoral com referências a cineastas de Wong Kar-Wai a Vittorio De Sica e Michael Haneke. Apesar de nestes últimos anos ter concentrado mais seu trabalho na TV, dirigindo séries como “Pé Na Cova”, sob a batuta textual de Miguel Falabella, é bastante paradigmático das dificuldades inerentes a se fazer cultura no Brasil que vejamos alguém com uma carreira tão extensa apenas debutar seu primeiro longa agora, e amparado pela Globo Filmes, para poder existir artisticamente no circuito comercial a evoluir seu talento ante um público maior.

Por isso não estranhe o espectador se esbarrar em mais de um gênero cinematográfico, como além da espinha dorsal calcada na comédia, um misto de pitadas de suspense policial, ligeiro erotismo elegante da pornochanchada e até musical (!). Sim, há sequência karaokê, versão sing-along, para quem quiser arriscar o gogó nos cinemas, segundo a intenção revelada pelo próprio diretor.

FB_IMG_1493233247872Tecnicamente caprichoso, “Ninguém Entra, Ninguém Sai” possui alguns bons momentos de virtuosismo na linguagem cinematográfica, como a cena do beijo submerso na piscina muito bem filmada, ou a sequência de amor entre os personagens adolescentes que além de quebrar tabus do não-dito na educação sexual entre jovens, é fotografado com uma iluminação vermelho-azulada no calor dos poros da pele que faria o previamente citado Wong Kar-Wai ficar orgulhoso. Outras partes são apenas mais burocráticas para dar prosseguimento à história, especialmente se utilizando de planos conjuntos para abarcar o grande volume de personagens deste elenco coral, ou seja, focado mais em múltiplos protagonistas do que apenas em um ou dois. Somente os cortes e elementos de ligação entre tantas transições que poderiam ser melhor azeitados pela dinâmica que o filme acaba alcançando, mas de fato é um esforço hercúleo de se administrar, ante tantos planos e sets diferentes.

FB_IMG_1493233241886Cada casal e cada quarto do Motel são tematizados de forma única, para além de homenagear outras obras em si, nominalmente ou implicitamente, como “O Pequeno Príncipe” a “ Contos Proibidos do Marquês de Sade” ou “Cinquenta Tons de Cinza”, a extensão cromática ainda consegue personalizar uma referência em cada quarto para cada palheta de seus curtas, como o cinza-azulado de “Pietro” ou o vermelho-esverdeado de “Flerte”. Isto é importante também para individualizar a dramaturgia dos casais principais, capitaneados pela Juíza e seu segurança/amante interpretados por Danielle Winits e Tatsu Carvalho e pela advogada e o motoboy interpretados por Letícia Lima e Emiliano D’Ávila. São os dois casais mais atraentes e óbvios do roteiro, necessários para criar identificação imediata, independente de conterem suas parcelas de surpresas e críticas às disparidades de classes sociais, numa democratização utópica existente dentro do Motel.

Mas é no casal interpretado por Mariana Santos (“Zorra Total”) e Rafael Infante (“Porta dos Fundos”) que se concentra a maior originalidade e inovação. Não necessariamente pelos arquétipos, que aparentam começar pela famosa Síndrome de Estocolmo de uma virgem sequestrada por um ladrão de bom coração, mas sim pelo desenvolvimento e defesa com unhas e dentes por seus intérpretes, que os levam para lugares novos. Há de se surpreender tanto com eles, que, caso o espectador destacasse as cenas dos dois e removesse todo o restante do filme, a obra ainda conseguiria existir per si e com grande ou até maior relevância do que inseridos no todo, inclusive saindo deles alguns dos melhores diálogos, como sobre brincar com a marginalidade do crime como uma crise existencial psicanalista à “margem de si mesmo”…

FB_IMG_1493233236126Não que outras interpretações deixem de ter seus momentos, como a inversão dramatúrgica de Anselmo Vasconcelos e Renata Castro Barbosa etc, independente do foco destinado à importante personagem da ótima Guta Stresser que fica um pouco perdida na caricatura dissonante. Além de inúmeras participações especiais como de Nizo Neto, Ricardo Boechat, Sidney Magal e destaque surpreendente para Sergio Mallandro misturando em seu personagem ares de pastor, pai de santo, rabino e padre, numa inusitada e ácida crítica anárquica à confusão de identidade das instituições religiosas atuais. E não é só a Igreja que leva bordoada. Como mencionado inicialmente, é a política a principal coadjuvante de luxo em cena, como a partir da analogia com os servidores e aposentados sem receber que são aludidos quando o governo interrompe o suporte financeiro à quarentena e relega a Deus dará os aprisionados dentro da barricada policial que os separa de seus familiares, todos devidamente explorados pela mídia como num BBB da vida real.

O que fica destes vários intentos extremos, uns mais acertados e outros mais populistas, é que Hsu Chien consegue segurar com firmeza técnica a enorme colcha referencial de sua experiência cinematográfica e ainda fazer ao menos duas atrizes provarem o quanto podem protagonizar qualquer filme e andavam com potencial ainda subaproveitado para o cinema: Em primeiríssimo lugar, e nem podemos dizer que é uma surpresa, pois ela é uma gigante, que é a comediante de mão cheia Mariana Santos; E em segundo lugar a revelação ‘Porta dos Fundos’ Letícia Lima, com uma fantástica dicção para o timing do humor verbal, arriscando até desafiar a expressão de uma comédia também corporal, sendo a única em cena a conseguir transcender e quebrar o estereótipo limitador de ‘musa’ do filme.