Ninguém Está Olhando

Produção Argentina olhando para o mundo

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23 de novembro de 2017

O sólido drama argentino “Ninguém Está Olhando” de Julia Solomonof é uma realização bastante cosmopolita e internacional ante as novas buscas do cinema Latino Americano pelo outro, pelo espelho de si em terras estrangeiras. Ambientado em Nova York, conta com uma coprodução brasileira, e atuação dedicada de Guillermo Pfening, além de ter contado com duas diretoras brasileiras na equipe: Petra Costa, que atua no elenco de suporte numa metalinguagem com a vida; e Lucia Murat que coproduziu com a sua produtora Taiga Filmes e Vídeo.

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Como marco, é uma das demonstrações de que o cinema latino americano enfim se colocou no mundo já com tal identidade assumida que pode viajar e explorar novos reflexos sem se perder na imagem de outrem. Os brasileiros demonstraram isso muito bem recentemente com o sucesso internacional “Gabriel e a Montanha” de Fellipe Barbosa. — caso o leitor deseje ler a reflexão do presente crítico sobre o filme, eis o link: https://revistamoviement.net/gabriel-e-a-montanha-filme-cr%C3%ADtica-c198db796e7b — Mas a Argentina está agora dando um importante passo com o novo exemplar da filmografia da diretora Julia Solomonoff. Aliás, inclusive como cineasta ela está na crista da onda de inúmeras novas representações no audiovisual como a desconstrução da binariedade, como diriam os ensinamentos da filósofa Judith Butler. Enquanto em seu incrível e imperdível filme anterior, “O Último Verão da Boyita”, ela já desenvolvia e desmistificava a condição ‘intersex’, antigamente mais conhecida pela expressão já superada: ‘hermafrodita’. Agora, Julia combate a masculinidade tóxica dando protagonismo a um personagem homossexual que, apesar de exalar uma masculinidade mais tradicional e tida como heterossexual, trabalha em Nova York com funções tidas tipicamente como femininas, como de babá para o bebê de sua melhor amiga, enquanto espera avançar na carreira de ator nos EUA. O curioso é que ele poderia ter tudo em sua terra natal na Argentina, já que era um ator de sucesso em telenovelas de lá, mas o personagem não viajou para os EUA apenas para tentar o sucesso do sonho americano, mas também para fugir de uma relação opressora e abusiva de um homem dominador que controlava não apenas a sua carreira latina como sua vida íntima e pessoal — outra questão que dificilmente vemos na tela em posições invertidas que não apenas retratando personagens femininas como subjugadas e personagens masculinos como subjugadores.

maxresdefault3Por isso, ainda mais para o grande público leigo, conta tanto desconstruir a masculinidade tóxica a partir de um personagem que em todas as aparências e características poderia parecer contribuir com os mesmos arquétipos que ora o oprimem, mas que na verdade todos podem ser alvo destas pesadas questões. Enquanto isso, Julia insere várias outras subcríticas, como à xenofobia e o preconceito contra imigrantes (estejam legalizados ou não), como nas cenas em que o protagonista interage com outras babás predominantemente estrangeiras no parquinho onde levam as crianças dos patrões para brincar. Também denuncia isto na própria relação de amizade que o personagem argentino possui com a locadora que lhe aluga o quarto onde mora, e a amiga que é mãe da criança que ele é pago para cuidar…; ou seja, mesmo sendo amigas, elas mantém uma relação de dominação sobre ele, que jamais consegue se sentir naturalizado e assimilado pela cultura ao redor. Nisto, a metáfora do ideal sonhador de um aspirante ao sucesso nas artes americanas se encaixa como um luva na inadequação necessária para o tema do filme.

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Há uma procura pela essência na fugacidade fluida dos acontecimentos da vida e de como enganamos a nós mesmos a nos furtar de pequenos pedaços de nossa identidade em troca de nos inserir no coletivo que não nos pertence. No intuito de não nos sentirmos (tão) sozinhos. Mas a intenção do filme não é o existencialismo, apesar de haver um flerte com tal. A imagética e fotografia dos contrastes entre o imaginário da cenografia americana pelos olhos argentinos ajuda a comstruir uma boa crônica sobre a superficialidade das aparências e julgamentos pessoais. Mas o protagonista de fato rouba a cena da própria trama, na pele do ator Guillermo Pfening, pois sua atuação de deslocamento nos tempos atuais está inserida numa narrativa que avança com muita naturalidade e de forma mais observativa, sem precisar de excesso textual. Talvez isso opere de maneira que possa ser interpretada como demérito às vezes, já que algumas subtramas ficam um pouco repetitivas ou podem ser abandonadas ligeiramente. Mas o que se assume como trabalho predominante mesmo é a centralidade em torno de Guillermo, que ganhou o prêmio de melhor ator no último Festival Cine Ceará, saindo também de lá com as láureas de melhor filme e montagem.