Nise – O Coração da Loucura

Entre eletro-choques e lobotomia, o coração

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24 de abril de 2016

Nise – O Coração da Loucura não é uma biografia da psiquiatra Nise da Silveira. O filme de Roberto Berliner se concentra em um período específico quando, em 1944 após ser afastada do serviço público por razões políticas, Nise foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Pedro II no Engenho Dentro no Rio de Janeiro, onde aplicou suas técnicas inovadoras que ia de encontro com as terapias agressivas da época, como os eletros-choque e a lobotomia.

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Berliner foge do lugar comum e faz um painel bastante fiel da doutora que, partindo do zero e enfrentando a oposição dos colegas, consegue fundar a “Seção de Terapia Ocupacional”, trabalho este que se transformaria na pedra fundadora da Arteterapia, promovendo uma verdadeira revolução na psiquiatria.  Visivelmente seduzido pela obra de Nise, o diretor faz um belo retrato emotivo cuja visão poética sobre a loucura agrada em cheio quem procura um cinema de emoção. Sem se agarrar em estereótipos (embora os tenha), Nise – O Coração da Loucura promove um debate elucidativo sobre como o contato humano pode ajudar na cura das neuroses e psicoses e consegue compartilhar com o espectador a crença da doutora, que através do uso da arte em geral, transformava verdadeiros farrapos em seres humanos dignos.

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Apesar do pequeno ranço didático em algumas sequências (necessário para esclarecer o trabalho da doutora) e de algumas licenças poéticas, Berliner elabora interessantes imagens criativas como a catarse da médica após uma matança canina. Além do mais o diretor cercou-se de um elenco competente, esforçado e visivelmente entregue aos seus papéis, com destaque para Glória Pires que nos permite uma compreensão mais profunda do universo da Dra. Nise. As imagens finais foram retiradas do documentário de Leon Hirszman, Imagens do Inconsciente, onde a própria médica, já idosa, dialoga com o público de uma maneira carinhosa e afetuosa.

Sem nenhuma prepotência, Nise – O Coração da Loucura transmite seu recado e demonstra que o cinema nacional não precisa viver apenas de comédias.

 

Festival do Rio – Premiere Brasil – Competição longa ficção

 

Nise – O Coração da Loucura

Brasil, 2015. 108 min

Direção: Roberto Berliner

Com: Glória Pires, Fabrício Boliveira, Felipe Rocha, Simone Mazzer

 


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