No Portal da Eternidade

para além da biografia de Van Gogh, longa é um profundo e poético estudo de personagem

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09 de fevereiro de 2019

Um dos pintores mais conhecidos e influentes da história da arte moderna, Vincent Van Gogh já teve sua vida e obra retratadas em diversos longas-metragens, como “Sede de Viver” (1956), de Vincente Minnelli, “Vincent & Theo” (1990), de Robert Altman, “Van Gogh” (1991), de Maurice Pialat, “Van Gogh: Pintando Com Palavras” (2010), de Andrew Hutton, e a mais recente animação “Com Amor, Van Gogh” (2017), de Dorota Kobiela, além do curta-metragem de Alain Resnais, “Van Gogh” (1948). Com exceção da animação, que misturou uma trama secundária à história do artista, as outras obras são puramente biográficas e, neste ponto, “No Portal da Eternidade” se destaca das demais ao fazer um poético estudo de personagem em vez de simplesmente contar mais uma vez a sua história.

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Dirigido por Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”), que também assina o roteiro com Jean-Claude Carrière (“O Discreto Charme da Burguesia” e “A Pedra de Paciência”) e Louise Kugelberg, o longa se passa em 1888, quando Vincent Van Gogh (Willem Dafoe) se muda para Arles, no sul da França, vivendo recluso em sua fase mais produtiva e criativa na pintura, porém também a mais conturbada mentalmente e na vida pessoal. Sofrendo por não conseguir vender nem expôr suas pinturas em galerias de arte, Van Gogh ouve o conselho de seu amigo e mentor, o também pintor Paul Gauguin (Oscar Isaac) de ir para o sul, onde há sol, calor e paisagens deslumbrantes esperando para serem eternizadas em pinturas. Retratadas em planos abertos com uma fotografia belíssima que prioriza a cor favorita do pintor holandês, o amarelo, que contrasta com o azul de sua depressão, solidão e melancolia, as paisagens são apresentadas em “At Eternity’s Gate” (no original) de maneira contemplativa, como se o espectador as estivesse observando pelos olhos de Van Gogh, com os mesmos sentimentos e sensações, os quais Dafoe transmite apenas com o olhar, sem precisar dizer uma palavra, em uma interpretação favorecida pelos ótimos enquadramentos fechados e que mereceu a sua indicação ao Oscar de Melhor Ator. Enquanto aprecia as belas paisagens, o pintor reflete sobre a vida, a sua relação com Deus e a natureza, o mundo, os sentimentos, chamando o espectador para compartilhar das mesmas reflexões. “Talvez Deus me fez pintor para pessoas que ainda não nasceram”, diz Van Gogh, sem saber naquele momento o quanto estava certo.

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Como em “O Escafandro e a Borboleta”, Schnabel conduz uma narrativa lenta repleta de pensamentos profundos que vão de encontro à poesia. O problema aqui é que o excesso de longas cenas contemplativas acaba tornando o filme muito arrastado e cansativo, levando a um tédio irreversível. Há quem goste desse tipo de filme e discorde, mas com certeza não é uma obra feita para o grande público. A escolha de um elenco coadjuvante formado por fortes nomes do cinema – Oscar Isaac, Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric, Mads Mikkelsen e Rupert Friend – foi bastante acertada, pois, embora todos seus papéis sejam pequenos, foram pessoas que tiveram muita importância na vida do protagonista, e ajudam Willem Dafoe a brilhar ainda mais em meio à toda a depressão e loucura de Van Gogh. “No Portal da Eternidade” é um retrato da genialidade incompreendida de um pintor, que foi se misturando com angústia, frustração, isolamento e se transformou em depressão e loucura até chegar ao fim terreno para ser eternizada em seus quadros, que começaram a ser valorizados após a sua morte. Não saia da sala assim que o longa acabar, pois há uma surpresa amarela no início dos créditos.

 

No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate)

EUA / França / Reino Unido – 2018. 110 minutos.

Direção: Julian Schnabel

Com: Willem Dafoe, Oscar Isaac, Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric, Mads Mikkelsen e Rupert Friend.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3