Nomadland

Confira o franco favorito ao Oscar 2021

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13 de janeiro de 2021

Cinema ainda é o maior marcador de uma democracia. Sempre que o conservadorismo e perseguições intolerantes começam a acontecer, uma das primeiras representações sociais a refletir o mundo e a ser mal compreendida injustificadamente sempre foi o cinema. É bastante curioso (e sintomático) que as pessoas tenham tanto medo do poder do audiovisual. Porém, ao mesmo tempo, demonstra muito do potencial emancipatório de direitos que o outro lado da via de mão dupla pode proporcionar — quando não deixamos com que seja silenciado.

Pois a mais recente demonstração desta imanência, e que pode se fazer sentir com ecos no mundo inteiro, é o franco favorito ao Oscar 2021, “Nomadland”, produção norte-americana de Chloé Zhao, diretora natural da China, e estrelada por Frances McDormand. Um longa-metragem já ganhador de alguns recordes no circuito, como melhor filme nos Festivais de Veneza e de Toronto ano passado e grande destaque no Gotham Awards desta última segunda (11).

Seu diferencial já começa pelos vários sentidos do título, pois “Nomadland” poderia ser traduzido como ‘Território Nômade’, ‘Território dos Nômades’ ou mesmo como ‘Território sem loucura’ (se lido “No Mad Land”) – demonstrando de plano o quanto o cinema reflete a vida, num híbrido entre a ficção e o documentário.

A trama versa sobre a protagonista Fern (McDdormand) que perambula com sua van pela cidade-fantasma de Empire (Império, traduzido do inglês), onde a economia decaiu desde que a última grande fábrica fechou suas portas, seu marido faleceu e sua casa foi desapropriada. Há cidades nos EUA que só subsistem a partir de alguma grande marca, num modelo ainda de capitalismo Fordista, onde o coração de um lugar seria medido pelo quanto o seu potencial lucrativo podia gerar empregos. Fern irá cruzar com vários tipos esdrúxulos pelas estradas que espelham o seu anseio por liberdade e, igualmente, sua bagagem de traumas e lutas.

Mas isso está longe de ser uma exclusividade norte-americana. Esta semana mesmo, não por coincidência, foi anunciado que a empresa Ford está encerrando sua produção de carros no Brasil após quase um século, e afetando 12 mil empregos diretos e indiretos, sem falar no mercado em geral – numa analogia direta com “Nomadland”, demonstrando que uma obra de arte também pode conter um coração revolucionário perante o caos.

E os paralelos de linguagem com o Brasil continuam, pois nossa sétima arte também não é estranha à estética de ativismo social, num cinema engajado com o proletariado, greve e protestos, na frente e atrás das câmeras. Podemos citar o clímax do Cinema Novo, com filmes de Leon Hirszman (“Cantos de Trabalho – Mutirão” de 1975, “Eles Não Usam Black-Tie” de 1981, “ABC da Greve” de 1990) e Geraldo Sarno (“Mutirão em Novo Sol” de 1963, “Viramundo” de 1965 e “Sertânia” de 2020). Bem como há de se olhar para o presente, avançando igualmente com tais narrativas que assumem sua responsabilidade perante o coletivo. Há de exemplo os filmes do expoente mineiro, da Cidade industrial de Contagem, como dos cineastas Affonso Uchoa e João Dumans, dos quais podemos citar o paradigmático épico “Arábia” de 2017, uma espécie de antecessor de “Nomadland”.

É devido ressaltar aqui que a comparação não está sendo feita de forma alguma para relativizar qualquer um dos filmes emparelhados. Muito pelo contrário. Estamos colocando em diálogo duas abordagens de estilos bem diferentes, como o dispositivo da carta póstuma narrada em “Arábia” e a estrela despida de sofisticação Frances McDormand nua e crua em “Nomadland”, a enganar o tom documental, o que apenas têm a crescer reciprocamente quando face a face. Há muito a traçar sobre as ausências em ambos, os dispositivos substitutivos destas ausências, e o peso do capital industrial em vida humana. O interessante disso é que, inversamente proporcional, se o novíssimo “Nomadland” pode ser o grande vencedor do Oscar 2021, há de se realçar o reconhecimento internacional de desbravamentos do nosso próprio cinema brasileiro. Afinal, mesmo sem lobby pra chegar até a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, nosso trabalho não deve em nada ao das estrelas da ‘terra dos sonhos’.

A essa altura, vocês poderiam até perguntar: Por que é tão inovador ver algo assim no cinema norte-americano? Não deixa de haver filmes influenciados pelo cinema brasileiro, alguns até de forma confessa. Então, o que seria? A questão está menos no fato de eles conseguirem produzir tais narrativas, e muito mais em elas chegarem de fato no lugar de visibilidade que esta obra está chegando.
Em primeiro lugar, pode-se ressaltar que Chloé Zhao é natural da China e, ainda que trabalhando há vários anos nos EUA com obras-primas, como o premiadíssimo filme ultra independente “The Rider – Domando o Destino” de 2017, há de se aferir a diferença que faz um olhar plural e crítico de alguém de fora pra dentro (um movimento que fez 3 mexicanos e 1 coreano ganharem os últimos Oscar de melhor direção, por exemplo). E nem há comparação entre os filmes dela, porque podemos considerar o anterior como hors-concurs. E não é pouca coisa inserir no novo exemplar uma das maiores atrizes (McDormand) em atividade no mundo no meio da linguagem de docuficção. Existe uma potência desse intercâmbio que não seria facilmente alcançada de qualquer outra forma ou com qualquer outra pessoa. E ela faz florescer relações únicas com o espectro fantasmático criado pelo que está ausente no plano. Esse novo filme uma sutileza só de ausências, em oposição à presença bastante materializada de “The Rider”. E por isso se vê uma poética mais intencionalmente avançada aqui. Sem comparação, mas abordagens diferentes mesmo.

Devemos lembrar que se ela ganhar a estatueta dourada de melhor diretora e/ou de melhor filme será apenas a segunda mulher a obter esta façanha, pois a única detentora deste prestígio até hoje ainda é Kathryn Bigelow por “Guerra ao Terror” em 2010.
“Nomadland” decerto soará familiar aos cinéfilos brasileiros, com uma estética que dá tempo aos atos do dia a dia, que não costumamos ver na correria do cinema norte-americano. Uma correria que normalmente tem pressa a enunciar sua trama, a verbalizar seus diálogos sem pensar muito ou sequer respirar o silêncio que precede o esporro. Mas não aqui.

E como Zhao fez isso? Desde que o cartaz do longa havia sido liberado, pudemos ver a protagonista interpretada por McDormand sentada numa cadeira tipo de praia no meio do deserto, trajando uma camisola surrada, com suas roupas íntimas penduradas no varal pra fora de sua van, a secar sob o sol nascente do horizonte. Um pôster bastante aclamado internacionalmente, contudo presente há bem mais tempo no imaginário brasileiro (este que vos escreve pensou em vários de nossos exemplares de imediato, como “Quintal” de André Novais da Filmes de Plástico, indicado no Festival de Cannes 2015).

Estes momentos íntimos como do pôster não parecem levar a uma ação propriamente dita… Servem muito mais, na verdade, para contextualizar a imersão de personagem – como nos ensinamentos clássicos de mestres do minimalismo, do naipe do saudoso japonês Yasujiro Ozu. Aqui, as cenas de trabalho limpando privada, fazendo a curadoria de pedras, fritando batatas fritas na lanchonete de estrada ou mesmo cuidando de um estacionamento de trailers de viagem estão presentes de fato para se encerrar em si mesmas. Não pretendem levar à outra seqüência. Não estão ali pra humilhar a personagem.

São tarefas como quaisquer outras… O labor é estético, não é montagem de transição para servir como percurso de outra coisa. Especialmente pelo tom decolonialista que tenta desterritorializar justamente estas facetas do capital de identidades corriqueiras do cotidiano. Vide a crítica contida na cena em que uma personagem tenta comparar, maliciosamente, os nômades aos ‘pioneiros’ da época das diligências… Comparação muito equivocada, pois os primeiros não são guiados pelo capital, e os segundos se apropriaram das riquezas indígenas pra forjar uma nação sobre uma falácia hipócrita. A simplicidade dos nômades é comum, no sentido de comum a todos, partilhada, comungada.

A atriz Frances McDormand pôde acompanhar esta vida de modo direto, com várias pessoas que vivem assim, e que agregaram um mundo ao roteiro, tenham residência fixa ou não… Pois uma casa não é sinônimo de lar necessariamente, como nos versos da música de Luther Vandross (“A House is Not a Home”). Ainda mais para os norte-americanos que possuem uma forte cultura de afeto com seus carros, e muita gente mora dentro de um – tenham outra opção ou não. Essas vidas itinerantes acabam desembocando onde podem, trabalhando de forma intermitente onde surgem oportunidades temporárias, numa precarização ou uberização exploratória do contingente humano… como demonstra a fábrica comedora de gente da poderosa Amazon, empresa de uma das pessoas mais ricas da Terra: Jeff Bezos.

E a forma como este monopólio de poder pode construir ou quebrar cidades inteiras da noite pro dia, como demonstrado no poder das imagens dos vinte primeiros minutos de “Nomadland”, sob um frio excruciante passível de lhe matar dormindo (pra quem mora em seu carro no estacionamento do trabalho), já supera a inteira duração de “American Factory” de Julia Reichert e Steven Bognar – produzidos pelo casal Obama e ganhadores do Oscar 2020 de melhor documentário. Um filme que falava sobre fábrica chinesa no território norte-americano, com empregos humanos sendo substituídos por máquinas, e cuja relevância estava em falar de espionagem sindical e não em desmantelamento de um sistema opressor (confira mais aqui). Que ironia, pois foram superados por um filme de uma chinesa radicada nos EUA, retratando personagens que estão se emancipando desta mesma opressão como um meio, e não como um fim.

Eis um ponto nevrálgico de “Nomadland”, que o diferencia de outras obras do tipo, como, por exemplo, “Na Natureza Selvagem” de Sean Penn, o qual deve passar na cabeça de muitos cinéfilos que podem associar os dois. Sim, ambos trabalham a princípio com uma pessoa que parece sair pela tangente do regramento social urbano, a seguir para a imensidão da natureza… Todavia, isso só até a página dois, pois o protagonista do filme de Penn é um niilista que rejeita as convenções do sistema. Já com Frances não há isso. O sistema faz parte. Não é o alicerce, mas faz parte. Ela precisa trabalhar para comer e pagar gasolina para sua casa sobre quatro rodas. Aqui, ninguém pretende sobreviver apenas do que a natureza dá, plantando ou caçando… O labor faz parte da relação com o mundo. Do ter e não ter. É ter muito no que não se tem. E não ter nada quando se pensa que só ter muito é o que importa.

Existe uma diferença entre tentar criar uma cena poética e ser poética. A trilha de Ludovico Einaudi investe acertadamente no lirismo clássico pra pintar de emoções momentos interiorizados: como quando Frances grita seu próprio nome pro eco de um penhasco, ou quando corta o cabelo grisalho de sua amiga sobre as rochas, ou mesmo quando nada pelada no riacho e encara um bisão pastar a ermo… O piano torna tudo tão humano quanto um facho de sol trespassando a folhagem das árvores, como se a obra de Deus pudesse ser compreendida se olhada de perto o suficiente. Como se à noite conseguíssemos enxergar a poeira cósmica da qual somos feitos.

Tudo capturado na fotografia em tempo real, que acompanha as coisas de modo fluido, com câmera na mão, do parceiro habitual de Zhao, Joshua James Richards (também do Cult LGBTQ “God’s Own Country” de 2017). Vide, em especial, um majestoso plano-sequência de travelling, conseguindo numa só tomada pegar o pôr do sol, a fogueira pra comida, as atividades de vários grupos no acampamento e até as manobras de carros e motos, tudo ancorado em Frances a caminhar… Evitando, assim, os maneirismos característicos da sua provável maior referência, Emmanuel Lubezki, por si, fotógrafo parceiro de Terrence Malick, como em “A Árvore da Vida” de 2011, e de Iñarritu em “O Regresso” de 2015. Sempre que há um efeito ‘push in’ do tipo Lubezki, nenhum movimento de Joshua vira abstração total, porque tem sempre Frances pra firmar os pés no chão da metáfora e torná-la em vivência.

Frances reina no quadro. Seja sozinha ou com as personagens inspiradas em fatos reais, híbridas, como as maravilhosas Linda May e Swankie (ambas fazendo o público ir às lágrimas facilmente a cada frase de efeito natural com suas experiências maturadas de vida) – ambas extremamente superiores ao personagem de David Strathairn, único ponto dissonante do filme, principalmente na cena de sua família, fake demais ante a naturalidade obtida em todo o resto. Uum ponto menor que não afeta o resto, e que também passa… Tudo passa aqui por Frances, sempre incólume a tudo.

Ela atravessa cada uma dessas vidas da mesma forma que prossegue. Sabendo que irá cruzar com elas de novo algum dia… aqui ou além. No entanto, ainda assim não é um filme sobre luto. Luto seria a superação da dor de uma perda. Este é, na verdade, um filme de percursos ininterruptos, de jornadas, pois caminhar é viver, é lembrar, e lembrar é manter vivo. É um filme de reencontro. Reencontros com o intangível que não se foi. Que permanece. Que honramos ao manter verdadeiro aquilo que nos é legado. Será que passamos tanto tempo trancados nesta quarentena que não somos mais capazes de ver a poesia no vazio?

Você não está cansado? Cansado de tanto caminhar? De um lado a neve intensa, do outro o sol escaldante, ambos queimando a pele até o osso. Você procura por algo… mas não encontra. O que pode haver lá… além do vazio? Quando nada se levanta além do horizonte, a linha referencial se torna o nada. E você continua a caminhar… Será que não se cansa? Sem fôlego. Sem pé. Sem pernas. Sem braços. Sem mãos. E continua a caminhar… Como pode? O vácuo é infinito, e a infinitude lhe desafia. Se fosse finito, já saberia o final. Talvez por isso ame tanto caminhar? Não saberás a não ser que consiga chegar lá um dia… Talvez nunca chegue. Chegar onde? A vastidão é intensa. O suor escorre por cima da dúvida. Sem hesitação. Como consegue continuar a caminhar? Tem gente que só faz isso. Só sabe isso. Mas tem gente que simplesmente ama é a caminhada.

PS: Vale mencionar que pela primeira vez na história todos os indicados na categoria de melhor filme no Gotham Awards foram dirigidos por mulheres. Além do vencedor “Nomadland”, também concorreram os igualmente brilhantes “First Cow” de Kelly Reichardt (leia aqui), “Never Rarely, Sometimes Always” de Eliza Hittman (leia aqui), “Relic” de Natalie Erica James (leia aqui e aqui) e “A Assistente” de Kitty Green (confira a lista completa de premiados aqui). Sem falar no ganhador de melhor ator-revelação, Kingsley Ben-Adir, de “Uma Noite em Miami”, também dirigido por uma cineasta, no caso, a também atriz Regina King.

Além de ser relevante mencionar que nosso representante brasileiro pro Oscar de filme internacional e também pra categoria de documentário é o longa-metragem “Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou” de Bárbara Paz, além de termos inúmeros curtas-metragens qualificados e inscritos na possibilidade de concorrer na categoria correspondente, igualmente dirigidos por mulheres, como “Baile” de Cíntia Domit Bittar, “Carne” de Camila Kater, “Umbrella” de Helena Hilario e Mario Pece etc….

O anúncio dos indicados ao Oscar 2021 acontecerá no dia 15 de março e a cerimônia de entrega dos prêmios será dia 25 de abril.

* o filme foi assistido no Festival de Stockholm do qual fiz parte como Júri Fipresci.

* originalmente publicado na Revista Fórum e ora revisado e ampliado no Almanaque Virtual: https://revistaforum.com.br/rede/oscar-2021-os-melhores-filmes-do-ano-foram-dirigidos-por-mulheres-por-filippo-pitanga/

*o filme foi visto no Festival de Estocolmo do qual este que vos escreve fez parte do Júri FIPRESCI