Nós, Eles e Eu

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11 de maio de 2016

Informações a respeito dos incessantes conflitos entre israelenses e palestinos circulam pelo mundo. Como a grande maioria das revoltas sangrentas entre povos, mesmo que a motivação esteja claramente definida, o que sobressai aos olhos do observador em cada um desses atos bestiais é a incompreensão. Não seria diferente com “Nós, Eles e Eu”. O argentino Nicolás Avruj, de origem judaica, era apenas um jovem mochileiro quando comprou uma passagem aérea para Tel Aviv, em Israel. Movido por uma natural curiosidade em escavar as próprias raízes, ele ligou a câmera de mão e armazenou registros, mais tarde organizados no filme, das dissensões entre Palestina, região também visitada, e Israel. Alguns desses registros são mais marcantes, mostrando a periculosidade da situação, e outros mais amenos, como aqueles provenientes de amizades feitas na viagem.

Uma grande curiosidade sobre a confecção de “Nós, Eles e Eu” é o tempo em que as gravações ficaram no limbo, longos quinze anos, até enfim revelarem-se na forma de documentário. O longa, em sua essência histórica, é ainda hoje (in)felizmente válido devido ao aspecto intricado de uma desavença que não encontra fim. O tempo decorrido entre filmagem e montagem, nesse caso, é apenas um detalhe. É certo que Nicolás Avruj, em sua ousada aventura de diretor de cinema, não tinha intenções jornalísticas, no sentido de situar e esclarecer, quando apontou a câmera para os fatos. Não seria exagero dizer que ele mesmo não entende as hostilidades presenciadas, o que impregna ainda mais de sentido a introdução desse texto, que fala de incompreensão. Com o combustível da emoção de quem tem sangue judeu no organismo, o argentino peca ao não repercutir com mais veemência a importância de suas filmagens, dotadas de diferentes facetas ― religiosa, política e social. Como resultado, no prazer de filmar em tom amador, as imagens até conseguem estabelecer uma conexão, mas param por aí, esgotando-se nelas mesmas. A narração em off, ostensiva em um filme perfeitamente apto a falar por si, apenas confirma a fragilidade do documentário. Se existem fatores inegáveis, são a obstinação e a boa vontade de Nicolás Avruj, de mochileiro corajoso a cineasta disposto a lançar luz sobre a brutal inimizade entre israelenses e palestinos.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3