Nós ou Nada em Paris

A estreia de Kheiron no cinema para contar a história de seus pais

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29 de junho de 2016

A imigração ilegal é um assunto que tem sido bastante discutido por conta da nova onda de imigrantes em todo o mundo, que fogem de seus países de origem em razão, principalmente, de guerras e pobreza extrema. Diversos filmes já abordaram o tema sob olhares distintos, quase sempre de forma exclusivamente dramática ao mostrar situações que envolvem muito sofrimento. “Nós ou Nada em Paris” também trata da questão da imigração, mas por motivos políticos, na época da transição do governo repressor do shah ao tirânico ayatollah. Kheiron escreve, dirige e atua em seu primeiro longa-metragem, em que narra a história de seus pais Hibat (interpretado pelo filho) e Fereshteh (Leïla Bekhti), que se viram obrigados a fugir do Irã para Paris para sobreviver, já que estavam envolvidos com a política de oposição.

Conduzido de forma leve, o filme oscila entre o drama e a comédia, e expõe a realidade das violentas prisões iranianas e da difícil jornada pela qual os imigrantes precisam passar para se estabelecer em um novo país com idioma e cultura diferentes. Ainda que “Nous trois ou rien” (no original) mostre Kheiron na pele de seu pai Hibat quando na prisão sendo torturado e ajude o espectador a entender melhor como o Irã se tornou politicamente o que é hoje, a política não é o foco do diretor-roteirista: para ele, trata-se da biografia de seus pais e de sua própria, já que deixou o país com os mesmos quando ainda era um bebê de colo e cresceu na França em meio a dificuldades.

O resultado da experiência pessoal de Kheiron é uma história universal, com a qual qualquer pessoa, de qualquer parte do globo, pode se identificar e se emocionar. A família é o cerne da vida de Hibat e Fereshteh e, consequentemente, de “Nós ou Nada em Paris”. Como bem exprime a expressão Ohana da animação “Lilo & Stitch”, um membro da família nunca deve ser deixado para trás, e é com este princípio que a película é encerrada. Uma trama com início triste, desenrolar com percalços e final feliz, que consegue envolver o espectador e promove a união, a solidariedade e a empatia num momento em que a humanidade carece tanto de tais valores. A estreia de Kheiron no cinema começou com o pé direito.

 

Nós ou Nada em Paris (Nous trois ou rien)

França – 2016. 107 minutos.

Direção: Kheiron

Com: Kheiron, Leïla Bekhti, Gérard Darmon e Zabou Breitmana.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4