Nós

Nova obra autoral de terror e suspense de Jordan Peele não supera “Corra!”, mas precisa muito ser assistida

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23 de março de 2019

Jordan Peele chamou atenção mundialmente com seu longa-metragem de estreia “Corra!”, um thriller inovador repleto de críticas sociais. A expectativa para seu próximo projeto era imensa, e “Nós” não decepciona, embora não consiga superar a genialidade do primeiro. Em mais um filme autoral, Peele mostra novamente que o verdadeiro horror não vem do sobrenatural, e sim dos próprios homens, que insistem em tentar controlar o que não deveriam.

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Na trama, Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o) vai passar férias na casa de verão de sua infância com seu marido Gabe (Winston Duke) e seus dois filhos. Logo que chegam, uma série de coincidências estranhas acontece e ela começa a ter maus pressentimentos e sensações ruins sobre o lugar, onde sofreu um trauma quando criança, que se concretizam à noite com a chegada de uma família com quatro figuras misteriosas muito parecidas com eles. A partir daí, uma atmosfera tensa e desconfortante toma conta do filme, lembrando “Violência Gratuita” (1997 e remake americano de 2007), de Michael Haneke, com um plot twist atrás do outro, sem precisar apelar para jump scares para assustar o espectador, que não conseguirá desgrudar os olhos da telona com tantas cenas instigantes e perturbadoras. Assim como em “Corra!”, Peele utiliza alívios cômicos muito bem empregados durante todo o longa, sem parecer forçado ou transformar o enredo em terrir.

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Ao contrário de seu antecessor, “Us” (no original) não faz críticas políticas e sociais tão explícitas, e sim por meio de metáforas empregadas com perfeição, como no momento em que a “cópia” vermelha conta uma história para Adelaide e quando a personagem Kitty Tyler (Elisabeth Moss) tenta chamar a polícia e começa a tocar a música “Fuck the Police”, do grupo de rap N.W.A.. Esta é uma obra em que é preciso prestar muita atenção em todos os mínimos detalhes fornecidos pelo diretor desde o início. Nada está lá de maneira gratuita, todo símbolo tem um significado que se encaixa no quebra-cabeça criado por Peele, em especial os coelhos. Já que o foco aqui é o conflito da família Wilson com seus doppelgängers do mal – o que lembra os longas “O Duplo” (2013), de Richard Ayoade, e “O Homem Duplicado” (2013), de Denis Villeneuve –, diversos elementos relacionados à simetria surgem na trama, como as tesouras, as gêmeas do casal de amigos e a repetição do número 11, presente no versículo Jeremias 11:11, que sempre aparece como um sinal para Adelaide: “Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”.

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Peele é preciso também nos enquadramentos e na montagem, que, combinados com a trilha sonora incrível composta por Michael Abels, fazem de “Nós” uma experiência ainda mais intensa. Na atuação mais memorável de sua carreira até agora, Lupita Nyong’o é o pilar que sustenta o filme, a família Wilson e o misterioso grupo de duplos renegados assassinos vestidos de vermelho – ela é o centro de tudo, a causa e a solução. Não é fácil interpretar duas personagens de naturezas opostas e Lupita surpreende demais com uma atuação assustadoramente impecável, bem como Elisabeth Moss, que entra como uma baita figurante de luxo e não fica longe de sua colega de elenco, mesmo que em poucas cenas. Além de excelente roteirista, diretor e produtor, Jordan Peele tem se mostrado cada vez mais um excepcional diretor de elenco, um pacote cinematográfico completo. Devido a sua complexidade, “Nós” é um filme para ser assistido mais de uma vez para ser entendido por completo, apesar de não haver explicações para algumas questões, como acontece também com as obras de M. Night Shyamalan, que sempre tem diversas teorias levantadas pelo público. O que é certo é que o filme não vai sair tão cedo da sua cabeça.

 

Nós (Us)

EUA – 2019. 120 minutos.

Direção: Jordan Peele

Com: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Evan Alex, Shahadi Wright Joseph, Madison Curry, Cali Sheldon e Noelle Sheldon.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5