Nossa Irmã Mais Nova

Idílica sororidade sob o mesmo teto, por um cineasta mestre em filmar elencos infanto-juvenis

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02 de abril de 2016

O cineasta japonês Hirokazu Koreeda é renomado por trabalhar com maestria elencos infantis em densos dramas familiares. Em geral sabe dosar muito bem o tom agridoce com autodescobertas de personagens ricos em proposituras dramáticas e perda da inocência, como nos cults imbatíveis “Ninguém Pode Saber” e “Pais e Filhos”. Noutras vezes pende para um olhar fabular, capturando o espectador mais pelo encanto do que pela identificação com a perda, como em “O Que Eu Mais Desejo” e agora no novo “Nossa Irmã Mais Nova”. Contando com elenco feminino muito bem integrado de atrizes um pouco mais adulto-juvenis do que a predileção por retratar a infância, a trama fala sobre um pai omisso que constituiu nova família com outra mulher, até que sua morte faz as quatro filhas de diferentes casamentos se unirem sob o mesmo teto.

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O argumento original pode parecer previsível dentro do feijão com arroz do cineasta, mas sempre é pelo desenvolvimento diferenciado que ele costuma se destacar. Com ao menos duas atrizes fortes nas irmãs mais velhas, respectivamente a líder organizada (Haruka Ayase) e a rebelde (Masami Nagasawa), a narrativa se desenrola com bastante naturalismo que deve evocar muita identificação com qualquer espectador que conviva com irmãos na mesma casa. A rotina, os afazeres, pequenas trocas diárias…. Mas é aí que o encanto acaba carecendo de tensão para se elevar a outro patamar. Não há forças contraditórias ou conflitos. Apesar de prenunciar o tempo todo como se algo trágico cindiria a perfeição idílica, nada acontece. E não como uma intencional quebra de expectativa, como já explorado nos clássicos japoneses de Yasujiro Ozu, e sim apenas situações sucessivas de mais puro cotidiano, que desperdiçam o potencial das atrizes principais e da ambientação tão delicadamente construída.

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A fotografia bucólica tanto em locações externas arborizadas de cerejeiras quanto nas internas, alude a sensação acolhedora e caseira, com movimentação de câmera íntima aos laços mais pessoais do que é ser família. As cores também retratam muito bem a diferença de personalidade entre as protagonistas, às vezes bem desenvolvidas, noutras nem tanto. Poderia se contentar como reflexão do passar das estações do tempo, como o existencialismo do idílico francês Éric Rohmer, todavia mesmo levando-se em conta a economia de expressões típica da cultura asiática, personagens como a irmã mais velha e seu oposto, a mais nova do título, caem num lugar comum desnecessário, com ligeiras reviravoltas que acabam soando mal encaixadas ou resolvidas, como a interseção com a dona do restaurante onde o pai das irmãs costumava comer quando vivo. Ainda assim um filme que respeita as evoluções do feminismo em fortes personagens representativas, sem jamais precisar de um personagem masculino para resolver os conflitos do roteiro, além de ser retratado de forma visualmente poética, como nas belíssimas cenas da bicicleta entre as cerejeiras ou a das irmãs com os fogos de artifício no ano novo.

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