Nova Ordem

Alguma coisa está fora da nova ordem mundial

por

26 de outubro de 2020

Alguma coisa está fora da Nova Ordem Mundial”, como já dizia Caetano. A ficção ganhou um rival imbatível na realidade em 2020, e está difícil competir. Aquilo que considerávamos estética da distopia virou o conceito do dia a dia nos noticiários. A política, então, abraçou de tal forma o surreal que, até mesmo gêneros como a comédia e a paródia, outrora alívios na pressão da rotina, foram cooptados por uma linguagem de fake news, correntes de Whatsapp e líderes negacionistas… Líderes estes que colocam a população em risco no meio da pandemia mundial, como gado, conseguindo soar tão absurdos quanto as mais exageradas caricaturas humorísticas.

No entanto, ainda existem roteiristas acreditando na tentativa de superar essa temporalidade distópica, especialmente na ampliação da acessibilidade dos streamings em espaços de quarentena. Afinal, mesmo com a reabertura, os cinemas continuam às moscas sob o medo popular de contaminação coletiva… Portanto, vale lembrar que continuam até 04 de novembro as sessões online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (saiba mais aqui), há de exemplo filmes polêmicos consonantes a tudo isto relatado acima como o premiado “Nova Ordem” de Michel Franco (do cult “Depois de Lucia”, 2012), debatendo o crescimento do fascismo atual. Além de alguns filmes que seriam carro-chefe do circuito comercial e estão sendo escoados nas plataformas digitais, como a volta do icônico personagem “Borat: Fita de Cinema Seguinte” já disponível na Amazon Prime Vídeo, e também debatendo a curva ascendente do fascismo contemporâneo.

Numa pegada bem mais sombria e sisuda, o diretor mexicano Michel Franco, recentemente ganhador do Grande Prêmio do Júri na última edição quarentenada do Festival de Veneza, teve seu novo trabalho “Nova Ordem” como filme de abertura da 44ª Mostra de SP no último dia 22 de outubro – que, enfim, pôde ser conferido pela Fórum. Para quem não conseguiu assistir à concorrida sessão online, primeira a esgotar rapidamente na plataforma Mostra Play, não se preocupe, pois não se falará de spoilers aqui. Tão somente iremos dialogar com a estética da violência sob o manto de denúncia ao fascismo, que não sai das mídias e dos governos no mundo inteiro, potencializado pelas discrepâncias na pandemia de 2020.

Michel Franco é mais um nome que gosta muito de impactar seu espectador, só que, ao contrário de Sacha Baron Cohen, o faz com dramas viscerais e sofridos. A narrativa de seu longa-metragem perpassa uma família rica e poderosa cuja festa de casamento da filha está acontecendo no meio de uma aparente revolução social. Quando as disparidades de classe alcançam um nível insustentável, na teoria, levariam ao rompimento da bolha de modo em geral incendiário, como acontecerá também nesta trama. Porém, assim como o primeiro plano do filme, que mostra um belo quadro composto por vários fragmentos visuais multicoloridos, o roteiro também irá se desvelar aos poucos como peças de um quebra-cabeça…

O México é um país que anda gerando cineastas e filmografias bastante renomadas no mundo inteiro, como o aclamado “Roma” de Alfonso Cuarón. Porém, quase dando alguns passos para trás, “Nova Ordem” engana quando aparenta trilhar representações mais interessantes para as personagens de descendência indígena no povo mexicano, habitualmente retratadas em posições subalternizadas. Quando achamos que vamos ver uma verdadeira Queda da Bastilha da elite, o filme demonstra que as garras do fascismo operam até mesmo aí, cheio de cordas invisíveis a manipular a marionete de classes. E que uma aparente tomada de poder popular pode ocultar interesses escusos de poderosos que jamais deixaram de comandar.
É inegável que Franco seja um grande esteta quando se trata de produzir imagens marcantes, mesmo no grotesco ou no atroz, especialmente quando consegue operar com sarcasmo ou ironia. Mas, quando sua estética vira soberba, algumas sequências impactantes se convertem não apenas numa denúncia vazia, como em efeito reverso. Há de exemplo uma espécie de “campo de concentração” de pessoas ricas, mal resolvido e desproporcional ao que havia sido trabalhado até então. Isto porque ao deixar algumas personagens num plano raso demais, o que ele acaba por fazer é culpabilizar as vítimas e humanizar o opressor – o que poderia até ser parte da catarse, já que tudo no filme é invertido, seja o título e os créditos finais, apresentados com letras de trás pra frente, mas que soa apenas pretensioso e banalizado.

Para quem perdeu a chance de assistir “Nova Ordem” e tirar suas próprias conclusões, vale acrescentar aqui também outras boas dicas da 44ª Mostra de SP, para todos os gostos e gêneros. Como para quem gosta de terror, há o exemplar “Meu Coração Só Irá Bater Se Você Pedir” de Jonathan Cuartas. Ou o thriller psicológico que coloca as redes sociais em xeque-mate no tenso “Suor” de Magnus Von Horn. Para relaxar, há o fofo “Summertime” de Carlos López Estrada. E, para refletir, há os dramas familiares “Apenas Mortais” do chinês Liu Ze, e os iranianos “Sem Cabeça” de Kaveh Sajjadi Hosseini e “Pari” de Siamak Etemadi. Também, em termos de documentário, quem quiser debater a covid-19 a sério, assista ao poeticamente pungente “Coronation” do cineasta e artista plástico Ai Weiwei, que metaforiza a origem da pandemia na cidade de Wuhan na China, com uma trilha sonora arrebatadora.

Por fim, não deixem de prestigiar os exemplares brasileiros nesta edição da Mostra, como “O Livro dos Prazeres” de Marcela Lordy com Simone Spoladore, adaptando o romance de Clarice Linspector no ano de seu centenário; “Curral” de Marcelo Brennand, com um dos astros de “Bacurau”, Thomás Aquino, e participação do baluarte da dramaturgia José Dummont; “Nheengatu” de José Barahona; as estreias na direção de longas-metragens de ficção de Djin Sganzerla com “Mulher Oceano” e Dainara Toffoli com “Mar de Dentro”, protagonizado por Monica Iozzi; além de “Verlust” de Esmir Filho, com as estrelas incandescentes Andréa Beltrão e a cantora Marina Lima, além do referencial ator chileno Alfredo Castro. Esses e muitos mais exemplares serão analisados melhor na coluna da semana que vem, quando daremos as dicas finais da 44ª Mostra de SP a se encerrar no dia 04 de novembro (confira os filmes na plataforma da Mostra Play aqui).