Novo Mundo

Matéria-Prima do grito de resistência

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30 de janeiro de 2021

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Mostra Foco série 3 na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes 2021

É sempre bastante interessante acompanhar a carreira de alguém que vem de uma área específica de departamentos técnicos do cinema, como a montagem, por exemplo, e que passam a dirigir seus próprios projetos. Bastante revelador e estimulante ver os desdobramentos da experiente e multipremiada montadora Natara Ney, tendo editado alguns dos maioes cults do cinema pernambucano (vide trabalhos de Lírio Ferreira), agora na função de cineasta, como o premiado longa “Espero Que Esta te Encontre e Que Estejas Bem” (2020) e este curta “Novo Mundo”, codirigido por Gilvan Barreto, agora na competição da 24ª Mostra Tiradentes.

Às vezes as pessoas visualizam um filme através do monopólio da ânsia pela imagem em detrimento do som, especialmente na montagem de imagens em movimento. Mas as pessoas esquecem o quão complexo o cinema é, pois não é feito apenas do visível, como do invisível, porém palpável por outros sentidos. Afinal, a sétima arte é audiovisual, e o áudio é uma destas fortes camadas de triangulação de uma narrativa, de modo a contar outras texturas e sensações por sob a trama. Se a própria edição do filme seria por si própria uma segunda forma de escrever o roteiro, pois a montagem possui liberdade de mudar cenas de ordem, estendê-las ou comprimi-las… é o som quem atravessa o extracampo, a tessitura pra além do que é visto. O som pode concordar com a imagem, discordar, criando tensões, ou mesmo se libertar paralelamente, contando outras histórias bem diversas.

A começar pela força da narração em off, realizada por Zezé Mota na forma e por textos inspirados em depoimentos reais como da recém empossada como uma das vereadoras mais votadas nas últimas eleições, a arquiteta ativista e urbanista Tainá de Paula, bem como outra candidata em 2020, Sol Miranda, que também exerce a função de preparadora de elenco aqui. Esse texto extremamente rico de fontes e referências, culturais e religiosas, materiais e espirituais, históricas e antropológicas, passeia entre as memórias de opressão dos registros históricos e recria as imagens conectadas a elas, de modo a resistir através de uma protagonista criada especialmente para o filme, na pele de Mohana Uchoa. E esta quem vai performar o contra-ataque espiritual diante das injustiças, que precisam ser ocupadas e ressignificadas.  E não apenas através do corpo, das imagens, dos símbolos (como barcos, frutos, rochas e metais), mas pelos seus sons e ruídos que irrompem afora do dizível.

Com isso, é válido dizer que Natara está se demonstrando uma exímia detalhista atenta a nuances sobrepostas, como se percebe na montagem assinada pela própria que realça o som direto (este gravado por  Evelyn Santos, de filmes como “Perifericú”, 2020, leia mais aqui). O som aqui serve como personagem totalmente à parte, como realçando a imersão da ancestralidade do que é trazido em cena. Seja o vento soprando através da máscara de folhas, ou o corte do ar feito pela espada que remete aos orixás. Temos algo de imaterial e indescritível que nunca poderia estar enunciado nos diálogos ou narração em off, mas que costura as imagens de modo bastante criativo. Seja o som de ferro contra a rocha, seja as ondas do mar, seja o assobio do vento nos gestos em ritmo da personagem de Mohana.

No entanto, falar apenas da interpretação vigorosa da protagonista seria injustiça com o trabalho de câmera na fotografia da premiada Lilis Soares (de filmes como “Ilhas de Calor” de Ulisses Arthur e “Um Dia com Jerusa” de Viviane Ferreira, ambos em 2019). Com sua experiência de transpor para a máquina as vivências pessoais, de modo a empregar movimento fluido, ritmo orgânico e perspectiva humana para os enquadramentos, temos desde a junção da forma da natureza ao redor com a presença do corpo, bem como, em closes e headshots, o intimismo da força na expressão facial de Mohana. E também é um orgulho ver um de nossos notáveis ex-alunos de cinema fazendo a assistência de câmera, no caso, Hugo Lima (também de “Um Dia com Jerusa”).

A combinação da ilha do filme com praticamente a única personagem humana em cena, para além da narração em off, faz com que a própria ilha se torne personagem dupla, em seu duplo sentido inerente: o de terra e de água que a cerca. Assim como a história do mundo, cercada de noções pré-concebidas enraizadas que são banhadas e transbordadas por outras histórias, contadas pela voz da ancestralidade que jamais poderão silenciar… – Ainda que quase ao final chegue até a aparecer figurante nesta ilha, de modo a sobrar um pouco, mesmo que o tom de suspense prescindisse de quaisquer materialização da ameaça, pois o desenho de som e trilha sonora já haviam exprimido esta sensação de tensão com perfeição.

Mesmo apostando muitas fichas de engajamento do espectador através da chave intimista da performance, o que poderia confinar as possibilidades numa janela de videoarte ou de ensaio personalíssimo, ainda assim a direção segura retoma a urgência do conteúdo e aplica em algo maior. É com este imaginário que evocar questões de gênero, raça, territorialidade e fé convergem numa declaração cinematográfica de reconstrução histórica, para curar e semear narrativas mais representativas. Ponto para este acerto estético-narrativo da dupla Natara Ney e Gilvan Barreto.