O Amante Duplo

Um dos principais filmes do Festival Varilux de Cinema Francês 2018 que brinca com a mente do espectador e surpreende

por

22 de junho de 2018

François Ozon é um cineasta que adora brincar com a dualidade e o limite entre fantasia e realidade, o sonho e a loucura, como já vimos, por exemplo, em “Dentro da Casa”, “Jovem e Bela” e “Uma Nova Amiga”. Baseado no romance “Lives of the Twins”, de Joyce Carol Oates, Ozon retorna ao roteiro e direção com o longa-metragem “O Amante Duplo”, que trabalha ao mesmo tempo tudo o que ele mais gosta de forma elegante com bons toques de erotismo. Marina Vacht, atriz-fetiche do cineasta desde “Jovem e Bela”, é Chloé, uma mulher sexualmente reprimida que sente uma dor constante na região do ventre e decide procurar ajuda psicológica, encontrando a paixão em seu psicanalista Paul (Jérémie Renier). Depois de alguns meses, os dois vão morar juntos e ela descobre que Paul tem um irmão gêmeo do qual ela não tinha ouvido falar até então. A partir daí, começa a se erguer um castelo de cartas de segredos na vida do casal.

Ozon joga a todo o momento com o espectador, filmando os personagens de diversos ângulos e distâncias, espelhos, distorções e simetrias. Afinal, quem está mentindo e manipulando: Chloé ou Paul? Ou será que é tudo alucinação da cabeça de Chloé? O que é real e o que é imaginação? A primeira cena com enquadramento vaginal já indica ao público que é preciso expandir a visão para entender o contexto, e não manter o foco num único ponto. Parece confuso, e é, até que acontece um plot twist que muda tudo – as pistas dadas por Ozon ao longo do filme, inclusive as que passam despercebidas, passam a fazer total sentido no final.

Segunda parceria de Ozon com Jérémie Renier, com quem já trabalhou em “Potiche – Esposa Troféu”, “L’Amant Double” (no original) participou do Festival de Cannes 2017 e faz parte da seleção oficial do Festival Varilux de Cinema Francês 2018. Renier encara o desafio de interpretar dois personagens opostos com bastante êxito: ora é doce e misterioso, passivo, ora é agressivo e franco, bem mais ativo. Marine Vacht entrega uma excelente Chloé, de menina a mulher, de passiva a ativa – um olhar diz mais que mil palavras, e um belo trabalho corporal também. Chloé é a própria duplicidade e vai percebendo ao longo de sua jornada de autodescoberta que gostaria que seu parceiro também o fosse. “O Amante Duplo” não é um filme fácil, muito menos autoexplicativo, mas repleto de teias psicológicas e algumas cenas incômodas. A intenção de Ozon é desafiar o espectador e seu olhar em seu thriller erótico. Quem não estiver preparado para o desafio, provavelmente não vai gostar do resultado.

Festival Varilux de Cinema Francês 2018 – O Amante Duplo (L’Amant Double)

Alemanha / Bélgica / França – 2017. 119 minutos.

Direção: François Ozon

Com: Marine Vacht, Jérémie Renier e Jacqueline Bisset.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4