O Animal Cordial

Vários tipos de carne brasileira, à disposição no açougue político atual

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21 de outubro de 2017

Sabe aquelas vezes em que saímos de casa nos sentindo uma picanha Angus e voltamos parecendo carne moída de segunda, como se tivéssemos sido macerados ao longo do dia? E se esta sensação trancasse várias pessoas em um lugar claustrofóbico com seus conflitos internos e externos até que se arranjassem no confinamento enlouquecedor?? Parece até mote do cult instantâneo argentino “Relatos Selvagens” que, para além de estabelecer uma linguagem visual ímpar e paradigmática para tudo o que se sucedesse no cinema dos Hermanos, ainda traçava uma crônica profunda das idiossincrasias dos usos e costumes de toda uma cultura popular ao estudar o que faria seus cidadãos chegarem ao limite em diferentes situações do cotidiano.

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Pois em “O Animal Cordial” teremos uma espécie de relatos selvagens brasileiros não apenas a nos defrontar com nossos próprios monstros internos, como teremos na visão de sua diretora Gabriela Amaral Almeida, uma das revelações da década, um novo paradigma de thriller, suspense e pitadas de horror para o circuito comercial de salas de cinema. E diga-se aqui que a inovação alcançada não tem nada de inesperada ou recente, pois a cineasta já vinha pavimentando tijolo por tijolo o arcabouço de sua (est)ética profissional, como com curtas do naipe genial de “A Mão Que Afaga” e “Estátua!”, e com roteiros de longas-metragens como o brilhante “Quando Eu Era Vivo” dirigido por Marco Dutra – definitivamente filmes que precisam ser redescobertos infinitamente.

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Numa técnica direta, seca, porém não menos vivaz, Gabriela consegue ser extremamente dura com seus personagens ou situações desconstruídas da realidade para a ficção metafórica através de cores fortes e reações austeras. A mobilidade da trama é muito mais nas reflexões internas do que na imprescindibilidade da palavra dada. O diálogo é apenas uma distração estratégica para as reviravoltas do corpo, que revela as intenções. E quem diria que a corporalidade nos filmes de Gabriela iria encontrar história tão inusitada quanto abraçada por elenco desafiador para exprimi-la, numa reunião bastante heterodoxa. Em suma, um restaurante de classe recebe seus últimos fregueses conforme a equipe já ia se preparando para fechar as portas, porém o dono intransigente e lacônico está passando por uma crise pessoal e deseja evitar a conversa de final de expediente sobre a revisão de direitos de seus empregados, decidindo atender os clientes indesejáveis apenas para protelar o inevitável. A partir de um repentino assalto, o restaurante vai virar uma situação de reféns a portas fechadas que cambiará de polaridades hierárquicas a cada momento.

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Com uma premissa facilmente encaixada em jornais de crimes populares daqueles em que manchetes sanguinárias vendem mais, Gabriela é uma diretora de sutilezas, mesmo lidando com o escancarado. Cada personagem ou situação de seu filme, como uma gama de relatos selvagens, fala de uma agressão muito maior do que apenas a mira de uma arma que os fazem de reféns. Seja o capitalista empreendedor que atualmente repassa a crise na privação de direitos de seus funcionários hipossuficientes; ou no casal rico e mimado que nunca passou por situações de ter de se colocar solidariamente no lugar do outro; ao direito das mulheres e pessoas trans, em geral tolhidas e violentadas pela misoginia patriarcalista; e mesmo a polícia ou a justiça corrupta, vistos com desconfiança pelo cidadão, que prefere resolver tudo com as próprias mãos. Até onde não provocamos a revolta social até onde o cabo-de-guerra arrebenta para o lado mais fraco da corda?

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O design de produção e arte de Denis Netto e a fotografia da brilhante Barbara Alvarez (“Que Horas Ela Volta?” e “Mãe Só Há Uma”) conseguem pintar um filme de extremas sutilezas com cores fortes e enquadramentos que realcem protuberâncias de formas e preenchimentos dos espaços… Além da melhor trilha sonora Rafael Cavalcanti com sintetizadores do ano, na frente até de “Bom Comportamento”, que fazem uma intrigante alquimia entre o sintético e o orgânico. Mas por quê? Há uma ironia de interessante equilíbrio tênue entre os superlativos e a nuance no subtexto. Tudo é mostrado para em meio ao excesso de informações visuais não evidenciar o que está bem debaixo do nariz. Até mesmo quando Gabriela enfim começa a pintar a tensão de sangue este é uma metáfora das mentiras e segredos que jorram em contradição. Neste sentido, a vivacidade com que a diretora entrelaça a violência gráfica com inesperado e pontual humor mordaz nos comportamentos humanos alude a filmes notavelmente reconhecidos por suas plasticidades artísticas na história do cinema, como “Delicatessen” de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro e “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Esposa e o Amante” de Peter Greenaway. Ambas obras citadas são muito lembradas em como conseguiram reunir o impacto visual e sonoro para reproduzir as bizarrices da condição humana em circunstâncias distópicas, a expor personagens ante distorções da realidade, e que se revelam justamente ao se deixar enganar por relações tóxicas entre arquétipos sociais bastante calcados na veracidade. Não suportamos olhar o reflexo no espelho quando este revela nossas próprias rachaduras, à la “Black Mirror”, como se virássemos notícia numa manchete criminal de jornal sensacionalista.

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Mas Gabriela vai além das reverências, pois se há uma referência maior é a sua própria filmografia. Não há outro nome no meio atual tentando as mesmas experimentações exatamente como a cineasta está se arriscando, apesar de algumas sintonias com a linguagem de algumas outras diretoras que também flertam com o horror psicológico e o terror em suas narrativas emprestadas do fantástico como Juliana Rojas e Anita Rocha da Silveira. Gabriela talvez tenha as narrativas mais assumidamente policiais dentro dos outros gêneros fundidos, mas não no sentido Rubem Fonseca, e sim no sentido clássico e gótico de Edgar Allan Poe.

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Talvez algumas pessoas cogitem que a cineasta seja um pouco dura demais com seus personagens. Talvez até mais severa do que um diretor homem o seria, diriam, definitivamente um equívoco crasso de comparação, pois violência não tem nada a ver com gênero, apesar de a disparidade de gênero na sociedade em geral e até no mundo do cinema sofrer de fortes violências. Por isso mesmo a linguagem continuamente tensa, num constante clímax de abusos e retaliações, seja exatamente a contramedida da denúncia que Gabriela tem a sensibilidade de fazer em face das injustiças sofridas por seus personagens. Afinal, existem sim cineastas mulheres muito mais rígidas do que qualquer homem, independente de qual baliza se utilize para a definição de rigidez, como Claire Denis e Kathryn Bigelow, o que não deveria ser parâmetro de contraposição, e sim padrões independentes e não-binários.

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Enfim, há de se falar sobre a atuação do elenco eclético que, à primeira vista, pareceriam não se misturar, como do gênio Irandhir Santos, que rouba todas as cenas como o cozinheiro trans, ou Murilo Benício como o taciturno dono do restaurante, que possui uma personalidade sombria à espreita dentro de si, como qualquer cidadão dito ‘de bem’ que vomita suas hipocrisias contra terceiros quando não tem controle sobre si. Benicio se revela aos poucos para além dos maneirismos televisivos a que talvez os espectadores tenham se acostumado em demasia, porém acessa recursos dramáticos claramente provocado por sua atuação estar no lugar e hora certos para sua diretora e o preparador de elenco René Guerra (parceiro de Gabriela em outros projetos também) extrair resultados talvez nunca antes vistos no ator. Aliás, de vários deles, inclusive globais, como Humberto Carrão (que se torna cada vez mais autoral da atuação à direção de curtas próprios atualmente).

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Ainda assim, numa trama brutal e sem perdão sobre os vícios e agressões a que nos impomos diariamente, é até de se estranhar que uma diretora mulher tenha selecionado uma protagonista feminina que pareça tão compassiva por metade da projeção. É por isso que confiou tal personagem à sua atriz assinatura, Luciana Paes, que toma seu tempo e confiança da diretora até para desenrolar o novelo de lã de sua personalidade bem aos poucos, até mostrar onde estava a agulha com que costurou toda a trama. Trama costurada por enquadramentos invertidos de poder. Ela tem por premissa ótimas interações com a outra única personagem feminina de maior peso que lhe é a total contraposição na hierarquia social, interpretada por Camila Morgado, e cresce principalmente quando oposta ao olhar plural e opositivo do gigante personagem de Irandhir Santos, com quem faz uma dobradinha que transcende a história e continua até depois dos créditos finais.