O Apartamento

Crônica de dois Apartamentos, metáfora de dois Irãs partidos

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08 de janeiro de 2017

Imaginem um vitrinista que é pago para iluminar vitrines e vender melhor um produto… Não se iludam em pensar que para algo nos parecer irresistível não passe por todo um processo criativo a que você queira até mesmo “morar” naquela vitrine.

Pois o gênio iraniano Asghar Farhadi acabou de revelar como faz seus truques dentro de seu próprio filme. Começando por mostrar como seus personagens iluminam os cenários de uma peça dentro do filme “O Apartamento”, para depois continuar a exibir de formas bem mais sutis e diegéticas como ilumina as questões moralmente ambíguas de seus personagens. Nada mais que um reflexo crítico da sociedade onde vivem; marca registrada do diretor. Pois pega tudo o que já fez nos filmes anteriores, sempre envolvendo a trama em torno de um acidente com vários ângulos, a prender seus personagens numa espiral de expiação da dor.

O aguardado “O Apartamento”, laureado em Cannes com roteiro e ator para Shahab Hosseini, é a nova ousadia dramatúrgica do mestre do ilusionismo social, o iraniano Asghar Farhadi, que neste exemplar se supera mais uma vez. Com uma mise-en-scène ainda mais elegante e complexa do que em “O Passado”, o diretor constrói uma metalinguagem com uma peça de teatro dentro do filme, sobre “A Morte do Caixeiro Viajante” de Arthur Miller, sobre decadência familiar. E, para transformá-la em linguagem visual, revela tanto na primeira cena quanto na última, que se passam nos palcos da peça, como fará seu show de marionetes através do jogo de luzes e refletores. Ou seja, o que for iluminado, ou onde Asghar trouxer luz às questões, será onde esmiuçará o que está sob as camadas superficiais dos personagens.

Como o diretor trabalha em um território muitas vezes hostil ao cinema no Irã, cuja política já censurou grandes conterrâneos como Jafar Panahi e o recém falecido Abbas Kiarostami, Farhadi burla a censura de forma metaforicamente inteligente. Divide a narrativa entre dois edifícios: o que servia de antiga moradia dos personagens, que sofreu algum tipo de enfrentamento do governo ou desapropriação, jamais perfeitamente explicados, pois a única dica é uma escavadeira que está destruindo os alicerces de um prédio rachado e quase ruindo, o que obriga todos a evacuarem; E o apartamento novo alugado pelo diretor geral da peça de teatro onde o casal de protagonistas trabalha, que parece um ótimo lugar, mas esconde podres sociais que podem afetar o casal… Esta separação entre dois edifícios nada mais é do que a distinção entre o antigo Irã e o atual, o passado decadente e demolido e o presente que se faz parecer novo e ideal, mas não gosta de mostrar a verdadeira face prejudicial…

Melhor não descrever mais nenhum detalhe da sinopse, senão os acima referidos, pois cada acontecimento causa profundas reflexões e mudanças nos personagens. Por isso a atuação do casal está tão inspiradora, tendo, inclusive, a atriz Taraneh Alidoosti merecido igualmente a láurea que sua contraparte masculina levou em Cannes (mas que não foi nem para ela, nem para as favoritas Sônia Braga por “Aquarius”, nem Isabelle Huppert por “Elle”, e sim para Jaclyn Jose por “Ma’Rosa).

E a câmera do filme realmente dá camadas a mais para as arrebatadoras interpretações, como dimensionando mais de uma cena simultânea acontecendo nos prédios em questão. Por exemplo, também, a cena do teatro onde a peça é mostrada da cabine de controle do diretor, através do reflexo do vidro, refletindo a mesa de operação do som e luzes ao mesmo tempo em que os atores estão atuando lá embaixo. E Farhadi se usa de cenários familiares às suas problemáticas favoritas, como escadarias, portas fechadas e pessoas trancadas, e janelas e varandas… Bem como desconstrói o típico plano americano fixo, apenas fingindo que será um plano imóvel, para depois acompanhar os personagens com o ângulo de enquadramento e mudar a perspectiva pela qual o cenário está sendo visto. Outra coisa é que o diretor vai aos poucos aumentando a tensão da expectativa do porvir, lição passada de geração para geração como por Hitchcock e De Palma. O clímax é postergado ao máximo, como se o diretor estivesse fazendo amor com o suspense da narrativa, até explodir para lados que o espectador não espere, aumentando o ritmo de transição do plano para o contraplano, bem como o número de personagens em cena.

No já clássico maior “A Separação”, o diretor o fez com o ‘não dito’, com o que ele não mostrava na projeção, e depois voltava como pontos de vista de cada personagem. Já em “O Passado” a problemática acontecia muito antes do ‘tempo’ existente dentro do filme, e só era resgatado através da memória falada no esquecimento do passado… Aqui, ele brinca com as expectativas de arquétipos sociais, eclodindo no julgamento do espectador externo ao filme. Consegue dar uma ótima resolução para um dos tabus mais espinhosos da sociedade, justamente dando o poder da cena sutilmente de volta à protagonista mulher. O que encerra a metáfora com a peça “A Morte do Caixeiro Viajante”, sobre derrocada familiar de um homem através de vergonhas sociais…mas quem deverá ser o derrocado?… Algumas surpresas aguardam o espectador. Uma obra de arte em movimento.

 

Mostra de São Paulo 2016 – Mostra Principal

O Apartamento (The Salesman)

Irã, 2016. 130 min

De Asghar Farhadi

Com Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5