O Ateneu

Espetáculo presta homenagem à encenação original de Carlos Wilson, 30 anos depois, com uma nova geração de atores, em formação

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01 de junho de 2018

Assistir ao O Ateneu é literalmente uma viagem ao tempo. Aos bons tempos do teatro jovem carioca dos anos 80/90. Época muito profícua de um formato de teatro feito por jovens, e para jovens, realizado por Carlos Wilson (24.5.1950- 11.01.1992), conhecido carinhosamente entre nós, como Damião. Damião construiu a sua carreira no O Tablado, onde atuou em diversos espetáculos de Maria Clara Machado, e foi o responsável em preencher uma lacuna de diálogo com este segmento; além de lançar jovens talentos e explorar também o universo erótico e a potência de corpos em constituição; e os musculosos. Sua principal especialidade era a de adaptar clássicos da literatura mundial, onde realizou grandiosas montagens de “Capitães de Areia” de Jorge Amado, “Os Três Mosqueteiros” em adaptação de Ana Maria Machado, “Os Doze Trabalhos de Hércules”, do livro de Monteiro Lobato, “A Odisséia” de Homero (uma adaptação de Domingos de Oliveira) e “O Guarani” de Carlos Gomes.

Carlos Manhente e Carolina Dionísio em cena de "O Ateneu".

Caio Manhente (como Bernardo) e Isabela Dionísio (como Melica) em cena de “O Ateneu”.

Carlos Manhente e Carolina Dionísio em cena de "O Ateneu".

Victor Mello (como Sergio) e Vinícius Turkienics (como Egbert) em cena de “O Ateneu”.

Entretanto, foi em 1987, que Damião, encenou O Ateneu, baseado no romance de Raul Pompéia. Sendo uma de suas peças de maior êxito e que revelou uma geração inteira de atores: Selton Mello, Du Moscovis, Marcelo Serrado, Leonardo Brício, Paulinho Moska, Otavio Muller, André Mattos, Guilherme Piva, Fernando Fernandes, Marcelo Valle, Paulinho Serra, Enrique Diaz, Bianca Comparato e tantos outros. Trinta anos depois, O Ateneu volta aos palcos com uma nova geração de atores para uma curta temporada no Teatro Oi Casagrande, com adaptação teatral de Adriana Maia e Carlos Wilson (in memoriam) e direção de remontagem de Oberdan Junior e Marcelo Cavalcanti. Com 37 atores no elenco, entre eles Vitor Thiré e Caio Manhente, e uma equipe técnica de mais de 60 profissionais, o espetáculo conta a trajetória do menino Sérgio dentro de um internato no final do Século XIX, um pequeno mundo em que ele vai viver suas primeiras amizades, experimentar a hipocrisia, descobrir o amor e enfrentar muitas injustiças.

Vitor Thiré ( como Barbalho) , a frente do elenco de jovens atores em formação.

Vitor Thiré (como Barbalho) , a frente do elenco de jovens atores em formação.

Empreitada de grande coragem para os dias de hoje; levantar uma produção deste porte, é um esforço hercúleo, e merece todo o nosso reconhecimento. Colocar uma equipe de 60 profissionais e 37 atores em cena, em pleno 2018 do golpe sofrido na democracia brasileira; e onde uma grande crise se abateu sobre a economia e uma sórdida perseguição a nossa classe artística. Um país polarizado, e recheado de fascismo e fake news; onde uma minoria chega ao descalabro de pedir intervenção militar e querer um candidato a presidente fascista – que faz alude à tortura -, homofóbico e misógino. Tudo isso faz com que esta montagem seja um símbolo deste importante momento atual, onde reafirmamos a nossa resistência diante de fatos tão atrozes e sórdidos. Dentro do universo deste Ateneu, enfrentamos todos os tipos de situações opressoras, verticalizadas, autoritárias. Onde os alunos vão sendo massacrados aos poucos em assédios morais; que o levam para o lugar da luta e da rebelião. Pela mudança dos valores e contra a inércia da não aceitação. Tudo isso nos faz olhar com muito carinho, e ternura, para esta obra e montagem, deixando para segundo plano o frágil trabalho do elenco; que apresenta força nas cenas em conjunto e na extrema dedicação da direção de remontagem de Oberdan Junior e Marcelo Cavalcanti, que conseguiu transmitir o rigor de Damião nas coreografias coletivas e no bom uso da espacialidade- com os bancos de madeira – que servem a todas as cenas do espetáculo-; e empregando também um tom de contemporaneidade com a contribuição de Claudio Baltar em técnicas de efeitos aéreos. Contando também com a competente equipe técnica: Dody Cardoso (coach vocal), Biza Vianna (Figurino), Luiz Paulo Nenen (Iluminação), Milton Nascimento/ Fernando Brant (Música) e Carlos Cardoso (Trilha sonora).

É louvável também no projeto a homenagem prestada ao Damião e a grande família que se formou, a partir de todas as importantes montagens de O Ateneu (1987,1989, 2002 e 2018). Um país sem memória como o nosso, precisa se orgulhar sempre de iniciativas que recolocam os holofotes apontados aos principais momentos, e nomes, de nosso teatro jovem carioca.

 

Ficha Técnica

Direção: Carlos Wilson (in memoriam)

Adaptação Teatral: Adriana Maia e Carlos Wilson (in memoriam)

Direção de Remontagem: Oberdan Junior e Marcelo Cavalcanti

Elenco:
Arthur Brasiliano (Franco)
Breno Brizola (Rui)
Caio Graco (Lourenço)
Caio Manhente (Bernardo)
Caio Pozes (Malheiro)
Danilo Lobo (Samuel)
Diego Cruz (Domingos)
Diogo Tarré (Bento Alves)
Rafael Aguirre (Rebelo)
Felipe Janer (João)
Felipe Sampaio (Joaquim)
Gabriel Borgongino (Jorge)
Gabriel Neto (Icaro)
Gabriel Savelli (Gregório/Roupeiro)
Gabriel Terra (Cruz)
João Fernandes (Pedro Paulo)
Jorge Hissa (Raimundo)
Gabriel Oliveira (Romulo)
Gustavo Weikersharmer (Tobias)
Henrique Lott (Sanchez Alternante)
João Pedro Celli (Gualtério)
Luis Felipe Dal-Cól (Sanchez/Bernardo Alternante)
Matheus Faria (Mata)
Matheus Santelli (Almeidinha)
Paulo Ernesto Maradona (João Numa)
Pedro Soares (Moisés)
Rafael Telles (Stand-in)
Victor Hugo (Gabriel)
Vinícius Calixto (Cauê/Noivo)
Vinicius Portella (Alexandre Akerman)
Vinícius Turkienics (Egbert)
Victor Mello (Sergio)
Vitor Thiré (Barbalho)

Participações:
Catarina Saibro (Angela)
Daniel Braga (Mânlio/Venâncio)
Isabela Dionísio (Melica)
Nicolai Nunes (Silvino)
Roberta Repetto (D. Ema)

Direção musical: Dody Cardoso

Assistente de direção: Giovanna Maia

Figurino: Biza Vianna

Assistente de figurino: Paulo Vitor

Iluminação: Luiz Paulo Nenen

Cenário: Jandir Ferrari e Carlos Wilson (in memoriam)

Produção de cenário: Paulo Vitor

Cenotécnico: Seu Humberto e Humberto Junior

Trilha Sonora: Carlos Cardoso

Música: Milton Nascimento e Fernando Brant

Programação Visual: Rafael Aguirre

Produção: MS Arte & Cultura

Idealização: Oberdan Junior e Fala na Cara Produções

 

Serviço

Temporada: de 20 de março a 4 de abril – terças e quartas, às 19h.

Local: Teatro Oi Casa Grande

Endereço: Av. Afrânio de Melo Franco 290, Leblon. Tel.: 2511-0800.

Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).

Classificação etária: 16 anos. Duração: 110 min.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 3