O Auto da Compadecida

Montagem da Cia Limite 151 se apoia nos autos vicentinos e nos folguedos nordestinos

por

29 de julho de 2017

O “Auto da Compadecida”, é um dos maiores clássicos do teatro brasileiro, escrito em 1955 pelo dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta, professor e idealizador do Movimento Armorial, o saudoso paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), um dos maiores escritores, em todos os tempos, no país; que retornou à cena em nova temporada no Teatro Eva Herz na cidade do Rio de Janeiro. Encenação da Cia Limite 151 que esteve em cartaz, por diversas temporadas no Rio, Curitiba e Belo Horizonte, entre os anos de 2012 e 2015. A trama, bastante conhecida, e há muito impressa na memória afetiva e coletiva do povo brasileiro, se passa no vilarejo de Taperoá, sertão da Paraíba, onde João Grilo  e Chicó, dois nordestinos sem eira nem beira, que preparam inúmeros planos para conseguir um pouco de dinheiro. Novos desafios vão surgindo, provocando mais confusões armadas pela esperteza de João Grilo, sempre em parceria com Chicó, mas são interrompidos pela chegada do cangaceiro Severino e a morte de João Grilo. Todos os mortos reencontram-se no Juízo Final, onde serão julgados no Tribunal das Almas por um Jesus negro e pelo diabo. O destino de cada um deles será decidido pela aparição de Nossa Senhora, a Compadecida e traz um final surpreendente, principalmente para João Grilo.

Auto 01

Gláucia Rodrigues se destaca como João Grilo na montagem de “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna. Foto Chico Lima.

Auto 2

Edmundo Lippi e Rafael Canedo em cena de “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna. Foto Chico Lima.

O projeto, bem embasado, e cercado de bons profissionais, – produzido pela experimentada Cia Limite 151 -, é dirigido por Sidnei Cruz; que mergulha fundo em sua encenação, a começar pela valorização do sertão e dos sertanejos, assim como Suassuna, em toda a sua obra; e desenvolvendo com propriedade o conceito do espetáculo nos autos vicentinos quinhentistas e nos folguedos nordestinos, realizados a céu aberto. Fazendo-se valer de arquétipos e questões universais, numa trama de tons farsescos característicos da obra. O teatro vicentino é o nome dado aos textos teatrais produzidos pelo dramaturgo português Gil Vicente durante o período denominado Humanismo (1434-1527). Tem início em 1502, quando ele apresentou sua peça o “Monólogo do vaqueiro”, também chamado de “Auto da visitação”. Posto que a maior parte de suas peças possuem teor satírico, vale lembrar uma das mais célebres frases do dramaturgo: “Rindo se castigam os costumes”. O humanismo determinou uma fase de transição entre o trovadorismo e o classicismo. O momento que marcou o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna. As principais características do humanismo é a valorização do ser humano, com o advento do pensamento antropocêntrico (homem no centro do mundo) no período renascentista. Seguindo essas diretrizes, Cruz soube equilibrar as características atribuídas aos autos vicentinos, como o retrato da sociedade, um teatro de costumes, a crítica social, uma obra de caráter universal, com a presença de temas de cultura popular, e com a presença de personagens caricaturadas, alegóricas, humoradas, cômicas e místicas. Obras que possuem caráter moralizante e satírico, assim como temas pastoris, cotidianos, profanos e religiosos. Tudo isso pode ser muito bem a síntese do que é tanto a peça como a encenação deste auto. Utilizando palco aberto, com mudanças cênicas realizadas à vista do público, e atores-personagens dirigindo-se ao público com apartes, cumplicidades, comentários e provocações; a peça investe com acerto em todas estas características farsescas. Um cenário bem simples, funcional, feito essencialmente de arquibancadas e flâmulas, em uma cena crua e nua de José Dias, um figurino alegórico de Samuel Abrantes e uma iluminação estática e com pouquíssimos efeitos de Aurélio de Simoni, e a direção musical de Wagner Campos.

Auto 3

A montagem mergulha sua concepção, com acerto, nos autos vicentinos quinhentistas e nos folguedos nordestinos. Foto Chico Lima.

Centrado na mistura destes conceitos, a montagem valoriza com tudo isso a interpretação harmônica dos atores em seus esteriótipos. Todos conseguem extrair bons momentos de suas atuações, com destaque para Glaucia Rodrigues como o incansável, persistente e aproveitador João Grilo e Robson Santos como o juiz do povo Manuel e o próprio Jesus Negro, o juiz do céu.

Ficha técnica

Texto: Ariano Suassuna

Direção: Sidnei Cruz

Elenco/Personagem:

Gláucia Rodrigues / João Grilo

Rafael Canedo /Chicó

Edmundo Lippi / Padre João

Andressa Lameau / A Mulher do Padeiro

Jacqueline Brandão ou Flávia Fafiães / A Compadecida

Robson Santos / Manuel

Leo Thuler ou Bruno Ganem / O Padeiro

André Frazzi / O Sacristão

Arnaldo Marquês / Bispo

Luiz Machado / Antonio Moraes

Kakau Berredo / O Encourado

Marcio Ricciardi / Severino De Aracajú

Música Original e Direção Musical: Wagner Campos

Cenário: José Dias

Figurino: Samuel Abrantes

Iluminação: Aurélio de Simoni

Arte: João Guedes

Fotos: Chico Lima

Programação Visual: Sydney Michellette

Produção Executiva: Valéria Meirelles

Direção de Produção: Edmundo Lippi

Divulgação: Jspontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Serviço

Reestreia: dia 16 de junho

Local: Teatro Eva Herz da Livraria Eva Herz da Livraria Cultura. Rua Senador Dantas, 45 – Centro /RJ . Tel: (21) 3916-2600

Horário: 3ª a sábado às 19h

Duração: 100 min.

Ingressos: 3ª e 4ª R$30,00 e R$15,00 (meia); 5ª a Sábado R$40,00 e R$20,00 (meia), na bilheteria ou pelo site www.ingressorapido.com.br – funcionamento bilheteria: de 2ª a sábado a partir das 16h

Gênero: comédia

Classificação indicativa: 10 anos

Temporada: até 29 de julho (no dia 15/06 não haverá sessão)

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4