O Chamado 3

É importante que entendamos a história dessa franquia em Hollywood

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03 de fevereiro de 2017

Começo essa crítica pedindo licença ao caro leitor. Esse texto será um pouco maior que seria se abordasse apenas a crítica de “O Chamado 3”. Para que entendamos plenamente o que vimos em tela, é importante que antes entendamos a história dessa franquia em Hollywood.

Em 2002, o primeiro filme da franquia “O Chamado” chegava ao ocidente, sendo um dos responsáveis pelo começo da onda de adaptações americanas dos filmes de terror orientais. A ideia era simples, mas eficiente:  uma fita de VHS amaldiçoada que matava quem a assistisse em exatos sete dias.

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Essa premissa, de uma mídia audiovisual amaldiçoada, tem forte apelo justamente em quem está consumindo uma mídia audiovisual – o próprio filme – provocando já uma natural empatia entre o público e os personagens em tela. Ambos viram a fita e é natural que sintam-se ligados.

Esse primeiro filme é o que mais se nota uma preocupação com a direção, chegando a ter tomadas que referenciam Hitchcock em Psicose e Janela Indiscreta. A duração da maldição, de sete dias, é bem utilizada, criando uma sensação de urgência no público, já que a tragédia aproxima-se a cada minuto. O filme ainda utiliza signos circulares recorrentes na composição dos quadros ou nas transições de cena. A trilha sonora é utilizada poucas vezes para sustos e mais para criar a atmosfera de tensão.

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O primeiro filme revelou o diretor Gore Verbinski, que anos mais tarde dirigiu os filmes da franquia “Piratas do Caribe” e chegou a ganhar um Oscar de Melhor Filme de Animação em 2012 por “Rango”. O filme foi também  responsável por dar à Naomi Watts o reconhecimento do grande público – embora ela já houvesse conquistado a crítica um ano antes em “Mulholland Drive”/”Cidade dos Sonhos”, de David Lynch. Além disso tudo, o primeiro filme transformou Samara, a vilã descabelada da franquia, em um monstro que parte do imaginário popular.

Para segundo filme da franquia, foi trazido pra Hollywood Hideo Nakata, diretor da versão japonesa. O diretor conseguiu, com sucesso, transmitir o terror por meio de imagens e enquadramentos com uma semiótica própria. Entretanto, esse segundo filme mescla alguns momentos subjetivos, mais sensitivos e de pouca explicação prática – típico do cinema japonês –  e momentos com explicação excessiva, parecendo subestimar seu público – característica típica de alguns produtores americanos. Além disso, todo senso de urgência do primeiro filme é abandonado e o roteiro força uma nova explicação para a origem de Samara, complementar à explicação do primeiro filme, exigindo de seu público uma suspensão de descrença grande demais, até mesmo para seus complacentes fãs. O resultado foi um filme que acerta em alguns momentos, mas que não funciona como uma unidade coesa.

Doze anos depois, chegamos à terceira etapa dessa franquia. A história, agora trazida para os tempo atuais, tenta substituir o obsoleto VHS por um arquivo de vídeo amaldiçoado. A relação mãe e filho que havia nos outros dois filmes é substituída por uma relação de casal. Talvez sejam adaptações para alcançar um público mais jovem, que vem descobrindo e se apaixonando por um subgênero de terror moderno.

Bonnie Morgan as Samara in RINGS by Paramount Pictures

Bonnie Morgan as Samara in RINGS by Paramount Pictures

Em “O Chamado 3”, a nova protagonista Julia (Matilda Anna Ingrid Lutz) e seu namorado Holt (Alex Roe) começam a investigar sobre o misterioso vídeo de Samara, até descobrirem que existe um “filme dentro do filme” que ninguém ainda havia visto.

O filme dedica boa parte de seu início em uma longa trama secundária em que o VHS de Samara é estudado por uma espécie de sociedade secreta. Todo esse desenvolvimento parece ser esquecido na segunda metade do filme, que tenta focar em uma nova explicação da origem de Samara, complementares às explicações dos outros dois filmes. Ainda que a história até faça sentido dentro da cronologia da triologia, se a tentativa pareceu forçada no segundo filme da franquia, nesse torna-se ainda mais difícil de convencer.

O senso de urgência, muito bem executado no primeiro filme e deficiente no segundo, é completamente abandonado nesse terceiro filme, já que a protagonista poderia livrar-se de seu calvário a qualquer momento, caso optasse. Sem tentar utilizar-se do suspense ou do terror psicológico, o filme utiliza-se apenas de sustos fáceis enquanto descortina uma história que exige demais da boa vontade do público.

Apesar de tudo isso, o filme se esforça para trazer algumas metáforas, como a de Orfeu que vai até o submundo tentar resgatar a sua amada. A metáfora entretanto perde a sutileza quando é explicada de uma forma incrivelmente didática dentro do filme, mais uma vez subestimando a audiência. A direção com alguma riqueza dos outros dois filmes é substituída por um trabalho correto mas pouco criativo.

Apresentando alguns personagens com bom potencial para descartá-los rapidamente, tramas secundárias igualmente descartadas ao longo do filme, “O Chamado 3” tem no roteiro a sua maior deficiência. Ainda sim, consegue dar alguns sustos, e pode agradar quem espera só isso de um filme de terror.

O Chamado 3  (Rings)

EUA, 2017. 102 min.

De  F. Javier Gutiérrez

Com Matilda Lutz, Alex Roe, Vincent D’Onofrio

Avaliação Gabriel Gaspar

Nota 2