O Charlatão

Amor aprisionado sem direito de escolha social

por

04 de novembro de 2020

“O Charlatão” da mestra polonesa renomada Agnieszka Holland (entrevista aqui), é uma biografia de Jan Mikolásek, um fitoterapeuta tcheco perseguido pelo regime governamental por suas práticas alternativas e por sua sexualidade.

Numa trama que transita entre o passado e o presente, com o mesmo personagem interpretado por dois atores que de fato são pai e filho na vida real, Ivan Trojan e Josef Trojan, os quais se complementam muito bem. A frieza e racionalidade excessiva do protagonista são verídicas, e talvez necessárias para que tivesse sobrevivido às perseguições e censura, porém é através da triangulação da história através de um romance proibido pelo governo da época que o thriller de fato se torna mais enriquecedor.

A interpretação do ótimo Juraj Loj, como o coadjuvante que será interesse romântico do protagonista mais velho, é quem criará a maturidade necessária para além do arquétipo engessado do médico meramente frio e cerebral. Caso não fosse esta humanização, talvez recaísse num esteréotipo caricato ou exagerado, sem o qual pudéssemos criar identificação.

E é através desta relação, e do amor censurado pelo regime da época, que o desenvolvimento da trama toma caminhos dolorosamente pouco esperados, especialmente quando as pessoas são obrigadas a tomarem decisões sem direito de escolha, pois quando se falta liberdade e ética de escolher, o que temos filosoficamente falando é uma imposição; uma coerção. E apenas uma diretora maturada como Holland consegue equilibrar a construção da tensão em tons acinzentados e metálicos em face do romance até idílico em tons agridoces de sépia, como uma folha amarelada e envelhecida sob o sol, guardada nas páginas de um livro amado e guardado anos atrás…

Entrevista com a diretora:

Berlinale 2020: Coletiva de imprensa de “Charlatan” de Agnieszka Holland, com a presença da própria, dos atores Ivan Trojan, Juraj Loj, Josef Trojan, e produtores Sárka Cimbalová e Mike Downey.
Sobre a pesquisa sobre o personagem histórico verídico, a diretora aponta os pesquisadores roteiristas e agradece a eles porque recebeu para ler já pronto. Viu o quanto era fascinante e muita coisa parecia nova, mesmo sendo verídica, porque ele já estava menos conhecido hoje em dia…e tinha a chance de fazer um ótimo filme ficcional revitalizando a memória sobre ele. Pois ele sempre foi muito conhecido na República Tcheca, e depois que ele foi solto jamais tentou tratar e curar ninguém, então começaram a esquecer sobre ele, mas não totalmente, porque está no subconsciente da sociedade. Todos na equipe tinham pelo menos alguém na família ou conhecido que já havia sido curado por ele. Então trouxe muito de volta.
Sobre como a diretora anda fazendo vários filmes consecutivos recentemente (como ano passado “Mr Jones”), e ela fica feliz de trabalhar tanto e sente que possui uma responsabilidade muito grande e que se sente responsável por contar essas histórias e além dos filmes possui muita experiência com séries e tv também o que ajuda muito nos cronogramas. Sobra tempo de trabalhar durante o sono (risos): “Tenho melhores ideias e continuo trabalhando mesmo dormindo.”
Sobre a relação homoafetiva belíssima e erotismo à la “Me Chame Pelo Seu Nome”, o ator Juraj fala que ele e Ivan se tornaram amigos antes mesmo das filmagens e isso inspirou muito a química na tela, e Ivan acrescenta brincando que só durou durante o filme, pois voltou feliz para a esposa (risos) e a diretora brinca que a amizade entre eles dura mais do que o filme até hoje. A diretora acrescenta que para além da biografia complexa havia essa história de amor com muito potencial dramatúrgico e que precisava ser tocado com sensibilidade porque foi o que fez eles atravessarem as crises.
Sobre a preocupação da diretora em relação à natureza e preservação das florestas naturais e a pesquisa de profissionais que participam de seus projetos como sobre a botânica neste filme e sobre outros filmes… Ela diz que sente muito orgulho dos profissionais que a ajudam, como a escritora Olga Tokarczuk que ganhou Nobel literário ano passado. E tudo o que ela faz é para gerar consciência através da arte, e se sente responsável, até porque o governo da Polônia está muito próximo do governo norte-americano atual que não se preocupa com nada disso… E ela pensa até quando isso irá durar, quem perecerá 1°: a natureza ou esses homens que têm muita certeza do que fazem mas não têm o interesse da população em mente.
Sobre a homossexualidade dos personagens e terem escondido por tanto tempo, sendo ilegal lá na época, e se era sabido pela população, ela diz que em parte era um rumor…e fazia parte da identidade deles terem de esconder, porque o que mantinha eles seguros era o fato de terem salvado muita gente importante…mas conforme elas iam morrendo, eles foram perdendo a segurança…
Sobre política fascista atual na Polônia, estamos vivendo em tempos em que o governo está alimentando o público com mentiras e ultra simplificações que são mentiras porque vendem preto e branco e não cinza. O filme pode não ser necessariamente político, mas é político se contar a história com seus vários lados, e não deixar nenhum de lado.
Ivan diz que estamos vivendo polarizações e contradições…sim, mas não podemos deixar de ter liberdade de discutir isso para lutar contra governos totalitaristas crescentes hoje em dia. A situação deles está até melhor que na Hungria, mas Ivan disse que tudo o que pôde se manifestar publicamente como ator contra esta situação ele se manifestou. E continuará a fazer tudo contra totalitarismo.
Ivan diz que espera que todos entendam que o personagem dele era complicado…sim. E já trabalhou antes com a diretora e nem precisavam conversar sobre alguns personagens porque eles o compreendiam de forma clara. Mas sobre este personagem de agora ele levantava muitas questões para ela… Não era simples que seu anti-herói fosse também desagradável às vezes e muita gente assistindo ao filme não vai gostar dele em várias cenas. E ele desvia do que seria socialmente aceitável, e mesmo que nós venhamos a torcer pelo personagem porque ele lutava também contra insjustiças, como a homofobia, ele fazia coisas questionáveis também por ter que esconder isso… E era frequente Ivan perguntar para a diretora o quanto ele poderia interpretá-lo de forma desagradável… E há um equilíbrio entre pontos negativos que precisam existir também…E como ator se afeiçoava e queria redimí-lo, mas ela buscava os pontos negativos…ela sempre faz isso em seus projetos e dá essas camadas. E elogia o roteiro, dizendo que já trabalhou em peças em que o roteirista foi dramaturgo também.
A diretora pede para o roteirista levantar para aplaudirem ele.
Ela diz que não vê a história de forma linear como se acontecesse de forma linear…como se fosse um registro monocromático. E muita gente está fazendo isso hoje em dia. Quando a história é mais como aquele filme “Feitiço do Tempo (groundhog day) e revisitamos a história o tempo todo e isso muda nossa consciência…Mesmo que a política goste de estigmatizar e lidar com estereotipos facilitadores, precisamos sim rever os fatos. Mesmo quando é difícil. Até jornalistas hoje em dia com a mania de ver tudo simplificado não sabem nem dizer direito o que aconteceu ontem… Imagina, então, o que está mais no passado… E ela se perguntou por que tinha que fazer esse filme logo agora? Eles eram figuras humanas e com identificação relacionável hoje…
O ator Juraj diz que também acredita que a história não é linear e a leitura tem de sempre ser revista. Ele vem da República Tcheca e lá está ascendendo o neo nazismo de novo e nem possuem medo de ostentar a tatuagem… E pessoas simples estão votando neles por causa de economia e etc e ignoram completamente a ideologia deles.
A diretora acrescenta que tem atores na equipe tchecos e iuguslavos…e visões diferentes. E isso é ótimo.
Josef diz que é jovem e se sente honrado de ter recebido esta proposta no início ainda da carreira, mas a experiência dela o marcou muito porque traz visões que transformam.
Ela acrescenta que mesmo não sendo um papel grande (ele interpreta o protagonista mais jovem) mas teve de ensaiar muito por isso. Saber mexer em armas da 2a Guerra Mundial, aprender todas as plantas antes de todo mundo etc…
Ivan acrescenta que Josef é seu filho mas nem sabia que ele tinha feito o teste de elenco e só descobriu quando a diretora o escalou: e é difícil dividir o mesmo papel com um mesmo ator, e era logo o filho dele representando-o mais novo e ele ficou maravilhado pelas similaridades e o talento real impresso para além da proximidade genética.
Sobre heroísmo, ela rejeita a palavra herói, mas aceita “pessoas de coragem” que lutam contra injustiças impostas…e essas pessoas são raras, e até podem possuir qualidades heróicas durante a guerra…mas independe disso. Pessoas que ela considera heróicas já disseram para ela que seus atos independiam da política, e nem queriam saber da política mas que a política é que queria saber deles… E esse personagem queria curar, só isso. E continuar a fazer o trabalho dele. Essa noção de heroismo se tornou suspeita….especialmente quando vê o nacionalismo ascender de forma exagerada com símbolos nazistaz e estas mesmas pessoas nomeando “heróis”, e isso a preocupa. Vamos não falar em heroísmo e sim de coragem.
Ela possui muitas influências da nouvelle vague tcheca como “Pequenas Margaridas” de Vera Chytilová… o melhor desse cinema do final de 70 antes que a política matasse esse cinema, mas era o mais sensual e lindo que ela conhece.
Perguntam sobre “Me too” na dubialidade da relação entre personagens e perguntaram se lembrava o Kevin Spacey….?
Ela diz que chegou a pensar nas várias camadas complexas da relação sim….E já até trabalhou com Spacey em séries e ele era soberbo como ator mas essa soberba vinha com o ego e certa prepotência que ela consegue entender as acusações….mas se o personagem deste filme talvez tivesse algo a ver com essas características, mas ele ia além dessas, e não era uma pessoa egoísta nem oportunista, não usava a relações amorosas para obter algo, mesmo que na clandestinidade da época às vezes algumas relações envolviam algum tipo de “troca” para acontecer nas sombras…
Ivan diz que Pessoas com certas idades querem dominar alguns conhecimentos, e questionavam o conhecimento do personagem, e por isso o título é Charlatão, mas ele era fascinante e isso foi trazido para o filme e as pessoas se interessam por saber mais sobre essa história.
almanaquevirtual.com.br/berlinale-coletiva-de-charlatain-de-agnieszka-holland/