O Ciclo da Vida

Novo filme de Yang Zhang diverte e emociona, mas não se aprofunda como poderia

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12 de agosto de 2015

Graças à ciência e à medicina, a expectativa de vida do ser humano não para de aumentar. O lado negativo disso é que, junto com uma vida mais longa, vêm também novos problemas que a sociedade moderna não está acostumada a enfrentar. A fragilidade e a deterioração gradual da saúde das pessoas muito idosas são inversamente proporcionais ao ritmo cada vez mais acelerado da rotina dos mais jovens, especialmente quando doenças degenerativas como o Alzheimer se manifestam. É aí que surge a aflitiva pergunta: o que fazer com nossos idosos? É preciso tempo, carinho, paciência e recursos para cuidar deles, mas sem o dinheiro proveniente do trabalho isto não se faz possível. Seja por impossibilidade ou falta de vontade de cuidar dos idosos, a solução atual se concentra fortemente nas casas de repouso. Assim como outras formas de arte, o cinema abraçou esta nova realidade e vem explorando diferentes lados do envelhecimento ao redor do mundo, indo da comédia (o hispano-argentino “Elsa & Fred” (2005), que ganhou um remake estadunidense em 2014, os britânicos “O Quarteto” e “O Exótico Hotel Marigold” 1 e 2) ao drama (o argentino “O Filho da Noiva” com Darín, o francês “E se Vivêssemos Todos Juntos?”, o pesadíssimo “Amor”, “A Família Savage”), passando até pela ação (“RED – Aposentados e Perigosos” 1 e 2).

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“O Ciclo da Vida”, mais recente longa-metragem de Yang Zhang (“Banhos” e “Flores do Amanhã”), trata de tais questões de forma bastante realista e delicada. O enredo começa numa casa de repouso na China, onde os residentes – todos no mínimo na faixa dos 70 anos até pouco mais de 90 – estão desanimados e a maioria está abandonada pelos parentes. É lá que Sr. Ge (Huanshan Xu) vai morar após a morte de sua esposa e encontra seu antigo amigo Sr. Zhou (Tian-Ming Wu), e juntos lideram um grupo com idosos cheios de entusiasmo para descobrir o que a vida ainda lhes reserva numa divertida road trip rumo a um concurso de talentos de um reality show televisivo e à descoberta de que é possível ser feliz na terceira idade.

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Baseado na história original de Fendou Liu (co-roteirista de “Spicy Love Soup” e “Banhos”), o filme parece uma versão chinesa da animação espanhola “Rugas” (2011), de Ignacio Ferreras: o arco dramático é quase idêntico, com poucas modificações. Entretanto, não alcança a mesma consistência que a película de Ferreras por não saber equilibrar comédia e drama, e pelo ritmo inconstante que torna os 105 minutos de fita mais cansativos do que o esperado. Com roteiro de Yang Zhang, Xin Huo e Zhang Chong, “Fei Yue Lao Ren Yuan” (no original) começa bem ao apresentar situações que fazem o espectador sorrir e ao inverter os papeis quando os pais precisam da autorização dos filhos para viajarem como num passeio escolar, mas peca ao inserir elementos clichês, como uma difícil relação entre pai e filho, com a única finalidade de levar o público às lágrimas.

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O longa de Zhang é cercado de boas intenções e de mensagens encorajadoras para quem está no fim da vida, além de retratar uma história universal que nos faz refletir. Ainda que o último ato seja muito melodramático, o seu desfecho emociona por transbordar poesia. Se as seis mãos que escreveram a trama não tivessem pesado tanto no sofrimento dos personagens, o filme seria uma excelente dramédia sobre a dor e a delícia de estar na chamada melhor idade. “O Ciclo da Vida” cumpre com a sua proposta, mas desperdiça um grande potencial de se aprofundar no tema.

 

 

O Ciclo da Vida (Fei Yue Lao Ren Yuan)

China – 2012. 105 minutos.

Direção: Yang Zhang

Com: Huanshan Xu, Tian-Ming Wu, Bin Li, Bingyan Yan, Deshun Wang e Tongsheng Han.


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